Teatro e exposições

André de Freitas e o sucesso no stand-up: “Em Portugal batem muitas palmas. Nos EUA, não”

O comediante português, que vive em Nova Iorque desde 2024, tem vindo a conquistar o seu espaço no circuito internacional. Em junho, traz um novo espetáculo a Portugal.

André de Freitas sempre quis subir a uma prancha antes de pensar em subir a um palco. Cresceu na Costa da Caparica, depois de nascer em Guimarães, e passou grande parte da infância entre o surf, a praia e a ideia de que talvez pudesse tornar-se surfista profissional. Mas, aos poucos, começou a perceber que aquilo que realmente procurava era outra coisa: atuar, provocar reações e encontrar uma forma de comunicar com as pessoas.

Hoje, aos 31 anos, é um dos poucos portugueses a conseguir espaço no competitivo circuito internacional de stand-up comedy. E leva Portugal onde quer que vá, não tivesse várias piadas preparadas sobre o País que o viu anscer.

Desde 2024, que André vive em Nova Iorque. Desde então, tornou-se o primeiro humorista português a integrar o grupo restrito de artistas residentes do Comedy Cellar na cidade, um dos clubes de comédia mais importantes do mundo, por onde já passaram nomes como Dave Chappelle, Chris Rock ou Louis C.K.

Antes disso, passou anos entre eventos de open mics em Londres, festivais internacionais e atuações em mais de 30 países. O percurso começou verdadeiramente em 2015, quando decidiu mudar-se para o Reino Unido para tentar construir um currículo que lhe permitisse, mais tarde, conseguir um visto artístico para os Estados Unidos.

“Começar em Londres foi a licenciatura, fazer digressões pelo mundo foi o mestrado e atuar em Nova Iorque, no Comedy Cellar, é o doutoramento”, diz à NiT.

O humorista regressa agora a Portugal com “Public Display of Affection”, um novo espetáculo de stand-up comedy, em inglês, sobre amizades, separações, relações e os desconfortos silenciosos da vida adulta. O espetáculo passa pelo Auditório Francisco de Assis no Porto a 8 de junho, pelo Salão Brazil em Coimbra a 9 e pelo Teatro da Trindade Inatel em Lisboa a 15 e 16 de junho. A primeira data em Lisboa já esgotou.

Os bilhetes custam entre 17€ e 21€. Para mais informações pode consultar a página de Instagram do artista português. 

A poucos dias de aterrar em Portugal, falou com a NiT sobre as grandes inspirações ainda em Portugal, o percurso no stand-up e o novo espetáculo. 

Como surgiu o interesse pela comédia?
Durante muitos anos achei que queria ser surfista profissional, mas também tinha muito esta coisa de performer. Aos 16 anos fui para a Escola de Teatro Experimental de Cascais porque ainda estava à procura daquilo que queria fazer. Nessa altura o stand-up ainda não fazia parte da cultura portuguesa como hoje. O teatro era uma coisa mais conhecida.

E quando é que percebeste que o stand-up comedy podia ser um caminho?
Tive um colega que era primo do Rui Sinel de Cordes e ele disse-me: “acho que ias gostar disto”. Fui ver um espetáculo com o Salvador Martinha, o Rui Sinel de Cordes e o Luís Franco-Bastos. Tinha 16 anos e lembro-me perfeitamente da sensação. Pensei logo: “isto faz sentido para mim”. Antes disso também me lembro de ver o Chris Rock com o meu pai e aquilo teve um impacto gigante.

Lembras-te da primeira vez que subiste a um palco?
Lembro-me perfeitamente. Foi em 2012, num espetáculo na Guilherme Cônsul, em Lisboa. Estava tão nervoso que caí do palco. Estava sempre a mexer-me e nem percebia bem onde acabava o palco. Caí e foi a maior gargalhada da noite. Aquilo assustou-me, mas ao mesmo tempo percebi o poder daquela reação. A adrenalina do stand-up é tão forte que depois já não consegues largar aquilo.

 
 
 
 
 
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Quando decidiste que querias ir viver para os Estados Unidos?
Primeiro fui para Los Angeles em 2015, tinha 19 anos. Ia fazer open mics, dormia no carro e batia à porta das pessoas a perguntar se podia cortar relva para ganhar algum dinheiro. Os meus pais ficaram preocupadíssimos. Nem conheciam bem o conceito de stand-up e eu queria fazer aquilo numa língua que nem era a minha, num mercado super competitivo. Mas rapidamente percebi que sem visto era impossível. Então percebi que precisava primeiro de construir currículo internacional. Londres acabou por fazer sentido porque não precisava de visto e porque tinha uma cena de stand-up muito forte.

Foi aí que sentiste que a carreira começou verdadeiramente?
Sem dúvida. Antes fazia atuações aqui e ali, mas em Londres mentalizei-me mesmo: “estou aqui para fazer isto”. Comecei nos open mics para quase ninguém, fui entrando nos clubes de comédia, depois consegui atuar no Fringe Festival de Edimburgo, um festival de artes performativas de vários géneros. Aí as coisas começaram a mudar.

O festival de Edimburgo foi decisivo?
Muito. Um produtor importante viu o espetáculo, decidiu apostar em mim e ajudou-me bastante. O espetáculo teve boas críticas no “Telegraph”, no “Sunday Times” e isso acabou por ajudar muito no processo do visto. Depois, fui também a um festival na Austrália onde ganhei um prémio. Aos poucos começou a criar-se buzz à volta do meu nome.

E quando é que surgiu o Comedy Cellar em Nova Iorque?
Foi já depois de me mudar para Nova Iorque. Conheci um produtor americano que recomendou o meu nome ao Comedy Cellar. Fui fazer uma audição e eles gostaram. Entrar lá dentro é muito importante para quem trabalha nesta indústria. Talvez as pessoas fora da comédia não percebam o peso daquele clube, mas para nós significa aprovação.

Como é atuar num dos clubes mais importantes do mundo?
É muito intenso. Tens pessoas lá há 30 anos. Em Nova Iorque, perguntam-me há quanto tempo é que faço stand-up e quando digo 10 anos respondem: “ainda estás a começar”. Os norte-americanos valorizam muito o percurso difícil. Eles usam muito a expressão “you have to pay your dues”. Tens de provar constantemente que mereces estar ali.

Quais são as maiores diferenças entre o público português e o norte-americano?
São culturas completamente diferentes. Em Portugal as pessoas batem muitas palmas. Às vezes ainda estás a dizer a piada e já há palmas. Nos Estados Unidos eles racionalizam muito mais isso. Só batem palmas quando acham mesmo que aquilo merece.

E em termos de atitude perante os espetáculos?
Os portugueses ainda vão um bocado desconfiados. É quase “vamos lá ver se isto é bom”. Os norte-americanos e os ingleses vão mesmo para se divertir, beber copos e rir.

Os norte-americanos sabem alguma coisa sobre Portugal?
Muito pouco. Eles vivem muito fechados no universo deles. Os Estados Unidos são o centro do mundo para muitos. Tenho até uma piada sobre isso: “What do you think about Portugal? I don’t think about Portugal”. Agora começa a haver mais gente que já ouviu dizer que Portugal é fixe, mas ainda somos um país muito invisível lá fora.

Sentes que continuas muito ligado a Portugal apesar de viveres nos Estados Unidos?
Muito. Tenho uma relação muito forte com Portugal. Sou português, venho cá ver a minha família e continuo a vir muitas vezes, depende um bocadinho das oportunidades de trabalho. Agora, por exemplo, vou voltar em agosto. Ainda tenho amigos de infância cá e a maior parte do português que falo hoje em dia é com amigos portugueses ou com a minha família.

Ainda há pouco tempo um rapaz português fez um pop-up de bifanas em Nova Iorque e um grupo de portugueses que vive lá foi todo comer bifanas. Caiu-nos que nem ginjas (risos). Acho que a comida portuguesa, a cultura e estar com outros portugueses acabam por criar logo uma ligação muito forte.

O meu prato favorito continua a ser o bacalhau à Brás da minha mãe. Hoje, por exemplo, estou em Portugal e fui comer um belo linguado grelhado ao pé da praia, na Costa da Caparica. Vejo sempre Portugal como uma casa e, apesar de trabalhar fora, quero sempre manter uma casa aqui e voltar com frequência.

O teu humor parece funcionar em muitos países diferentes. Isso é intencional?
Sim. O meu estilo é muito global. Tento escrever piadas que funcionem em Lisboa, Nova Iorque ou Varsóvia. Quando viajas tanto percebes que existem emoções universais. Relações, família, obsessões, inseguranças. Isso existe em todo o lado.

O sentido de humor muda muito de país para país?
Completamente. Na Polónia ou em países do Leste Europeu existe um humor muito mais negro por causa da História deles. Passaram pela União Soviética, pelo nazismo, pelo Holocausto. Isso molda o sentido de humor. Já os norte-americanos sabem muito pouco sobre a História do resto do mundo. Então, se te quiseres dirigir a eles, tens muitas vezes de partir da realidade norte-americana.

As redes sociais também te ajudam muito a impulsionar a carreira?
Hoje em dia são fundamentais. Se consigo vender bilhetes em vários países, muito se deve às redes sociais. O especial “What If”, que coloquei no YouTube, ajudou muito nisso também.

O que é que o público pode esperar de “Public Display of Affection”?
É um espetáculo mais íntimo e pessoal. Fala muito desta fase estranha da vida adulta, das amizades antigas, das separações, das expectativas que tínhamos para a vida e daquilo em que realmente nos tornámos. Acho que muita gente se vai identificar com isso.

Carregue na galeria para ver algumas imagens de André de Freitas e das suas atuações ao vivo. 

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