Teatro e exposições

Ai Weiwei: quem é o artista chinês de que todos falam e que esteve em Portugal?

O artista que é nome maior da arte contemporânea teve uma vida invulgar e em 2021 vamos ter direito a uma exposição no nosso País.
Um eterno dissidente.

A viver em Cambridge, no Reino Unido, desde o ano passado, Ai Weiwei mudou-se para uma herdade no Alentejo nos últimos meses. Foi a partir dali que se deixou fascinar por materiais portugueses, como a cerâmica, a cortiça e o azulejo. Há novos obras a caminho e vamos poder ver tudo entre 4 de junho e 28 de novembro de 2021 em “Rapture”, uma exposição na Cordoaria Nacional que fará de Lisboa um ponto obrigatório a visitar nos mapas globais da arte contemporânea.

Aos 63 anos, o nome de Ai Weiwei é uma referência em todo o mundo da arte. Na China, no entanto, é ainda nome a evitar por artistas mais bem aceites pelo regime. Há, no entanto, uma legião de seguidores que o acompanha e continua a colaborar com ele, mesmo a milhares de quilómetros de distância.

O seu mais recente filme, “Coronation”, foi gravado por voluntários em Wuhan, epicentro da Covid-19, durante as medidas draconianas de quarentena. O filme é, no entanto, apenas uma das suas plataformas. Para Ai Weiwei, a sua arte é precisamente o protesto, a voz política. E tem feito toda uma carreira, de marginal a estrela, em que mudam os materiais e as formas mas a sua abordagem mantém-se.

As quase duas dezenas de documentários juntam-se a obras de grande dimensão, como a instalação em Berlim em 2016 feita com coletes recolhidos de imigrantes que faziam a travessia do Mediterrâneo, ou a mensagem gigante que construiu com mochilas, em memória das milhares de crianças que morreram no terramoto de Sichuan em 2008.

Esse projeto foi um dos que o colocaram na mira das autoridades chinesas. Com a ajuda de voluntários, durante um ano recolheram informações de crianças desaparecidas e que as autoridades não forneciam.

Em 2009, foi detido pelas autoridades e agredido. Um mês depois, já em Berlim, as dores de cabeça persistiam. Foi fazer exames e um traumatismo no crânio colocava a sua vida em risco. Foi operado de urgência, mas voltaria à sua China natal.

Em 2010, numa entrevista à “The New Yorker” a partir do estúdio que se tornara uma referência para jovens artistas no País, Weiwei explicava que continuava a evitar o circuito das grandes galerias de arte. Preferia vender através de espaços mais pequenos ou diretamente. “Não gosto do sistema.” A frase era sobre a indústria da arte mas podia ser também sobre o regime do seu país.

Naquele ano voltaria a ter problemas com as autoridades. O blogue que mantinha há quatro anos e onde criticava o Partido Comunista Chinês foi encerrado. O seu estúdio recebeu ordens de demolição por supostas questões burocráticas. A mais de 700 quilómetros do seu estúdio, em prisão domiciliária, em Pequim, convocou uma festa a que atenderam centenas de pessoas. A destruição do seu espaço não era uma tragédia — tornou-se também uma instalação artística.

Em 2011, voltou a ser preso e arriscava 13 anos de cadeia. A pressão internacional era grande mas a verdade é que a sua popularidade além fronteiras já não o poupava à pressão do governo. Passou 81 dias na cadeia por subversão e saiu após pagar uma multa de mais de dois milhões de euros por alegada fraude fiscal. O dinheiro chegou através de donativos de fãs.

Os documentos que supostamente comprovavam a sua culpa foram destruídos por ordem das autoridades. Durante quatro anos teve o seu passaporte confiscado. Quando o devolveram, em 2015, mudou-se para a Alemanha. Uma mudança, apesar de tudo, bem diferente das que viveu enquanto crescia.

Ai Weiwei, agora em Portugal.

Filho de um renegado

Quando nasceu, em 1957, o seu pai, Ai Qing, em tempos um poeta de renome no país, era já um homem caído em desgraça. Ai Qing chegou a estar preso nos anos 30 pelas suas ligações à esquerda. Acabou por se juntar ao partido comunista e era até um admirador de Mao Tse Tung. Mas os seus poemas que falavam sobre liberdade de expressão levaram-no a ser denunciado por um colega poeta.

Em entrevistas ao longo dos anos, o artista nunca fala muito sobre a relação que teve com o pai. Foge do cliché de filho de pai atormentado mas também de um passado com poucas boas memórias. Recorda-se de um período difícil, em que o pai “tentou o suicídio várias vezes”.

Durante anos, Ai Qing foi sendo cada vez mais humilhado, primeiro condenado a lavar casas de banho para sobreviver e depois transferido para um campo de trabalhos forçados. Em 1976, ano em que Weiwei terminou o liceu, foi também o ano em que a sua família foi autorizada a voltar a Pequim. Mao morrera e já passara o pico da Revolução Cultural.

O pai, que na verdade nunca se afastou do partido comunista, não deixou de ser uma voz dissidente. Em 1989, aos 79 anos e numa cadeira de rodas, pediu para ser levado até Tiananmen, onde decorriam os famosos protestos. Nessa altura já há muito que o filho abandonara o país.

Weiwei estudou na Academia de Cinema de Pequim mas o seu fascínio estava com um movimento avant-garde que integrou e que se autointitulava Estrelas. Em 1981, partiu para os EUA. Estudou design durante um tempo em Nova Iorque mas optou por continuar a pintar enquanto tinha outros trabalhos. Foi jardineiro, babysitter, trabalhou nas obras, o que fosse preciso. Onde quer que morasse, outros artistas chegavam para o visitar. Mas as condições eram precárias, ao ponto de, quando se mudava de casa, destruir obras que não conseguira vender e que não podia transportar.

Com o tempo, ainda ganhou dinheiro a vender fotografias para O “New York Times” e chegou a ser visitado por Alleng Ginsberg, poeta de proa da geração beat, que conhecera em tempos o seu pai. Aos poucos ia chegando algum reconhecimento mas em 1993, quando o pai adoeceu, regressou à China.

Conheceu Lu Qiing no ano seguinte, artista que se tornaria a sua mulher. O casal não tem filhos mas Ai Weiwei é pai de uma criança fora do casamento. “Não ache que eu deva ter uma criança mas se tu insistes eu assumo a responsabilidade”, disse na altura à amante quando soube da gravidez. Acabou por se tornar mais próximo do que imaginava. Em 2010, contava à “The New Yorker” que via o filho todos os dias. Hoje em dia, Weiwei é pai e filho à distância. Tem a mãe por lá mas não a vê desde que saiu há cinco anos do país. Se voltar, teme que lhe confisquem o passaporte.

Ao longo dos últimos 20 anos, o artista viu o seu nome ascender ao topo da arte contemporânea. Ao mesmo tempo, enquanto explora diferentes temas e materiais, nunca perde o seu lado político e até o bom humor. Uma exposição de 2000 intitulava-se simplesmente “Fuck off”. Em 2012, sem pretensões, divertia-se com colegas num vídeo a dançar “Gangnam Style”.

Há no artista uma ambiguidade que parece acompanhá-la desde o início. Num livro de memórias de 2007 da sua mãe, “Ai Qing and I”, Gao Ying, mãe do artista, recordava que na hora de escolher o nome do filho o seu pai abriu o dicionário ao calhas e apontou para um dos caracteres, que significava “poder”. A viver a fase mais difícil da sua vida, o pai achou melhor mudar para uma opção menos irónica e alterou o tom para um diferente “wei”. Ficou Weiwei, que significa “ainda não, ainda não”.

Hoje em dia, Weiwei continua a criticar o seu país. Aponta o dedo ao capitalismo de estado, à repressão de diferentes ideias, fala do coronavírus ou dos protestos em Hong Kong. É, mesmo à distância, uma voz incómoda.

Numa entrevista no início do ano ao  “The Guardian”, o artista contava que, certa vez, durante um interrogatório, lhe perguntaram: “Weiwei, se não te pressionássemos tanto, não serias tão famoso, não é?” Eis o que respondeu: “Sim, tens razão. É preciso um inimigo para fazer de mim um soldado. Se não tenho um grande monstro contra quem lutar, quem sou eu?”

A exposição “Rapture”, que vai estar na Cordoaria Nacional de 4 de junho a 28 de novembro de 2021, conta com curadoria de Marcello Dantas. Os bilhetes já estão à venda online e custam 13€. Há também diferentes preços de bilhetes em família e descontos para estudantes, crianças e maiores de 65 anos.

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