Cinema

Quem são os dois miúdos sem experiência que brilham num dos melhores filmes do ano

Cooper Hoffman e Alana Haim nunca tinham feito cinema. Estreiam-se às mãos do mestre Paul Thomas Anderson em "Licorice Pizza".
Os dois novatos

Havia entre Paul Thomas Anderson e o ator Philip Seymour Hoffman, uma relação inexplicável de sintonia. De tal forma que o último era quase presença certa na maioria dos filmes do realizador. Aconteceu em “Boogie Nights” e em “Magnolia”, também em “Punch Drunk Love” e em “The Master”. Uma união mágica que terminou com a trágica morte de Hoffman em 2014, mas que não destruiu a ligação.

Sete anos depois, Anderson volta à carga com “Licorice Pizza”, precisamente com o filho de Hoffman, Cooper, no papel principal. O filme, que estreia em Portugal esta quinta-feira, 30 de dezembro, parece caminhar a passos largos para o título de um dos melhores do ano. Pelo menos a avaliar pela crítica que já assistiu à longa-metragem e que se desfez em elogios.

Não só tem recebido várias nomeações para prémios — e começa a piscar o olho aos Óscares —, como os seus dois protagonistas já viram o trabalho reconhecido com nomeações para os Globos de Ouro. Nota importante: nenhum dos dois atores tinha qualquer tipo de experiência no cinema.

A qualidade das interpretações dos jovens em estreia absoluta é também um dos pontos fortes. Mas se formos além dos nomes de Cooper Hoffman e Alana Haim, não é difícil de perceber que o talento está mais do que justificado.

“Licorice Pizza” viaja até aos mais simples anos da adolescência em 1973, quando um jovem de 15 anos Gary Valentine (Cooper Hoffman) arrisca convidar para sair uma jovem mais velha, de 25 anos, chamada Alana Kane (Alana Haim). A narrativa acompanha-os enquanto a sua relação cresce, esbarra, desfaz-se e volta a reconstruir-se, num clássico “coming of age”.

Anderson conhecia Cooper há largos anos. Era um visitante habitual nos sets de gravações, mas nem isso impediu que o realizador exigisse todas as formalidades de um casting. O filho de Hoffman teria que conquistar o papel — e foi isso que fez. “Sabia que o Cooper tinha o coração e a alma. Não tínhamos a certeza se ele o conseguiria — nunca tens a certeza se alguém tem esse tipo de talento até o veres com os teus olhos”, revela Anderson à “New Yorker”.

O casting avançou e nenhum dos candidatos estava a funcionar no papel. “Talvez houvesse um miúdo ideal por aí e eu o conseguisse encontrar”, pensou o realizador, antes de um nome se acender como uma lâmpada num desenho animado. Curiosamente, o realizador socorreu-se da opinião de Alana Haim e das suas irmãs — já lá vamos a essa história —, que ruminaram na sugestão e concluíram: “Talvez [o Cooper] seja uma boa ideia”.

“Elas conheciam-no porque eu o conhecia. Estou muito próximo dele, apesar de viver em Los Angeles e ele em Nova Iorque”, conta. “Ele veio cá, as irmãs andaram com ele e sentiram-se cativadas por ele, como toda a gente que o conhece. É uma personalidade incrível, charmosa, empática, uma pessoa única.”

Apesar da aparente inexperiência cinematográfica, Anderson tinha outra opinião. “O Cooper levava anos e anos de experiência a fazer filmes caseiros comigo e com a minha família. Normalmente, eram filmes de ação onde ele era o vilão, espancado pelo meu filho, que heroicamente o atirava de um penhasco ou lhe dava um tiro na cabeça”, conta à “Variety”.

“É certo que nunca tinha atuado profissionalmente. Nem sequer escrevi o papel para ele, mas para um qualquer miúdo de 15 ou 16 anos. Nunca imaginei, ao escrevê-lo, que seria entregue ao Cooper. Sempre achei que ele seguiria um percurso mais tradicional”, explica. “Fiz o casting a muitos atores, mas com aquela idade todos pareciam já demasiado treinados, com maneirismos e super ambiciosos, o que não era de todo interessante para mim.”

Aos 17 anos, Cooper torna-se assim ator por direito próprio, apesar de carregar o legado de Seymour Hoffman, o pai que era um dos melhores da sua geração, até ser encontrado morto num cocktail fatal de álcool, medicação e drogas. Agora, é o filho quem tem a oportunidade de, na estreia, brilhar como protagonista, acima até de atores consagrados como Sean Penn ou Bradley Cooper.

À semelhança da relação com Cooper, também Anderson conhece Alana há muitos anos. A mais nova de três irmãs, Alana é uma artista musical de sucesso, um terço da banda Haim, composta por si e pelas duas irmãs, Danielle e Este.

Tal como Cooper, vem de uma família de artistas. Os pais eram igualmente músicos, líderes de uma banda de covers chamada Rockinhaim. As duas mais velhas formaram a primeira banda em 2005, as Valli Girls. Em 2007, a mais nova juntou-se a elas e criaram as Haim, já com três discos editados.

A vida das irmãs cruzou-se com a do realizador de uma forma curiosa. “Uma amiga nossa estava numa festa e ouviu o Paul a falar sobre estas três raparigas do Vale (de San Fernando). E o Paul adora a zona tanto quanto nós. Essa nossa amiga falou com ele: ‘Estás a falar das Haim? Aão as minhas miúdas.’ O Paul respondeu: “Sim, as Haim. Dá-lhes o meu email”, contou Alana à “Vanity Fair”.

Quando souberam que Paul Thomas Anderson tinha pedido que o contactassem via email, estranharam. “Demorámos cinco dias a ganhar coragem e a meio ainda pensámos que poderia ser para os apanhados. Mas mandámos e começámos a falar. Ele convidou-nos para jantar, conhecemos a família.”

A ligação fortaleceu-se e e, surpreendentemente, o realizador nomeado oito vezes para os Óscares decidiu ajudá-las a realizar não um, não dois, mas sete videoclipes, entre curtas-metragens e curtas documentais sobre a banda. O fascínio pelas irmãs era grande, mas aquele que tinha por Alana superava-o. De tal forma que a personagem de “Licorice Pizza” que lhe foi entregue foi desenhada e escrita a pensar nela.

“Juro que se estivessem na minha posição, a questão que colocariam era a seguinte: como é que poderiam não as escolher? Conheço-as bem, conhecia bem a Alana e sabia que tinha competência, graças à experiência dela como performer”, explica o realizador, que frisa que, ao contrário do que aconteceu com Cooper, não precisou de qualquer casting para o outro papel de protagonista.

“Gostava da música [das Haim], contactei-as e ofereci os meus serviços. Temos uma colaboração que vai além da música, adoro-as como família”, conta. “A experiência de fazer os videoclipes com elas ajudou-me a perceber que tipo de filme queria que ‘Licorice Pizza’ fosse. Corríamos as ruas do Vale, sem dinheiro, sem tempo, tínhamos uma equipa de cinco a dez pessoas. Foram os dias mais felizes de filmagem, era tudo tão imediato. E elas ajudam imenso, alimento-me da sua energia. E foi essa energia que quis colocar no argumento do filme.”

Alana era a pessoa ideal. “Esta é uma história específica ao Vale de San Fernando e isso importa na escolha. Se vais contar uma história em Nova Iorque, contratas a Marisa Tomei. A Alana tem o look de uma miúda do Vale, fala como uma, é uma miúda de lá. Tem uma ferocidade, é ambiciosa, aprende muito rápido. Não sei quantos mais requisitos consegue preencher.”

Apesar dos seus 30 anos, interpreta uma personagem bem mais jovem. Nada que impeça o sucesso, segundo os críticos, que têm elogiado a performance dos dois novatos que fazem a melhor estreia possível. Não só roubam tempo de antena a estrelas como Sean Penn e Bradley Cooper, como têm direito aos seus papéis de protagonistas às mãos de um dos melhores, Paul Thomas Anderson. E para coroar tudo isto, “Licorice Pizza” pode mesmo ser consagrado como um dos filmes do ano. E, quem sabe, cruzar-se com uma ou outra estatueta no caminho.

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