Teatro e exposições

Cada retrato tem uma história — e O Fotógrafo Português já contou centenas

A NiT esteve à conversa com Afonso Azevedo Neves, responsável pelo projeto no Instagram O Fotógrafo Português, onde o retrato é o ponto forte.
Cada retrato tem a sua história.

Começou como é bom estas coisas começarem: como uma brincadeira. E como também se quer nestas situações, foi evoluindo com o tempo. A dada altura, a objetiva de Afonso Azevedo Neves passou a centrar-se cada vez mais no rosto.

Agora, ao passarmos pela página no Instagram O Fotógrafo Português, onde conta já com quase de 15 mil seguidores, é fácil de ver o porquê. Afonso Azevedo Neves, que trabalha numa agência de comunicação, continua a dar-nos retratos sempre diferentes, sempre próprios, com as mais diversas pessoas. A câmara é uma boa ajuda, explica o fotógrafo à NiT. Mas uma fotografia é também o seu contexto. E no caso de um retrato, isso é ainda mais importante quando procuramos algo diferente. É assim que ele gosta de trabalhar.

“À semelhança de muita gente, comecei a fotografar em miúdo com o mesmo jeito que qualquer outro miúdo, ou seja, rapinava a máquina aos meus pais e estragava rolos”, recorda à NiT.

Hoje em dia com o digital a fotografia, este é o tipo de aventura que é mais fácil um miúdo começar. Naqueles tempos, Afonso, como tantos outros, habituou os pais àquela curiosa dor de cabeça: ele explorava, o que por vezes implicava que, de um rolo inteiro, só um par de fotografias se salvavam. Fazia parte do processo de crescimento.

Na altura começou com aquela ambição de miúdo: tudo era para fotografar. “Todos nós temos uma máquina fotográfica no bolso e isso é uma coisa boa”. Afonso faz questão de realçar que a ideia de toda a gente se atrever a ser um pouco fotógrafo não é “sacrilégio”. “É como se todos nós andássemos com um bloco de notas para fazermos poemas. Vai haver muito poema que é gato, rato, sapato. Mas há boas possibilidades de encontrarmos grandes poetas”.

Então, como passou de fotografar tudo em miúdo para algo tão mais específico (e em boa parte intimista)? “Sempre fui fascinado pelas caras, pelas expressões, por aquilo que podem ou não revelar”, conta. “Mas qual era o problema? Eu era tímido”, conta.

“Tirar um retrato, fazer o que faço hoje em dia, obriga-nos a ter uma conversa com a pessoa que temos à nossa frente, para que ela se sinta à vontade com a máquinas”. Não é tanto uma questão de técnica, é mais de descoberta, explica.

“A ideia é tentar encontrar o tal ‘eu’ escondido”. Nalguns casos, conta-nos, as fotos surpreenderam os fotografados, seja por captarem um sorriso que a pessoa sente que a representa na perfeição, seja por evidenciar algum detalhe que escapava à própria.

“Durante muito tempo refugiei-me nesse caminho, de tirar fotos nas ruas, de apanhar alguém distraído numa festa”, tudo isto antes de ser capaz de abordar a pessoa, sentar-se à frente dela e procurar um baixar de guarda, à procura de um retrato certeiro — aquele tipo de precisão de quem desmonta o acaso.

“[Com um retrato] Não posso deixar de tentar mostrar mais tarde o teu melhor lado. Isto não tem necessariamente com uma noção de beleza. Às vezes há uns olhos, uma expressão. Já recebi mensagens de pessoas depois a dizer-me: ‘eu não me imaginava assim’”. Mas há ali algo em que a pessoa se reconhece.

“O retrato não está tanto na qualidade da máquina. Claro que isso é sempre importante, uma boa lente, a iluminação”. Ainda assim, o trabalho é sempre “encontrar essa ligação com a pessoa”. No seu caso, já perdeu a conta ao número de retratos, mas já vamos na ordem das centenas. E cada um com a sua história.

Em casos mais excecionais, houve quem lhe pedisse para guardar os retratos que ficaram. Não é vergonha, nada disso. Do tal jogo de confiança resultou algo que funcionou de tal maneira, que por vezes o melhor retrato é precisamente o que vai ficar guardado.

“Percebes pela reação da pessoa a ver a fotografia que é algo íntimo, e isto não tem anda a ver com exposição física”, explica à NiT sobre esses momentos mais raros “A pessoa pode estar a rir, ou chorar. Mas ela sabe perfeitamente que quando aquele retrato foi tirado algo se estava a passar e que ela reconhece”. É uma certa vulnerabilidade: “Torna a coisa íntima ao ponto de a pessoa não querer que seja conhecido pelos outros. E esse tipo de retrato é mágico”.

“Se calhar outros fotógrafos estariam a falar da luz, da lente, do setup da máquina. Mas para mim, pelo menos o retrato, não está tanto aí”, reforça, explicando a importância de começar a fazer e continuar, para ganhar experiência. No seu caso, as centenas de sessões fotográficas dos últimos anos trouxeram sempre algo de lição para a sessão seguinte. E a lição continua.

Fotografado pela filha, Alice Neves.

À medida que foi evoluindo e mostrando um trabalho mais coeso, começou a receber cada vez atenção no Instagram, a que se seguiram mais pedidos. Hoje em dia trabalha com atores, modelos, agências, mas boa parte dos retratados até são pessoas desconhecidas que o contratam. Em tempos de pandemia fotografou também profissionais que estavam na linha da frente contra a pandemia — com as respetivas marcas de esforço no rosto. Em muitos casos são pessoas que vão ter a sua primeira experiência deste género. É o passa palavra a funcionar.

Uma das sessões recentes foi até com uma fotógrafa profissional, tão conhecedora de máquinas e técnicas de fotografia quanto ele, mas que nunca tinha estado do outro lado da lente desta maneira. Uma outra foi com uma pessoa que tinha quase ataques de pânico com câmaras e que teve naquela sessão também algo de terapêutico.

Há também sessões em que é ao contrário: a experiência de quem tem à frente trata de boa parte do processo. Lúcia Moniz não é especialmente fã de máquinas mas “é mágica”, destaca. As atrizes Beatriz Barosa ou Anna Eremin são outros nomes que gostou de fotografar. Afonso já fotografou também por duas vezes Ricardo Carriço, ator que até começou como modelo.

“Fotografar com ele é uma experiência muito interessante. És tu que aprendes. O melhor a fazer é quase sair do caminho e eu se pudesse levava um caderno e tirava notas ao mesmo tempo [risos]”, conta.

Para Afonso, a tal brincadeira de miúdo deu lugar a um hobby e dessa paixão todo um trabalho que pode deixar os pais descansados. Valeu a pena andar a estragar rolos em série quando era miúdo. O seu trabalho pode ser seguido no Instagram.

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