Sabe porque é que Marvin Aday ficou com a alcunha bizarra de Meat Loaf?

Ganhou peso para escapar ao exército, acreditava em fantasmas e vivia sempre no limite. Morreu aos 74 anos, vítima de Covid-19.

Em 1965, Marvin Aday completava o 12.º ano e preparava-se para enfrentar resto da vida como adulto. Porém, na sombra, estava a possibilidade de ter que acompanhar os milhares de jovens que perdiam a vida do outro lado do mundo, na trágica guerra do Vietname.

O rapaz que brilhava nos musicais escolares era também o tipo duro que brilhava na linha defensiva da equipa de futebol americano da escola, onde era tratado simplesmente por ML. Assim que terminou as aulas, aproveitou o peso crescente e tentou uma inovadora e inventiva estratégia para ser rejeitado pelo exército: o peso.

Em pouco tempo acumulou mais 30 quilos em cima do seu peso normal. Acabaria por não enganar os militares. “Quando fui fazer os exames físicos, eles perceberam [o que tinha feito] e começaram a dar-me cabo do juízo”, confessou na sua autobiografia.

Duas semanas depois, acabaria mesmo por ser chamado para cumprir o serviço militar. Recusou, pegou nas malas e trocou o Texas pela Califórnia. Salvou-se da guerra mas não se livrou da nova alcunha, fruto do tremendo peso que carregava: Meat Loaf, isto é, rolo de carne.

Surpreendentemente, foi com esse nome que conquistou o mundo com a sua voz poderosa — apesar de, em 1984 ter legalmente trocado de nome para Michael —, com a qual rematou um dos discos mais vendidos de sempre. “Bat Out of Hell”, escrito por Jim Steinman, terá vendido mais de 40 milhões de cópias em todo o mundo. Foi ainda a tempo de fazer de “I Would Do Anything For Love (But I Won’t Do That)”, que chegou ao topo de vendas em 29 países.

A morte do cantor norte-americano foi anunciada esta sexta-feira, 21 de janeiro, numa nota pública assinada pela família. Segundo o “TMZ”, Meat Loaf terá morrido de complicações provocadas por uma infeção com Covid-19. Tinha 74 anos.

Complicada foi também a sua vida, desde que nasceu em 1947, em Dallas, no Texas. A mãe era professora e cantora de uma banda de gospel. O pai era polícia e empresário por conta própria que vendia remédio caseiro para a tosse, mas que escondia um segredo.

Orvis Wesley era um veterano da II Guerra Mundial. As sequelas do conflito levaram-no ao alcoolismo do qual nunca se livrou. Por vezes passava dias fora de casa, em longas e intermináveis bebedeiras. Marvin passava esses dias em casa da avó, enquanto a mãe corria as ruas da cidade à procura do marido.

Já longe do Texas e livre do exército, fez carreira em Los Angeles. Na música, fez parte de várias bandas que roçaram ombros e abriram concertos para nomes icónicos como Janis Joplin, Van Morrison, The Who, The Stooges, Grateful Dead ou MC5. Tornou-se também numa figura de proa em vários musicais — e, claro, rebentou a escala da popularidade com “Bat Ouf of Hell”, em 1977.

Meat Loaf foi sempre uma figura carismática e propensa a acessos de brilhantismo e loucura, sobretudo nos últimos anos de carreira. Extremamente energético, apesar do notório peso excessivo, era um motor em palco.

De tal forma que guardava uma botija de oxigénio nos bastidores dos concertos da tour de “Bat Out of Hell”, à qual recorria em momentos de maior dificuldade. Mas a botija nada podia fazer em casos mais graves, como o que ocorreu em Ottawa, no Canadá, quando em 1978 saltou do palco e partiu uma perna. A digressão não terminou: Meat Loaf só teve que percorrer os palcos dos restantes concertos em cima de uma cadeira de rodas.

As quedas tornaram-se mais frequentes na viragem do século. Com o cantor já na casa dos 50, o excesso de peso e a idade começaram a complicar-lhe a vida. Em 2011, desmaiou em palco durante uma performance em Pittsburgh, apesar de ainda ter sido capaz de terminar a performance.

“Desmaiei, caralho. Tenho asma. Não consigo respirar. E depois… espetaram-me com um alfinete e quase sangrei até à morte. Depois deram-me uma bofetada e agora tenho o dente a abanar”, disse quando regressou ao palco, minutos depois.

Cinco anos depois, o episódio voltou a repetir-se, com um colapso num concerto no Canadá. Apesar de os médicos terem culpado a desidratação, os dois concertos seguintes foram cancelados. Pior: assim que colapsou, o público percebeu que o cantor estava a atuar com ajuda de playback, o que voltou a reacender os rumores sobre a sua deteriorada condição física.

A mais recente queda aconteceu em 2019, desta vez numa convenção de terror. Quando subiu ao palco, Meat Loaf caiu com gravidade e fraturou a clavícula.

Na última década, o artista continuou a lançar novos discos, sem grande sucesso. Talvez por isso tenha apostado em aventuras alternativas, como quando participou no reality show de Donald Trump, “The Celebrity Apprentice”, na edição de 2011. Ao lado de Gary Busey e La Toya Jackson, Meat Loaf foi uma das figuras, sobretudo quando protagonizou um dos momentos da edição.

A certa altura, o cantor pensou que Busey lhe teria roubado alguns dos seus pertences. Irritado, aguardou durante um momento de silêncio, antes de explodir. “Eu comprei aquelas esponjas, seu cabrão. Aquela tinta é minha. Estou a ficar farto de ti. Tu não te queres meter comigo, cabrão. Tu não te queres meter comigo”, gritou com a sua inconfundível voz. “Olha-me bem nos olhos. Sou a última pessoa com quem queres brincar.”

Os outros concorrentes tiveram que intervir quando Meat Loaf se lançou na direção do ator americano. Vários minutos depois, o cantor perceberia que tinha cometido um equívoco e, visivelmente embaraçado, pediu desculpa.

Busey não foi o único a ter que lidar com a raiva de Meat Loaf, que também se pegou publicamente com outra figura, esta mais imprevista: a jovem ativista Greta Thunberg.

“Tenho pena da Freta”, explicou o cantor em 2020. “Ela sofreu uma lavagem cerebral e acredita que as alterações climáticas existem, mas nada disso é real. Ela não fez nada de mal, mas foi claramente forçada a pensar que o que diz é mesmo verdade.”

A jovem sueca, conhecida por não se esconder a até bater algumas bocas com o presidente dos EUA, respondeu de forma pronta. “Isto não tem nada a ver com o Meat Loaf. Não tem a ver comigo. Não tem a ver com o que me chamam. Nem sequer é uma questão de direita ou esquerda”, escreveu nas redes sociais. “Isto é uma questão de factos científicos.”

Apesar de não acreditar no aquecimento global e nos seus efeitos nefastos, Meat Loaf era um profundo crente em fantasmas. Confessou-o em 2016, numa entrevista ao britânico “The Mirror”.

“Se descermos a rua das movimentadas ruas de Londres, alguém que parece uma pessoa normal poderia sem dúvida passar por nós e poderias sentir mudança na temperatura e uma sensação de peso”, explicou ao jornalista. “É quase como um peso que assenta no teu peito, ficas subitamente cansado. E se nos virarmos nesse preciso momento e tentarmos seguir a pessoa que passou por nós, ela desapareceria.”

Esse não foi o único caso paranormal relatado por Meat Loaf, que falou sobre outro encontro num hotel de Londres, quando um fantasma “atravessou a parede” e ficou a olhar para si, antes de escapar. “Eu gritei, ‘hey, hey’, mas ele nunca se voltou para mim”, contou, apesar de ter especificado ter-se tratado de uma “assombração residual”.

“Não era apenas o seu espírito, era uma energia que ficou para trás. Ele não estava pronto para morrer. Provavelmente está a repetir a mesma coisa vezes sem conta. Se fosse uma assombração inteligente, ter-se-ia virado e parado.”

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