Teatro e exposições

Benedita Pereira: “O que me mantém com paixão é achar que ainda sou novata”

A NiT entrevistou a atriz de 35 anos, que vai apresentar a peça “Comédia de Bastidores” no Teatro São Luiz, em Lisboa.
Benedita Pereira interpreta Marion em "Comédia de Bastidores".

Depois de ter sido apresentada no Teatro Nacional São João, no Porto, no ano passado, “Comédia de Bastidores” chega a 21 de abril a Lisboa, dois dias depois de as salas de espetáculo reabrirem. A peça, do dramaturgo britânico Alan Ayckbourn, vai estar em cena no Teatro São Luiz entre 21 de abril e 9 de maio.

Com encenação de Nuno Carinhas e João Cardoso, esta história centra-se na mudança de sorte de três casais. A narrativa decorre numa celebração do Natal e cada ato acontece na casa de um casal diferente num ano sucessivo. Explora-se o tema do materialismo, o que realmente significa ser rico e as lutas da classe média. Os bilhetes estão à venda entre os 12€ e os 15€.

O elenco é composto por Benedita Pereira, Catarina Gomes, Paulo Freixinho, Pedro Frias, Pedro Galiza e Sara Carinhas. A NiT falou com a atriz portuense Benedita Pereira, de 35 anos, sobre esta peça de teatro, a internacionalização da sua carreira nos últimos anos e outros temas. Vai poder ver um excerto desta entrevista no programa “New in Town”, da TVI24, no sábado, 10 de abril, a partir das 14h30.

De que é que gostou mais nesta peça? O que é que a atraiu para querer participar?
Para ser sincera, em primeiro lugar foram as pessoas envolvidas. O convite veio do Nuno Carinhas e do João Cardoso, e percebi logo que ia ser um elenco que me agradava, com gente do Porto e com a Sara Carinhas também. Depois, li o texto e achei delicioso. Nalgumas partes, é doloroso-delicioso. Porque é uma comédia muito divertida, mas tem uma parte que nos mostra um bocadinho os podres da sociedade. Apesar de ter sido escrita nos anos 70, há muita coisa que infelizmente ainda se aplica. E tem esse lado crítico à sociedade, aos casais e ao machismo e a muita coisa que continuamos a discutir hoje em dia.

É um texto que se mantém atual, portanto?
Sim. E mesmo as coisas que não são atuais, ou que dizemos “isto era em 1970”, ainda são discutíveis hoje em dia. Infelizmente ainda têm uma certa atualidade. A sociedade de 1970 não é exatamente como é hoje e nós percebemos as diferenças de algumas coisas, na forma como as pessoas lidam umas com as outras, e o papel da mulher. Mas ainda há muitos restos disso. Ainda há pessoas que vivem assim, por isso ainda é atual, e algumas coisas não deviam ser.

Em relação à sua personagem especificamente, que tipo de figura é?
No fundo são três casais. A Marion faz parte do casal que, no início da peça, está no nível social um bocadinho acima dos outros. Porque ele trabalha num banco e no fim até percebemos que vivem num palacete. Mas a relação vai-se deteriorando ao longo da peça. Ela tem um problema que vai ficando cada vez mais evidente com o álcool. Acho que se pode dizer que eu passo a maior parte do tempo bêbeda [risos]. Isto porque realmente a vida dela não a satisfaz assim tanto. E no início percebe-se que o que a satisfaz é um bocadinho espezinhar os outros e viver um bocadinho esta altivez. E depois há o declínio deste casal em relação aos outros. Há uns que vão subindo, outros que vão descendo, mas não vou dizer mais, para as pessoas irem ver [risos]. Mas a Marion passa por este processo e normalmente está inebriada para poder lidar com a realidade.

Houve algum tipo de preparação específica que foi necessária para o papel, ou até para essas cenas em que ela está embriagada?
Eu acho que essa coisa da bebedeira e do alcoolismo, há uma linha ténue entre o exagero… mas ao mesmo tempo às vezes quando vemos os bêbedos na vida real, ou um alcoólico, percebemos que não há muitos exageros. Mas tem que ser verdadeiro, eles não tentam mostrar que estão embriagados, antes pelo contrário. Foi um bocadinho por observação. Não tem muito a ver, mas houve qualquer coisa que também me fez ir rever um filme do John Cassavetes, o “Noite de Estreia”, com a Gena Rowlands, porque ela também tem uma relação com o álcool. Houve qualquer coisa na Marion, quando estava a ensaiar, que me fez lembrar de ir ver o filme. E depois houve pessoas da minha vida de que também me lembrei, vieram-me assim imagens de pessoas… O meu processo também muda consoante as personagens, mas este foi pelas referências de vida ou de filmes que vi.

O maior desafio foi esse, essa questão de interpretar uma personagem alcoólica? Ou nem por isso?
Sim, mas também a parte de ser uma comédia que tem que estar muito bem orquestrada. Porque se perdermos aquele tempo naquele momento, é tipo efeito dominó e as coisas deixam de correr bem. Foi muito, muito ensaiado, para ser uma coisa mesmo bem orquestrada e em que as coisas estão no sítio certo, com a energia certa. Mais do que estudar ou pensar muito no assunto, foi mais um processo de ir descobrindo ao ir fazendo.

Já apresentaram a peça no Porto e agora vai estrear em Lisboa. Há alguma diferença para si em interpretá-la na sua cidade de origem e em Lisboa?
Não sei, mas estou bastante entusiasmada de trazer a peça cá [a Lisboa] por vários motivos. Porque já não faço teatro em Lisboa há uns anos, porque trazemos um grupo de atores do Porto — que muitas vezes estão cá com peças, mas é sempre para mim um prazer e orgulho estar com eles a fazer algo em Lisboa — e estou curiosa em relação à recetividade. Dizem que no Porto o público é um bocadinho mais simpático do que em Lisboa, mas não sei se é verdade [risos]. Eu acho que é igual. Mas tenho essa curiosidade, agora seis meses depois e pós-confinamento, vai ser imediatamente quando abrem os teatros, as pessoas estão com muita vontade de ver e acho que é mesmo o espetáculo ideal. Porque é divertido, porque nos faz olhar para nós próprios. Faz-nos pensar, mas principalmente faz-nos rir, que é o que nós precisamos. 

Entrevistámos Benedita Pereira no Torel Palace, em Lisboa.

Também pode ser um escape para o dia a dia que todos temos nesta fase.
Claro, eu também estou cheia de vontade de ir ao teatro, mas tenho que acabar este espetáculo para poder ir [risos]. Mas há outra diferença: vamos fazer os espetáculos de manhã, ao fim de semana. Vai ser todo um desafio e espero que as pessoas venham na mesma. Vai ser uma primeira vez para mim, nunca fiz teatro infantil por isso nunca fiz mesmo teatro de manhã. Muito menos uma peça assim.

Não tem um tom muito matinal, não é?
Não, principalmente uma pessoa estando bêbeda logo de manhã [risos]. Mas vai ser engraçado.

E o facto de estarem sem interpretar o texto há vários meses também deve fazer com que o regresso seja especial.
Sem dúvida. E esta coisa das reposições também tem alguma graça, porque voltar a uma personagem seis meses depois acho que só nos faz bem. Dá-nos uma camada diferente por cima. Tudo o que nós tínhamos mais aquilo que vivemos ou pensámos durante estes seis meses. E principalmente quando há um interregno do teatro e tudo e existe mesmo esta vontade de voltar e de refinar as coisas.

E nestes seis meses, como é que funciona? Afasta-se inicialmente da personagem para depois regressar a ela?
Sim, sim. É a vida, consome-nos. Nós temos outras coisas para fazer, outros trabalhos. E apesar de eu ter tido sempre esta vontade de voltar a fazer, também tinha o medo: será que vamos conseguir? Será que os teatros vão abrir? Era um bocadinho gerir as expetativas. E, agora sim, estamos a voltar e é preciso rever o texto, porque há coisas que ficaram e outras de que nos vamos esquecendo. Agora já estou mesmo: ok, isto vai acontecer. E estou muito entusiasmada. Mas tive alguns momentos em que fiquei com medo que não acontecesse.

Mudando um pouco de tema, nos últimos anos tem feito vários trabalhos lá fora, mesmo após ter regressado a Portugal, depois dos anos em que esteve em Nova Iorque. É algo que procura cada vez mais? Como é que olha para isso neste momento da carreira?
Essa vontade é algo que acho que vai ficar comigo para sempre. E espero que haja mais oportunidades. Porque tenho muita vontade de estar sempre a trabalhar com pessoas diferentes e de contar histórias com pontos de vista diferentes. Não só com realizadores, mas com encenadores, atores, escritores diferentes. E como é óbvio dá para fazer muita coisa em Portugal, mas há um leque muito grande de pessoas e histórias incríveis que se podem contar lá fora. E como vi muita coisa e trabalhei com pessoas de imensas nacionalidades, backgrounds, religiões e culturas, acho que isso não vai sair de mim. Senti que era mesmo por ali que eu queria que a minha carreira fosse. Estar num set e ouvir várias línguas, há ali qualquer coisa que sei que é algo que quero continuar a fazer. Entretanto, tivemos este interregno de pandemia.

A peça dura cerca de duas horas.

Que parou tudo, obviamente.
E eu por acaso também fui mãe, portanto até não foi mau [risos]. Coincidiu bem. Mas já perdi uma oportunidade para um trabalho lá fora por causa da pandemia, porque eles fecharam e eu fiquei bastante triste. Era mesmo uma coisa certa e uma pessoa pensa: que raio de timing. Mas há de acontecer mais. E continuo a fazer por isso. Já estávamos numa fase em que fazíamos muitas audições em self-tape, à distância, e agora é sempre assim. Mesmo se vivermos na cidade, fazemos o casting em casa. Acho que isso é uma coisa que veio para ficar e só nos ajuda a não ter que estar… Quando eu vivia em Nova Iorque isso ainda não existia muito, e foi importante para mim ir, mas agora eu não preciso tanto de lá estar para estar no mercado. Isso é interessante.

Sente que tem mais oportunidades agora, com estes métodos novos?
Sim e há uma abertura maior para outras nacionalidades. Quando eu vivia lá eles tinham muito esta coisa de nos quererem pôr numa gaveta. Não havia gavetas para portuguesas. Brasileira? Não é bem. Hispânica, latina? Mas depois eu ia a esses castings e olhava e “ah, isto não é bem para mim”. Percebia que era sempre assim uma wild card. Agora há cada vez mais portugueses a fazer coisas e acho que há mais abertura… esta coisa de não termos que parecer nada. Somos estrangeiros, pronto. Eu na verdade neste momento até já posso fazer de americana, porque tenho o sotaque, mas não é a parte mais interessante. A parte mais interessante é nós sermos diferentes e estrangeiros e trazermos um cunho diferente às nossas personagens. E acho que o mercado está cada vez mais a pedir isso e à procura disso. Portanto acho que é um momento interessante.

Depois desta peça, já tem algum projeto que vá fazer de que já possa falar?
É engraçado, agora tenho bastante teatro no horizonte. Vou voltar ao Porto para fazer outro espetáculo, mas só depois do verão. Ainda não tenho texto, é uma coisa nova. E para o ano tenho outro espetáculo, que a seu tempo falaremos, mas começou por ser um projeto pessoal, uma peça que vi em Inglaterra e que quis trazer, é algo que quero muito fazer. Nos filmes e na televisão, é tudo para ontem, as coisas quando acontecem é muito rápido. Há assim algumas coisas em vista, mas ainda não tenho nada concreto.

Este regresso prolongado ao teatro era algo que queria fazer há algum tempo?
Sim, realmente as coisas vêm a seu tempo. Nós pedimos, fazemos por isso, e elas vão aparecendo. E de facto foi sempre uma vontade desde que voltei para Portugal. E voltei ao teatro, depois houve um interregno, depois houve coisas que não pude fazer com o trabalho em televisão — às vezes também é chato — e agora começam a surgir convites com pessoas incríveis ou esta vontade de: quero muito fazer este texto e vou fazer com que aconteça. Está tudo a acontecer ao mesmo tempo e deixa-me muito feliz.

A atriz começou a carreira ainda nos anos 90.

E suponho que também seja bom para um ator equilibrar entre as várias áreas da representação.
Sim, para mim é essencial. Aquilo de que gosto quando falo de diversidade também tem a ver com o meio. Gosto muito de ir saltando do teatro para a televisão e para o cinema. Tenho tido a sorte de poder ir saltando e não estar sempre a fazer o mesmo género. Acho que é ótimo para nós como atores, é uma ginástica diferente dos nossos talentos, e também é importante para os públicos diferentes nos verem, para trabalharmos com pessoas diferentes, com timings que são completamente diferentes. A mim faz-me muito bem não estar confortável. Eu nunca sei como isto funciona, estou sempre a achar que estou a começar [risos]. E entretanto tenho 35 anos. Mas tenho muito essa coisa de achar que ainda sou novata e acho que é isso que me mantém com esta paixão de trabalho. Quero estar sempre a aprender com os outros.

E também ajuda a não cair numa rotina.
Sim, para mim é mesmo muito importante. O estar confortável, “vou-me sentar e relaxar”, acho que é péssimo para os atores. Não me faz andar para a frente.

E como estava a dizer, tem 35 anos, trabalha como atriz há bastante tempo, mas obviamente ainda tem uma longa carreira pela frente…
Ah, espero que sim [risos], mas a nossa profissão, esta coisa de sermos intermitentes… não é só a parte da insegurança financeira, que nunca sabemos se vamos ter dinheiro para… se daqui a um ano vamos ter trabalho e se vamos conseguir continuar a pagar as coisas, mas depois também há a parte poética da coisa: será que vou ter personagens interessantes? Eu preocupo-me muito com essa parte. Claro que também me preocupo com a parte financeira, mas felizmente para já tenho tudo mais ou menos equilibrado. Mas nunca sabemos é se vão continuar a gostar de nós e se vão continuar a chamar-nos, se vamos passar nos castings… Estamos sempre nesta dúvida constante, que por um lado acho que nos faz bem, mas por outro às vezes é angustiante. 

Essas dúvidas também fazem com que seja bastante exigente na escolha dos trabalhos que quer fazer?
Sim. Durante muito tempo, quando vivia em Nova Iorque e mesmo depois, houve muitos “nãos” que tive que dizer. Há uns que me custaram, e em detrimento da minha parte financeira. Não quero porque não estou a sentir, não acho que seja o passo certo, não estou entusiasmada. Porque a verdade é esta: eu tenho que estar super entusiasmada com o que me apresentam, com o texto, a pessoa com que vou trabalhar, com alguma coisa. Tenho que sentir esse entusiasmo para ir. Porque se não, já me aconteceu ir com esse entusiasmo e depois ficar meia desiludida e eu não quero nada ser aquela pessoa que está ali mas não está a gostar muito do que está a fazer, e que está a picar o ponto, ou que está a dizer mal das coisas, porque há muito essa coisa, “este texto é tão mau, está tudo mal escrito”, eu não quero ser essa pessoa. Então tenho um compromisso comigo própria de só fazer as coisas de que gosto mesmo, em que há algum chamamento. E há uma coisa parva que penso nessas alturas de indecisão: se eu vir outra atriz a fazer esse papel vou ficar chateada ou estou tranquila? Esta resposta já foi fator decisivo, já disse “não” e “sim” por causa disso. Claro que há uma série de fatores, mas depois simplifica-se e é isto: vou ficar sentida se vir outra pessoa a fazer. 

O teatro é o que mais vai ocupar a sua vida profissional nos próximos tempos.

Há algum papel que nunca tenha feito mas que gostaria muito de fazer?
Eu trabalhei muito tempo em escola, quando estava em Nova Iorque, uma personagem da “Casa de Bonecas”, a Nora. Gostei muito dessa personagem e tive pena de não a fazer numa coisa mais profissional. É um bocadinho o início de um feminismo. E foi difícil, não é a personagem mais óbvia, uma pessoa pensa em mim e não pensa logo naquela personagem. Pelo menos eu acho que não [risos]. Há outra personagem de outra peça que eu acho que ainda vou fazer, que nem sequer está traduzida em português, que me convidaram na altura para fazer, depois não deu, e acho que ainda está para se fazer, talvez daqui a dois anos. E quando li o texto pensei: como é que alguém pensou em mim para isto? Lá está, as nossas dúvidas. É uma personagem super completa e difícil. Mas esta outra do espetáculo para o ano também é uma que vi, disse que ia fazer e vou fazer. As coisas estão encaminhadas. E também há essa coisa: não podemos ficar só à espera das oportunidades. Claro que não sou daquelas atrizes, e tenho alguma… não é inveja, mas tenho uma admiração muito grande, por aqueles atores que escrevem as próprias coisas. Já fiz algumas coisas assim, mas é muito difícil, e às vezes tenho só vontade de ser atriz. E ser só atriz já é muita coisa [risos]. Mas acho que ainda vou fazer projetos pessoais e coisas que venham da minha cabeça, mas acho que ainda não é bem o momento. Se calhar um bocadinho mais velha. 

Mas tem escrito coisas, mesmo que não seja nada de concreto para os próximos anos?
Não, eu preciso de ter mesmo um deadline ou qualquer coisa. Eu própria sentar-me a escrever uma coisa é complicado. Quando fiz uma peça em Nova Iorque, era baseada em coisas que eu escrevia. Eu tinha um blogue, no início mandava emails às pessoas, e juntei essas coisas todas mais algumas e fizemos um monólogo. Mas agora, ainda por cima como mãe e estando em casa, tinha mesmo de sair de casa e não tem sido muito possível [risos]. Talvez no futuro. Mas uma vez pediram-me para escrever uma coisa para um espetáculo, era uma leitura encenada, e aquilo soube-me lindamente. Até escrevi rápido e aquilo andou a ser dito por outra pessoa. Um texto meu foi representado! Já tenho essa na cartola e não consegui ir ver porque nunca estava cá quando eles fizeram esse espetáculo. E fiquei com o bichinho, mas não tenho estado nada concentrada nisso, hei-de voltar. Por exemplo, tenho uma curta-metragem escrita na gaveta há anos. Alguém ia realizar, mas depois isto acontecia, depois aquilo, e depois vim-me embora de Nova Iorque. Há coisas que tenho na gaveta que se calhar nunca vou fazer, ou se calhar ficam de inspiração para outra coisa. Não sei.

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