Teatro e exposições

By Castro: a página de Instagram que todos devíamos visitar uma vez na vida

É um projeto do criativo João Castro, que aborda temas do dia a dia de uma perspetiva relacionável, com muita sátira pelo meio.
João Castro é o criador do projeto.

João Castro tem 27 anos, é natural de Gondomar e tem uma conta de Instagram. A grande diferença em relação à maioria dos jovens da sua idade é que — além de não partilhar fotos da sua vida na rede social — é seguido por mais de 55 mil pessoas.

O que partilha são conteúdos criativos: ilustrações acompanhadas de texto que retratam situações cómicas do dia a dia, abordam tabus de forma engraçada, colocam em perspetiva situações com que todos nos podemos identificar e que satirizam tudo, desde os filmes da Disney até à sexualidade de um casal.

Quando telefonámos a João Castro para falar com ele sobre este seu projeto (que é identificado como By Castro no Instagram), o criativo estava na loja de vinhos onde trabalha no Porto. É lá que, nos tempos livres — e agora há muitos por causa da pandemia —, vai inventando as publicações que partilha de forma quase diária no Instagram. Já fez 508 posts nesta rede social.

No dia anterior à nossa conversa, Castro foi ao cinema ver “Spiral — O Novo Capítulo de Saw”, o que lhe deu algumas ideias para adaptar para a sua realidade. É nisso que estava a trabalhar quando o interrompemos.

A escrita de um post, explica à NiT, pode demorar uma ou duas horas — já os desenhos são feitos em 15 minutos. “Os desenhos são mesmo fracos [risos], eu não perco mesmo tempo a fazer os desenhos. Como eu faço com o rato [no computador]… e também não tenho muita qualidade e técnica para fazer melhor”, argumenta. “Por isso é que eu nem digo que sou ilustrador. Eu acho mesmo que, se o texto desaparecesse, ninguém via aquilo que eu fazia. Se o desenho desaparecesse, ainda havia pessoas a ler o texto.”

A sua maior referência na área da ilustração — e do cruzamento com a sátira — é o famoso cartoonista espanhol Joan Cornellà. As suas criações têm uma estética relativamente minimalista, com personagens sempre a rir e um sentido de humor muito ácido. Por isso, Castro também nunca quis que os seus desenhos fossem complexos ou demasiado elaborados.

“Quanto mais informação tiver, pior para o consumidor. Obviamente, se for alguém que perceba de desenho, vai dizer que aquilo é horrível. Uma pessoa normal não está preocupada se o desenho está bom ou mau, é ‘vou ver o que está escrito’. Por isso é que os desenhos não têm cor, só nas camisolas — na cara nunca têm. Tento sempre pôr o mínimo de informação possível para chegar ao máximo de pessoas.”

O crescimento tem sido muito natural, já que as publicações são partilhadas por centenas de pessoas, que por sua vez chegam a outras. João Castro diz que atualmente não se preocupa muito com os números — não pode, aliás, preocupar-se, realça — até porque já o fez demasiado no passado.

O grande boom inicial terá sido quando fez uma ilustração sobre o caso de uma alegada violação na Queima das Fitas do Porto, em 2019. A imagem foi tão partilhada que a sua conta começou a crescer de forma exponencial. Os conteúdos que partilhava tinham muitos trocadilhos e mensagens — algo que João Castro considera que eram “truques” e “conteúdo fácil” para começar a ter muitos seguidores no Instagram.

Hoje, menos preocupado com isso, praticamente só desenha figuras humanas em diálogo — embora de vez em quando haja algumas exceções. “Tenho muito mais prazer e gosto em fazer as coisas que faço agora do que fazia há dois anos.  E daqui a um ano espero não estar a fazer o que estou a fazer agora [risos].”

Castro não sabe exatamente o que responder quando perguntamos qual é a ambição ou objetivo máximo que tem para este projeto. “Isso é como perguntar a uma criança o que é que quer ser quando for grande [risos]. Eu gostava de ter oportunidade de escrever alguma cena para uma série. Nem que fosse uma minissérie. Acho que isso me dava mesmo gozo. Isso é um objetivo que tenho bastante presente neste momento”, diz, citando Nick Kroll, de “Big Mouth”, como uma referência.

Ao contrário de outros criadores digitais que usam a ilustração e a escrita — e que também se baseiam muito no Instagram — João Castro não tem tido uma grande preocupação em rentabilizar o seu projeto. Uma loja online poderia ser um passo óbvio, mas, assume, não é algo que lhe interesse.

“Eu experimentei fazer T-shirts, mas não é… não me dá prazer estar a vender coisas. O tempo que perdes a tratar de tudo, a ir aos correios. E acho que também não tenho conteúdo para as pessoas estarem com merchandising meu.” Ainda assim, apesar de não procurar isso, já aceitou fazer alguns pedidos personalizados para fãs.

O seu foco neste momento é melhorar a escrita. “Talvez escrever um livro, como muita gente faz.” E acrescenta: “Já imaginei um dia fazer uma exposição, era fixe.”

Foi precisamente numa mostra de Joan Cornellà que ficou “fascinado com a relação que havia entre o público e a obra”. “Achei mesmo engraçado, porque normalmente nos museus estás parado a olhar para uma peça. Acho que o meu trabalho não é isso, por isso se um dia vier a fazer uma exposição será… algo mais imersivo e com coisas que não estariam no Instagram.”

Um elemento essencial para a sua criatividade, assume, é ver e consumir imensa coisa. “Como canais de YouTube daqueles esquisitos, há bocado estava a ver uma cena de formigas, por exemplo. E, eh pá, isso dá-me ideias. É engraçado poder pegar nisso para fazer uma ilustração, eu estava a ver como funcionava a dinâmica de uma família de formigas, é por aí. E vou apontando coisas.” Os detalhes do dia a dia, as referências locais e as relações humanas são também o que o inspira.

“É algo que está presente em todo o criador, as coisas à tua volta inspiram-te. Noutro dia estava a ter uma conversa com um artista, que é pintor, e ele disse-me que os quadros dele não chegam às pessoas. E eu percebo o porquê. Hoje em dia o consumidor normal não quer ver uma pintura… Por muito boa que seja, não vai partilhar uma pintura de um gato. Mas se o gato estiver vestido com o equipamento do Paços de Ferreira, já ia ter mais piada, as pessoas já iam partilhar pela graça, e a técnica estava toda lá na mesma. Acho que é um bocado por aí — hoje em dia ou as coisas são mesmo incríveis ou têm de ser ridículas para se partilhar.”

Como tudo começou?

No ensino secundário, João Castro seguiu a área de Artes, que sempre o interessou. “Eu não gostava muito daquilo, porque tive uma professora que me disse que eu não sabia desenhar, e disse muito bem, atenção [risos], só que isso magoou-me um bocado. Porque eu gostava daquela merda. Então deixei o curso e fui estudar Multimédia. Encontrei o Photoshop e no início fazia montagens na brincadeira, para mandar para os meus amigos. E comecei a fazer tanta coisa no gozo que de repente estava a trabalhar na área. Estive dois anos numa consultora que fazia coisas de moda, a editar fotos, mas tudo começou pela brincadeira. E ainda agora é [risos].”

Ao mesmo tempo, sempre escreveu piadas nas redes sociais, nomeadamente no Facebook. “Aliás, algumas das coisas que meto agora é de ir fazer scroll no meu Facebook, e lembrar-me de coisas. A escrita daquela piadinha fácil, daquele humorista da Internet, sempre esteve lá [risos].” Na vida real, diz, é mais reservado — e também é por isso que não gosta de se expor muito online. 

Atualmente, trabalha na loja de vinhos e faz algumas coisas na área da imagem — apesar de dizer que não trabalha realmente como freelancer no setor. 

Há seis meses, começou o podcast “nuance”, com o amigo Francisco Rodrigues. Era uma ideia que já tinha há algum tempo e que se concretizou durante a pandemia — começou a ter menos trabalho e Francisco regressou para Gondomar, o que fez com que unissem esforços.

“Ele estava sem trabalho, eu pouco trabalho tenho também, tínhamos algum dinheiro poupado e pensei: vamos investir, vamos fazer isto, a ver se corre bem. As expetativas que tenho em relação ao podcast são as mesmas que tenho em relação a este projeto. Foi algo que também fiz para melhorar a minha comunicação. E acho que é um diário que vais tendo, as pessoas vão ouvindo se quiserem.”

Apesar de poder parecer despreocupado ou descontraído, garante que leva ambos os projetos bastante a sério — independentemente daquilo que o futuro trará. 

“Se calhar para o ano ninguém quer saber daquilo que eu faço. Não dou por garantido. As pessoas podem-se fartar e é super legítimo. Se eu acho que isto me pode abrir outras portas? Acho que sim. Mas a visibilidade pode partir pernas ou dar-nos asas. Tudo depende de como é que eu trabalho. Importante é eu trabalhar.”

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