Televisão

Quem é David Choe, o artista que virou ator e surpreendeu tudo e todos em “Beef”

É um artista milionário e polémico e agora ator da série. Já foi detido várias vezes e assume ser “um viciado fora de controlo”.

Não restam grandes dúvidas. “Beef” é a série do momento e se Ali Wong e Steven Yeun têm captado todas as atenções, há um elemento no elenco que tem, afinal, uma maior importância do que se julgaria à partida.

Quase sempre presente está Isaac Cho, o primo criminoso de Danny Cho (Yeun), que além de ajudar a potenciar o drama, é também o autor de cada uma das peças de arte que antecedem cada um dos episódios. Na realidade, Isaac é David Choe, conhecido artista californiano, famoso pelas suas peças coloridas — mas também por alguma controvérsia.

A série que estreou a 6 de abril saltou imediatamente para o top dos mais vistos e rapidamente juntou uma pontuação impressionante de 100 por cento no agregador Rotten Tomatoes. A trama é alavancada pelas duas personagens principais, a braços com graves problemas de raiva. Um desentendimento no trânsito dá origem a um jogo do gato e do rato, e à medida que Danny e Amy tentam vingar-se, em partidas cada vez mais dramáticas — acabam por revelar os dramas pessoais da vida de cada um.

Vital para algumas das reviravoltas da história é Isaac, o primo de Danny, com uma tendência para as atividades criminais. David Choe, de 46 anos, foi o escolhido para assumir o papel, apesar da sua inexperiência em séries televisivas. À exceção de meia-dúzia de trabalhos de voz e de breves aparições, a única experiência de relevo no currículo aparece em 2021, altura em que a FX lhe deu o seu próprio programa no canal, o “The Choe Show”.

Nele, Choe fez uma espécie de terapia em frente à câmara, onde se senta frente a frente com vários entrevistados e, no final, conta com a sua ajuda para criar um retrato de cada convidado. Pela sua casa passaram nomes como Steve-O, Will Arnett ou Erica Garza. Apesar das boas críticas, a série ficou-se pelos quatro episódios da primeira temporada.

Sem problemas. O programa foi todo ele financiado pelo próprio que, além de fazer dinheiro com a sua arte, fez perto de 200 milhões ao vender, em 2012, parte das ações que tinha do Facebook. A entrada em bolsa da empresa valeu-lhe uma fortuna, que poderia ter sido ainda maior. Hoje, o número de ações que detinha poderiam valer 1,3 mil milhões de euros.

O programa foi também gravado na sua casa de infância, que comprou assim que conseguiu dinheiro suficiente. Apesar de ser a primeira grande experiência, Choe tinha também participado em episódios das séries de Anthony Bourdain e na série documental “Vice” da HBO.

Foi no próprio programa que falou sobre os traumas que viveu na infância e sobre o facto de ser viciado em drogas. “Sou um viciado. Um viciado completamente fora de controlo”, revelou a certa altura. “E tenho a certeza que fui abusado sexualmente quando tinha quatro anos”.

Choe, filho de imigrantes sul-coreanos, cresceu em Los Angeles, onde se afirmou como artista no final dos anos 90, sobretudo na arte urbana. Ao longo de duas décadas, tornou-se numa referência pelas obras por vezes controversas, mas sempre coloridas. Pintou murais na sede do Facebook, desenhou capas de discos para Jay-Z e Linkin Park.

Nunca conseguiu evitar confusões. Em 2004, foi detido por ter agredido um segurança no Japão. Revelaria mais tarde que a agressão foi fruto dos excessos: álcool, drogas, cogumelos psicadélicos, ecstasy. Nos Estados Unidos, tem um cadastro repleto de detenções e acusações, sobretudo ligadas a agressões e posse de droga.

Um dos episódios mais polémicos — e que nos últimos dias tem sido recuperado, à boleia do sucesso de “Beef” — aconteceu em 2014, num podcast que criou com a atriz pornográfica Asa Akira. Num dos episódios, Choe recorda o dia em que ousou tocar uma massagista durante uma sessão e, sem consentimento, a ter obrigado a fazer-lhe sexo oral. Choe brincou ainda estar a sentir-se excitado apenas a recordar a história.

O episódio causou, naturalmente, uma enorme polémica. Choe haveria de se defender e alegar que tudo não passou de uma situação imaginada por ele para o programa. “Se sou culpado de alguma coisa, é de ser péssimo a contar histórias. Tal como muitas das minhas obras são mal interpretadas, o mesmo sucede como meu show. O objetivo do podcast é de provocar os meus amigos e os participantes.”

“Criamos e contamos histórias. Não é um programa de notícias. Não é uma representação da minha realidade. Não é um sítio onde se possa esperar obter informação fidedigna sobre mim ou sobre a minha vida. É a minha versão da minha realidade, é arte que por vezes ofende pessoas. Peço imensa desculpa se alguém acreditou que eram verdadeiras. Não eram.”

A polémica fez com que muitas das suas obras de rua fossem vandalizadas como forma de protesto. Um dos murais criados em Nova Iorque foi desfigurado e assinado com frases de protesto. “Violador” era a palavra que mais vezes surgia.

Choe acabaria por continuar a trabalhar e viu em “Beef” finalmente a oportunidade de fazer algo de relevante na televisão. Além de ser um dos protagonistas, foi também escolhido pelo criador da série, Lee Sung Jin, para criar as imagens que antecedem cada episódio. “Quando preparei a apresentação aos investidores, queria ter uma imagem de título bombástica, de forma a captar a atenção de toda a gente. Havia uma obra do século XVI que adorava e senti que o estilo e os temas encaixavam no clima da série”, explicou à “IndieWire”.

Rapidamente mudou de ideias e decidiu encontrar uma alternativa ao uso de obras de arte clássicas. Tinha a solução no elenco. “O David Choe sugeriu que eu usasse pinturas suas. Há uma década de que ele parou de divulgar as suas obras e, portanto, tinha centenas guardadas que nunca ninguém tinha visto. Ele deixou-me escolher as que eu achava que encaixavam melhor em cada episódio.”

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