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Teatro e exposições

Afogado em dívidas, o risco de fechar o Teatro Maria Vitória “é absolutamente real”

A pandemia trouxe “milhares de euros” de dívida. Com espetáculos suspensos, os apoios não chegam e o risco do fim assenta em “promessas”.

Em 79 anos de vida, 56 deles como homem do teatro e 45 como empresário à frente do Teatro Maria Vitória, Hélder Freire Costa diz que uma crise semelhante só nos tempos da Troika e de Passos Coelho. “Sobrevivemos a dois incêndios, problemas gravíssimos, várias crises. Essa foi a pior”, recorda em conversa com a NiT. Mas essa já lá vai e, hoje, o teatro volta a enfrentar uma nova ameaça: a pandemia.

Puxa da boa memória para se recordar dos tempos em que era cortada a eletricidade pela hora de almoço, “nos tempos do Dr. Mário Soares”, e afirma que o “público tem memória curta”. É desta forma aguerrida que rebate todas as soluções improvisadas que lhe recomendam como cura para a porta fechada.

O Maria Vitória é o palco que ainda se mantém em pé no saudoso Parque Mayer. O último bastião da revista portuguesa. Só que nem essa força lhe permitiu resistir ao abalo da pandemia. Encerrou em março, como tantas outras salas de espetáculo, e reabriu em setembro, apenas para voltar a suspender as operações a 25 de outubro.

Dias depois, era deixado um apelo público à ministra da Cultura: o teatro que nunca viveu de apoios precisava agora deles para sobreviver. Passou um mês e as respostas que pediam nunca chegaram. Nem os apoios.

“A única resposta que recebi foi do gabinete do primeiro-ministro, que disse que encaminhou a questão para a ministra da Cultura. Portanto, ela já lá tem duas cartas. A única novidade é que o teatro continua encerrado”, confessa o responsável do Maria Vitória.

Entretanto, e apesar de as despesas serem menores, Hélder Freire Costa diz que continua a “acumular dívidas”. Das 40 pessoas que ali trabalhavam, entre atores, bailarinas e técnicos, mantêm-se no ativo apenas quatro. Ainda não teve que despedir ninguém e frisa que, “os que saíram”, saíram “com razões muito válidas”.

Em casa, pouco podem fazer pela vida. As situações são preocupantes. “Alguns recebem apoios da Segurança Social, mas são poucos. Outros fazem espetáculos noutros locais, os que podem, mas a maioria nem tem essa possibilidade”, explica o homem que viu crescer talentos na revista como Maria João Abreu, Marina Mota, Carlos Cunha ou João Baião.

Hélder Freire Costa é o produtor do teatro há mais de 40 anos.

Dos tempos pré-pandemia, recorda as boas casas e o sucesso do espetáculo que tinha ajudado a recuperar do embate da crise da Troika e das medidas impostas pelo governo de Passos Coelho. Recorda, por exemplo, que optou por assumir os encargos do aumento do IVA imposto à época, para evitar afastar os espectadores, também eles afetados pela crise e pouco motivados a consumirem cultura.

As dívidas que acumulou nesses anos foram-se esbatendo e estavam quase liquidadas quando chegou a nova crise. Da média de 300 a 400 espectadores — valor que inclui “sessões esgotadas, outras compostas e algumas vazias” —, passou para uma de 10 a 15 pessoas em sala. “Só tínhamos mais gente do que essa na plateia porque oferecíamos alguns bilhetes”, nota.

Perante os problemas evidentes de tesouraria, as sugestões para contornar a crise foram surgindo, algumas em papel, vindas de entidades oficiais. Hélder Costa Freire olha para elas com ceticismo.

“Fala-se muito no ar. É muito fácil escrever coisas num papel, mas na prática têm que funcionar”, esclarece. Passar as sessões para as manhãs foi uma das ideias, que considera despropositada. Explica que muito do público que enchia os lugares do Maria Vitória vinha de fora, “do Minho ao Algarve”, em excursões que hoje não têm como se realizar. Não porque não haja camionetas, mas porque “as pessoas têm medo”.

“Sessões de manhã só funcionam nas companhias de teatro subsidiadas, que já receberam o subsídio para fazer e produzir o espetáculo. Têm o dinheiro na mão. Todos sabemos — e não somos ingénuos —, que eles não vivem do público. Vivem desses apoios do Ministério da Cultura. Nós o que recebemos é do público. Se ele não vem, há prejuízo.”

Embora seja o último reduto da revista no País, acredita que este tipo de teatro “é muito popular” e que numa situação normal teria casas cheias. Isso só não acontece por causa da “instabilidade” provocada pela pandemia. “Não dá sossego ou possibilidade às pessoas de terem o seu pensamento concentrado e virem ao teatro, seja a este ou a outro espetáculo qualquer.”

Perante este cenário, não tem dúvidas: “O risco de encerrar é absolutamente real. Estou com um prejuízo de milhares de euros novamente, coisa que já estava quase certinha depois do impacto da crise anterior”.

A esperança assenta agora nas promessas feitas pela autarquia e algumas entidades oficiais do governo. Admite ter alguma culpa na forma como geriu a crise, nomeadamente no facto de não ter aproveitado a exceção que permitia não pagar as rendas — valor que, espera, seja agora devolvido para permitir pagar alguns salários.

Embora explique com orgulho que nunca precisou de apoios para fazer sobreviver o teatro, hoje o futuro assenta em miragens que podem tornar-se realidade. Ou não. “Tenho vivido de promessas, mas acredito em algumas delas. Estas coisas levam tempo, tenho esperança de que se forem cumpridas, vamos reabrir o Maria Vitória, até porque não quero ser o empresário que o encerra.”

Pelo caminho, deixa um reparo: “Isto que eu tenho dito não é uma crítica ao governo, mas à ministra da Cultura. Todo o País sabe que ela não existe. Tem ouvido falar dela? É que ela não recebe ninguém”.

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