Teatro e exposições

Cinema São Jorge vai receber uma mega experiência imersiva de medo e terror

É do criador do Projeto Casa Assombrada. Os participantes vão ter de ser corajosos e terão hipótese de entrar numa sala secreta.
Acontece já em fevereiro.

Chama-se “Cinema Medo” e é uma experiência imersiva que vai ocupar o Cinema São Jorge, em Lisboa, durante o ano de 2022. Enquadrado na programação do 72.º aniversário do espaço cultural, trata-se de uma iniciativa que vai combinar teatro imersivo com cinema e uma competição entre os elementos do público. 

O projeto começou a ser idealizado em 2019, quando a EGEAC desafiou o encenador, dramaturgo e ator Michel Simeão, criador do Projeto Casa Assombrada — que se tem precisamente dedicado à oferta de atividades imersivas de terror — a pensar em algo para o São Jorge.

“Fiz uma proposta que combina cinema, mais dentro do género do terror, com uma experiência de percurso a que chamo mais de ‘pesadelo’ do que propriamente ‘terror’”, explica Michel Simeão à NiT. “O público já se foi habituando que nós nunca nos repetimos e cada coisa que fazemos tem um mundo e contexto próprio — e está sempre diretamente relacionado com os próprios espaços, nós trabalhamos em site-specific.”

Aqui, puderam usar praticamente todo o edifício do Cinema São Jorge, que vai ser o palco para esta peça de teatro dinâmica e imersiva. A experiência arranca com a exibição de uma curta-metragem. “Vai funcionar como uma espécie de inception. Vais poder ver aquilo por que alguém já passou e por que tu, espectador, eventualmente também vais passar. Essa é a premissa. Vamos ver uns laivos do que poderão vir a encontrar ao longo desta experiência.”

Depois, há um percurso até ao “pesadelo e trauma da protagonista desta narrativa”. Michel Simeão assegura que vai ser um medo mais psicológico e menos de “scary jumps, do susto atrás da porta ou daquele choque mais imediato”.

Cada sessão pode ter, no máximo, 36 participantes. Vão ser divididos em três grupos e o espetáculo culmina numa competição. Os vencedores terão direito a um “prémio, um privilégio final, uma cereja no topo do bolo.”

O elenco é composto pelo próprio Michel Simeão, Rita Ruaz, Luísa Fidalgo, Inês Melo, Joana Sapinho, Marco Augusto, Miguel Sousa, Miguel Mateus e Ricardo Denzel.

Que história é esta?

Simeão criou uma narrativa à volta de uma mulher que aspirava a ser atriz no final dos anos 50 e no início dos anos 60, em Lisboa. Ao longo da experiência, os participantes vão conhecer a sua história de vida e perceber os vários traumas que a marcaram profundamente.

A mulher passava a vida no Cinema São Jorge, a ver as grandes divas do cinema e a tentar imitá-las. “Esta viagem é à volta da frustração dela — de nunca ter conseguido chegar onde queria. É alguém que foi colecionando traumas durante a vida e os seus demónios habitam no Cinema São Jorge.”

Quase todos os espaços do cinema serão usados.

O dramaturgo explica que o São Jorge será como um “limbo”, “como se entrássemos no cérebro desta mulher”. “Eventualmente acabou por morrer, ali ficou e por lá se mantém até hoje. E vamos explorar o porquê — como é que morreu, quem era, o que é que aconteceu a esta mulher para ter ficado presa naquele cinema com os seus demónios a deambular.”

A competição

Os membros do público serão divididos em três grupos que hão-de competir entre si. Não será, garante Michel Simeão, como se fosse um escape game. “Não é quem tem o melhor raciocínio para descodificar enigmas. Esta competição é medida pela tua coragem. É-te lançado um desafio e cada vez que tiveres coragem para avançar, ganhas pontos. Se não fizeres não ganhas — ou até a perder pontos. Se te pedir para entrares ali dentro sozinho com determinada pessoa e tu disseres não, estás a fazer o teu grupo perder não sei quantos pontos. Isto obriga mesmo a que as pessoas trabalhem em conjunto se quiserem, de facto, atingir o objetivo de ganharem o tal privilégio.”

O “privilégio” é um extra, como se fosse uma cena pós-créditos que dá mais informação sobre o desfecho do enredo. Além disso, os vencedores da tal vertente competitiva vão poder entrar numa “sala de cinema secreta”, que só raramente é usada pelo São Jorge — e que não está aberta ao público.

Trata-se de um pequeno espaço, com capacidade para 20 pessoas, que durante a ditadura era usado pela Censura — era ali que viam os filmes, para perceberem se podiam aprovar a sua estreia em Portugal. Também há rumores de que o próprio ditador António de Oliveira Salazar frequentava a sala para ver filmes, embora isso nunca tenha sido confirmado oficialmente.

“É praticamente uma peça museológica porque está intacta. E é por isso que nós queremos muito criar este espírito de competição para que as pessoas queiram, a todo o custo, ganhar a experiência para poderem entrar nessa sala.”

O privilégio do espaço

Quando Michel Simeão fez as visitas técnicas ao Cinema São Jorge, para conhecer melhor o local e começar a perceber que espetáculo podia criar, ficou assustado. Isto porque o São Jorge é um espaço complexo e “labiríntico”, com inúmeras salas e patamares. E praticamente todos os recantos serão usados.

“Tem esta carga histórica. Aqui não temos de inventar nada nesse sentido — e estando a trabalhar lá é muito fácil sentir que esse peso existe. Se estiveres sozinho, lá dentro, em determinados sítios, em determinadas salas, vais sentir a importância daquele cinema.”

E acrescenta: “Aqui levanto um pouco a ponta do véu: eventualmente poderá acontecer estares sozinho sentado numa sala de cinema que tem 800 lugares. Ou, pelo menos, com a sensação de que estás sozinho — sem ninguém à volta. É uma experiência que não nos acontece todos os dias e pode ser esmagadora”.

A protagonista é uma aspirante a atriz.

O ponto de partida para criar a narrativa foi mesmo a tal “sala secreta” que era usada pela censura. E é explorada a “ideia de como seria ter sido feito um primeiro filme de terror em Portugal naquela altura”. “Como é que teria sido recebido? O que é que teria acontecido neste hipotético cenário se, no início dos anos 60, alguém tivesse tentado fazer um filme de terror em Portugal?”

Michel Simeão promete um espaço “de muito percurso”. “No São Jorge anda-se muito, é muito grande, tem muitas escadas, corredores e temos tudo à nossa disposição — tirando os gabinetes de trabalho. Isto significa que o público vai poder andar por todo o lado — desde as caves nas casas das máquinas que estão como eram nos anos 60 até aos camarins e às casas de banho que as pessoas não conhecem.”

Além disso, todas as salas de cinema vão estar a funcionar. Outra área a que os participantes vão poder aceder são as “catacumbas”. “O São Jorge tem um alçapão com uma escada que te leva para debaixo de terra.”

O espaço não vai ser transformado — vai estar tal como existe, com os seus 72 anos de história. O que poderá mudar serão apenas as condições de luz de alguns locais.

“Esta experiência tem muita dinâmica, no sentido em que entras numa sala, vês uma situação, tens um contacto com um ator ou uma cena, e as coisas são rápidas. Duram dois ou três minutos e depois sais e vais para outra sala, ver outra cena, sempre de um lado para outro.”

Quando e como é que se pode participar em “Cinema Medo”?

Na quarta-feira, 2 de fevereiro, a organização vai colocar os bilhetes à venda na Ticketline e no São Jorge. Vão custar 20€ e haverá, ao longo do ano de 2022, 20 datas. Cada data terá cinco sessões por noite, uma por hora, entre as 20 horas e a meia-noite. 

Os bilhetes estão à venda no dia 2 de fevereiro.

Inevitavelmente, os participantes, quando divididos em grupos, terão de conviver para trabalharem em conjunto. “Também é uma oportunidade gira para conhecer pessoas noutro tipo de ambiente, ou podes formar o teu grupo ao juntares 12 amigos.” Michel Simeão conta até que já começaram namoros em espetáculos do Projeto Casa Assombrada. “Pessoas que não se conheciam mas que foram no mesmo grupo, iam agarradinhas umas às outras e a partir daí a coisa deu-se.”

O próximo espetáculo do Projeto Casa Assombrada

Apesar de “Cinema Medo” estar agora a ser apresentado, Michel Simeão já está a pensar no próximo espetáculo do seu projeto. “Estou neste momento a começar a cozinhar um próximo espetáculo — esse para estar em cena em full-time. Vai ser uma surpresa muito gira porque envolve duas figuras públicas muito mediáticas que me abordaram no sentido de fazermos uma coisa de terror em conjunto — eles querem produzir e convidaram-me para ser eu a criar e a escrever. E é um espaço incrível. Não será em Lisboa, mas será muito perto e acho que tem tudo para ser uma coisa em grande e para ficar durante muito tempo. Acho que pode marcar o terror de uma forma inédita em Portugal.”

A ideia é que possa estrear no verão. Em termos de narrativa, nada está decidido, mas trata-se de um palacete “inacreditável”, que “permite fazer muita coisa”, ao estilo convencional de casa assombrada. “Posso dizer que a minha vontade é pegar no conceito de [casa assombrada de] Belas e elevá-lo. Aí será, de certeza, mais virada para o terror.”

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