É inevitável: todos temos um lado curioso de querer saber o que se passa em casa dos vizinhos, de ouvir discussões alheias, de acompanhar de perto pessoas cujas vidas nos parecem perfeitas para tentar encontrar provas de que, afinal, todos temos os mesmos problemas. Se a isto juntarmos o ingrediente da fama, chegamos à receita certa para deixar qualquer um colado ao ecrã.
O sucesso da série documental “Patrocínio”, que estreou na Prime Video a 5 de junho, mostra isso mesmo — tem estado no número 1 do top das produções mais vistas da plataforma em Portugal. Ao longo de seis episódios, acompanhamos a rotina das irmãs Mariana, Carolina, Inês e Rita que, além das carreiras de sucesso, das viagens, das festas e dos momentos em família com maridos, pais e filhos que partilham nas redes sociais, mostram agora um lado mais vulnerável e íntimo que o público desconhecia.
Tudo começou com Carolina Patrocínio, de 39 anos, que, ainda na adolescência, se tornou apresentadora do Disney Kids. A presença em televisão, a rotina desportiva super disciplinada, a família numerosa e algumas polémicas pelo meio, foram aumentando a curiosidade do público não só com a sua vida, mas também com a dos restantes membros do clã.
Com as meias-irmãs Mónica e Vitória Jacobi, formam um grupo de seis filhas, quatro delas já com filhos próprios, pai, mãe, madrasta, padrasto, maridos, num núcleo que é muitas vezes caótico e conflituoso, mas também seguro e unido. Num registo diferente do que mostram nas redes sociais, sentimo-nos a espreitar pela fechadura da vida íntima desta família, com algum desconforto, confessamos, por assistir a momentos que não estávamos à espera de serem partilhados publicamente — mas ainda bem que foram.
Entre discussões antigas, ressentimentos acumulados, reencontros emocionantes e confissões inesperadas, a produção acabou por revelar momentos de tensão entre as irmãs que rapidamente se tornaram tema de conversa entre os espectadores.
No entanto, a comparação com “Keeping Up With The Kardashians” é inevitável, até porque há cenas que sentimos terem sido forçadas só para criar uma narrativa à frente das câmaras (ninguém acreditou que a Rita e o stylist Gonçalo Mello estavam mesmo a discutir durante a escolha de um vestido para a Carolina, pois não?).
Independentemente disso, ou talvez por isso mesmo, não descansámos enquanto não vimos todos os episódios. Pelo meio, houve interações mais leves e divertidas, como a sessão de maquilhagem de Halloween entre Mariana, 41 anos, e Rita, de 30, ou o reencontro do pai, Pedro Patrocínio, com Gertrudes, a mulher que ajudou a criá-lo e que o levou às lágrimas durante uma visita ao Livramento. E, temos que confessar, ficámos fãs do pai Patrocínio.
Reunimos uma lista das cenas que mais nos deixaram presos ao ecrã.
1. A discussão explosiva na praia que expôs a tensão entre as irmãs
Logo no primeiro episódio, uma ida à praia em família transforma-se numa das discussões mais intensas da série. Tudo começa com uma conversa aparentemente inocente sobre os netos favoritos de Teresa Vieira de Almeida, mãe das irmãs Patrocínio.
A troca de argumentos rapidamente se centra em Inês, de 32 anos, que as irmãs acusam de receber um tratamento privilegiado da mãe, com bocas típicas de ciúmes entre irmãs. Rita ironiza a situação e questiona o facto de a mãe receber mais vezes em casa Helena, uma das filhas de Inês, dizendo não ter disponibilidade para Júlia, a mais nova de Rita. Teresa garante que é por Inês sair mais tarde do trabalho e precisar de mais ajuda. Mariana questiona as justificações apresentadas.
A tensão aumenta quando Inês tenta explicar que tem uma rotina profissional mais exigente. “Trabalho do outro lado da cidade, chego às vezes às sete ou oito da noite. O que querem que faça?”, responde. Mas as justificações não convencem as irmãs. Mariana admite mais tarde que sempre sentiu uma proteção especial da mãe em relação a Inês. “Acho que a minha mãe, ao tomar as dores de uma só, cria um buraco maior entre nós.”
Já Inês vê tudo de forma diferente. “Desculpem se vou pedir sopa à minha vizinha, que é a minha mãe.” O momento acaba por revelar algo que atravessa toda a série: a relação complicada entre Inês e as restantes irmãs, que não fazíamos ideia existir. Mais uma vez, a prova de que todas as relações familiares têm as suas fragilidades.
2. O almoço onde Mariana exigiu um pedido de desculpas a Inês
Se a discussão da praia abriu feridas, o episódio seguinte mostra que elas estavam longe de cicatrizar. Durante uma aula para aprender a fazer pastéis de nata, o ambiente entre Inês e as restantes irmãs estava gelado. Ao público, explicam que esta foi apanhada a falar mal delas, chamando-as de burras e invejosas. O clima tenso manteve-se durante a atividade — e nós, espectadores, divertidos por perceber que, mesmo em famílias aparentemente super educadas, há discussões que nos remetem para a época das bocas mandadas no recreio da escola.
Mais tarde, Pedro Patrocínio tenta aproximar as filhas organizando um almoço em família. A estratégia parece não resultar. O momento mais tenso surge quando Mariana confronta diretamente a irmã: “Então pensa se não me deves um pedido de desculpas.”
Inês responde que não quer discutir o assunto em frente às câmaras. Mariana insiste. A emoção começa a tomar conta da conversa. Em depoimento, Mariana explica o motivo da mágoa: “A Inês atacou-nos de uma forma completamente desproporcional. Disse que éramos invejosas, burras e que tínhamos trabalhos de trampa.”
Quando Inês se recusa novamente a abordar o tema, Mariana já fala com a voz embargada e as lágrimas a surgir. “Uma pessoa quando magoa outra, mesmo sem querer, pede desculpa”. O pai admite, depois, que há muito tempo não assistia a um conflito daquela dimensão entre as filhas. “Aquilo estava a ir em crescendo. Estava a ganhar proporções que eu não me recordava de ter visto”.
A emoção de Mariana, a teimosia de Inês, o desconforto de Carolina e Rita, acabou por aliviar com a intervenção da madrasta, Mariana Galindo. Com sensatez e palavras certeiras sobre amor e perdão, fez com que as irmãs fizessem as pazes, num momento em que todos choraram e se abraçaram.
3. A fraude financeira que abalou o casamento de Carolina Patrocínio e Gonçalo Uva
Um dos momentos mais dramáticos da série surge numa conversa íntima entre Carolina Patrocínio e Gonçalo Uva. Pela primeira vez, o casal fala abertamente sobre uma situação que colocou à prova a confiança entre ambos.
“Temos vindo a ultrapassar isso”, admite Gonçalo. “Foi provavelmente o ano mais difícil que já passámos”. Carolina explica então que, após uma pessoa próxima do casal, que trabalhava com eles, ter utilizado a identidade do marido para desviar dinheiro, ela desconfiou de Gonçalo num primeiro momento.
“O Gonçalo é o meu braço direito em tudo o que é finanças da minha vida e da nossa família”, começa por explicar. “Foi uma pessoa que usou a identidade do meu marido, que se fazia passar por Gonçalo Uva nos emails para me trair e desviar dinheiro.”
A descoberta teve um impacto profundo. “Afinal não era hacker nenhum. Era uma pessoa que estava dentro do nosso círculo, da nossa máxima confiança”. A situação levou Carolina a duvidar do próprio marido. “Fez-me questionar muita coisa. Estou muito arrependida disso, de ter questionado a lealdade do Gonçalo, mas também não tinha grandes saídas”.
A resposta de Gonçalo apanhou-a de surpresa. “É a primeira vez que estou a ouvir isto. Passaram nove meses e é a primeira vez que estou a ouvir este arrependimento. Podia ter sido mais cedo”. O momento tornou-se uma das confissões mais vulneráveis de toda a série e mostra o impacto emocional que a fraude teve na vida do casal.
4. Acreditar em fantasmas ou ter ratos em casa, o que é pior?
Um dos momentos mais inesperados da série acontece durante uma visita de Pedro Patrocínio à nova casa de Rita, no Restelo. A propriedade tem um significado especial para a família, uma vez que pertenceu aos pais das irmãs Patrocínio.
A conversa rapidamente se desvia para um tema pouco habitual: fantasmas. Rita recorda histórias que ouvia em criança sobre alegadas presenças na casa. “A mãe dizia que via espíritos nesta casa, que via vultos a passar”, conta. “A tia Gilinha foi fazer um ritual de bruxas para tirar os espíritos.”
Pedro Patrocínio mostra-se muito mais cético. “Quando me diziam que estava aqui um espírito ou a presença de alguém, como eu não acredito, ou pelo menos não sei explicar, dizia sempre que não era a presença de ninguém. Eram ratos no sótão.” Rita insiste nas histórias que ouviu ao longo dos anos. “A minha mãe via fantasmas e ouvia coisas a bater.”
Já o pai continua fiel à sua teoria. “Havia ratos, isso não é uma suposição. Tinha de pegar num escadote e ir ao sótão com uma lanterna. Como não havia pessoas, para mim eram ratos.” Ainda assim, acaba por deixar a porta aberta ao mistério: “Quem sabe se eram mesmo espíritos? ”A troca de argumentos tornou-se um dos momentos mais divertidos e inesperados da temporada.
5. O desconfortável confronto entre Gonçalo Uva e a sogra
Outro dos episódios mais comentados envolve Gonçalo Uva e Teresa Vieira de Almeida. Durante um jantar de Ação de Graças, o marido de Carolina deixa escapar aquilo que parece ser uma crítica antiga: sente que os filhos não têm com a avó materna a mesma proximidade que têm com os avós paternos. “Acho que pode haver um meio-termo”, sugere. Teresa não recua. “Eu ainda trabalho”, diz, respondendo à comparação que Gonçalo faz com a sua própria mãe que passa muito mais tempo com os netos.
Mas Gonçalo insiste. “Os meus filhos, seus netos, não vão ter as mesmas vivências que as suas filhas tiveram com os avós.” O ambiente torna-se imediatamente desconfortável e a discussão estende-se por mais alguns minutos, com argumentos de parte a parte, mostrando que, como é comum a várias famílias, a relação entre genro e nora nem sempre é a mais pacífica.
Mais tarde, Carolina admite que o marido tem dificuldade em aceitar essa diferença. “O Gonçalo lida mal com o facto de a minha mãe não ser a avó que ele gostava que fosse. Mas eu era incapaz de confrontar assim a minha sogra”, diz.
6. A confissão sobre o divórcio de Inês que surpreendeu os espectadores
Outro dos momentos mais íntimos da série surge precisamente da irmã que se manteve mais discreta e reservada ao longo dos episódios. Inês Patrocínio fala abertamente sobre o fim do casamento com Pedro Rocha e Melo, pai dos seus três filhos. “Eu seria a última pessoa a dizer que isto me ia acontecer.”
A empresária recorda que sempre acreditou que nunca se separaria. Mas a revelação mais surpreendente acaba por vir de Rita, enquanto fazem uma aula de cerâmica em conjunto. A irmã admite que teve dificuldade em aceitar a decisão de Inês e que chegou a julgá-la. “Sempre vi a Inês como um modelo.”
A separação abalou-a profundamente. “Eu não concordava e ela sabia disso. Ela achou que eu a julgava e, de facto, julguei”. Hoje, diz que olha para a situação de forma diferente. “Só quero que ela esteja feliz”. Antes de terminar a conversa, deixa uma das frases mais emocionantes de toda a série. “O teu divórcio custou-me imenso”.
É um momento raro de vulnerabilidade que ajuda a explicar porque é que “Patrocínio” se tornou um dos fenómenos portugueses do momento na Prime Video.








