A 5 de maio de 1821, Napoleão Bonaparte proferiu as suas últimas palavras: “França, o exército, chefe do exército, Josefina”. Esta descrição é a carta de apresentação do mistério que promete transformar o Teatro Municipal São Luiz num tribunal da memória.
A peça “As Quatro Mortes de Napoleão” explora as zonas cinzentas da historiografia oficial sobre o desaparecimento do controverso líder francês que redesenhou o mapa da Europa. Com texto e encenação de Pedro Saavedra, o espetáculo utiliza a figura da fiel camareira de Bonaparte como “fio de Ariadne”, no labirinto de versões contraditórias.
Os últimos anos de Napoleão foram passados na remota Ilha de Santa Helena, situada a aproximadamente 1.870 quilómetros da costa de África. O autoproclamado Imperador dos Franceses morreu neste território britânico ultramarino de origem vulcânica, no meio do Atlântico Sul, aos 51 anos.
Este contexto de isolamento deu origem às múltiplas teorias sobre a sua morte (envenenamento, cancro, negligência ou suicídio), que servem de base à peça de teatro, onde a narrativa se afasta da biografia linear para “abraçar o suspense psicológico e a análise clínica”.
A peça protagonizada por Ivo Alexandre e Paula Garcia estrutura-se em torno do debate histórico e toxicológico que, durante décadas, alimentou conspirações. O enredo disseca quatro possibilidades distintas para o óbito. Uma das hipóteses considera a morte por estrangulamento para evitar um possível resgate ou retorno político.
Outra tese recorrente na historiografia é atribui a causa ao envenenamento por arsénico, possibilidade explorada na peça sob o prisma da traição palaciana. A versão oficial da época aponta para um cancro gástrico, diagnóstico que será alvo de escrutínio em palco. O quarto desfecho, um suicídio honroso, aborda o declínio psicológico do ego do Imperador no exílio.
A encenação de Saavedra opta por um formato intimista, desenhado para mimetizar a claustrofobia do quarto em Santa Helena, que serve de metáfora para a impossibilidade de alcançar a verdade absoluta na História.
O texto cruza o enigma histórico com questões de saúde mental, explorando o delírio e a percepção subjetiva da testemunha ocular. E o espaço da Sala Mário Viegas é aproveitado para colocar o público como “juiz” dos factos, aproximando a plateia dos atores.
“A História hesita onde o boato ganha força. Nesta peça, o público é convidado a decidir que fim merece o Imperador”, lê-se na sinopse.
A peça “As Quatro Mortes de Napoleão“ vai estar em cena na Sala Mário Viegas do Teatro Municipal São Luiz, entre 21 de março e 4 de abril, com sessões de quarta a sábado, às 19h30; e aos domingos, às 16 horas. Os bilhetes custam 12€ e estão disponíveis para compra online.
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