Teatro e exposições

Como um famoso realizador americano fez um musical sobre Andy Warhol… em Portugal

Gus Van Sant, autor de “O Bom Rebelde” ou “Milk”, estreia-se no teatro em Lisboa, com uma equipa de jovens atores portugueses.
"Andy" estreia esta quinta-feira.

Esta é uma história que não acontece todos os dias. A 23 de setembro, estreou no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, o musical “Andy”. É uma peça de teatro sobre Andy Warhol e é a primeira encenação da carreira de Gus Van Sant, cineasta americano conhecido por ter realizado filmes como “O Bom Rebelde”, “Milk”, “A Caminho de Idaho” ou “No Trilho da Droga”, entre outros.

A ideia original nasceu há mais de 30 anos. No final dos anos 80 e início da década de 90, Gus Van Sant queria explorar o artista e ícone influente da cultura pop conhecido como Andy Warhol. O plano seria fazer um filme com River Phoenix, que iria retratar Warhol na fase em que chega a Nova Iorque, deixando o trabalho na área da publicidade para rapidamente se tornar uma estrela na cena artística da cidade.

Só que River Phoenix morreu — apenas com 23 anos. E a Universal Pictures, um dos grandes estúdios de Hollywood, que tinha encomendado o guião a Gus Van Sant e a Paul Bartel, acabou por não querer avançar com o projeto. O filme morreu à nascença — mas a ideia continuou a pairar na mente criativa de Van Sant.

Já na segunda década do século XXI, o encenador John Romão, diretor artístico da BoCa — Bienal de Artes Contemporâneas, abordou Gus Van Sant sobre a ideia de o realizador americano preparar pela primeira vez um espetáculo de palco — e logo em Portugal. A BoCa desafia regularmente artistas conceituados a desenvolver projetos em áreas que não são exatamente as suas.

Gus Van Sant aceitou — mas imediatamente isso levou-o a recuperar a velha ideia de contar a história de Andy Warhol. Depois de receber o convite, desde o início que o plano se desenvolveu para fazer um musical que não fosse apenas entretenimento puro. E havia até uma ligação entre Warhol e o formato de musical: em 2017 foi encontrada uma cassete no espólio do artista que sugeria que Warhol teria estado a preparar um espetáculo do género com Lou Reed, que nunca tinha passado de uma fase muito embrionária. Havia duas músicas gravadas em 1975.

Segundo o “Público”, John Romão não ficou logo convencido com a ideia de musical — se fosse algo do género dos espetáculos da Broadway, mais comercial do que a maioria dos projetos da BoCa, talvez não se encaixasse propriamente na programação. Mas enquanto discutiam a peça Romão foi aceitando e percebendo que a própria ideia de Gus Van Sant concretizar um espetáculo seria em si mesmo uma experiência — era a primeira vez deste realizador.

Gus Van Sant trabalhou com John Romão.

O resultado? Um espetáculo que acompanha um período na vida de Andy Warhol, entre 1959 e 1967, com cenas consensuais e conhecidas — momentos que aparecem em todas as biografias e relatos de pessoas que o conheceram, muitas das quais falaram com Gus Van Sant ao longo dos anos. Mas também há ficção. O objetivo, segundo explicou Van Sant, foi homenagear e lembrar esta figura maior da cultura pop, que o realizador considera estar demasiado esquecida.

O realizador de 69 anos foi compondo músicas — esboços que depois passou a Paulo Furtado, mais conhecido pelo seu alter-ego de The Legendary Tigerman, que compôs de facto a banda sonora do musical.

“Andy” foi ainda criado com um jovem elenco português. Diogo Fernandes, Carolina Amaral, Lucas Dutra, Francisco Monteiro, Martim Martins, Helena Caldeira, Miguel Amorim, João Gouveia e Valdemar Brito são atores entre os 17 e os 27 anos que trabalharam com Gus Van Sant na criação deste espetáculo. Interpretam personagens como o escritor Truman Capote, a atriz Edie Sedgwick, a cantora Nico, o crítico de arte Clement Greenberg ou a ativista feminista e autora Valerie Solanas. 

“Isto tudo começou com uma self-tape há quase um ano. Na altura acho que o projeto nem tinha nome, mas já dizia que era do Gus Van Sant com produção BoCa, e estavam à procura de um elenco português”, explica à NiT o ator Diogo Fernandes, de 23 anos, que vai interpretar Andy Warhol no musical. Está no primeiro ano da Escola Superior de Teatro e Cinema mas faz teatro amador desde que é criança.

Na altura estranhei imenso, fiz aquilo com uma certa casualidade, porque era surreal, nem percebi muito bem, mas fiz a self-tape na mesma. E algum tempo depois chamaram-me para um casting presencial, com dez atores, e pouco tempo depois disseram-me que fiquei e agora faço parte desta jornada [risos]”, conta Diogo Fernandes. “Eram duas cenas. A primeira demorei a manhã toda a gravar e a escolher os takes, e a segunda cena não estava a correr muito bem e a certo ponto já estava a chatear-me com aquilo e fiz assim meio despachado. Achei que também não ia ficar, é em inglês, um projeto com o Gus Van Sant é surreal, não, não é com isto que vou começar o meu trajeto profissional enquanto ator. Enviei e nem pensei mais naquilo.” Depois, tornou-se o protagonista do espetáculo.

“Andy” começou a ser ensaiado em maio.

“Quando fiquei foi uma sensação muito surreal, porque eu já sei que quero trabalhar como ator há muitos anos, e já faço teatro amador desde pequenino. E aquela chamada fez um clique dentro de mim, a dizer que se calhar estou no caminho certo.”

Os ensaios começaram em maio deste ano. “Achávamos que o Gus vinha com algumas ideias pré-concebidas — e vinha, mas queria experimentar — sobre quem ia fazer que personagem. Mas na primeira semana houve uma troca de personagens, andámos a explorar tudo. Vários dos meus colegas experimentaram o Andy, eu experimentei outras personagens e essa primeira semana de trabalho foi mesmo para escolher e finalizar quem iria ser que personagem. A segunda semana foi trabalhar o texto, fazer explorações, passar pelo erro, aquele processo criativo normal, mas foi bastante puxado, porque eram os dias inteiros. Depois o Gus voltou para os Estados Unidos, acho que ele tinha outros projetos, e a 17 de agosto começámos outra vez e não temos parado desde aí.”

O elenco português treinou a dicção do inglês e teve apoio vocal para estarem preparados para interpretarem as canções. “As personagens são americanas e nós somos portugueses. É claro que nunca vai ser a mesma coisa nem ninguém está a tentar fazer de nós americanos. Mas há pequenas coisas, e ainda por cima vamos fazer uma digressão pela Europa, por isso é importante que seja percetível.”

“Andy” vai estar em cena no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, até 3 de outubro. Depois há uma apresentação no Teatro das Figuras, em Faro (16 de outubro), antes de começar a tour europeia que vai levar este espetáculo até várias cidades de Itália, Países Baixos, Espanha, França e Bélgica. A digressão irá continuar até dezembro de 2022. Além do elenco ser português, também grande parte da equipa técnica que estará em tour é nacional.

The Legendary Tigerman (ao fundo) fez a banda sonora.

Diogo Fernandes diz que para si o maior desafio foi “foi ultrapassar a ideia, aquele barulho mental, de que o Andy Warhol é uma pessoa que existiu”. “Porque acho que essa ideia cria uma pressão, uma certa responsabilidade de contar a verdade de alguém que existiu, e não só isso, mas como é um sujeito que faz parte da imaginação do Gus há muitos anos. Muitos bons atores fizeram esta personagem ao longo dos anos, ser uma pessoa muito emblemática que as pessoas conhecem, e focar-me na ideia de que é uma personagem como qualquer outra, e o que tenho de fazer é o meu trabalho da melhor forma que puder e contar a verdade da personagem à minha forma.”

O ator explica que, quando ficou com o papel, leu tudo o que encontrou sobre o artista. “Há muita informação na Internet. É um ícone. E há muitos livros, há muitos artigos e biografias. Li tudo o que pude, pesquisei tudo o que pude, extraí, interpretei. Só que, a partir do momento em que começámos em agosto, apesar de não ter largado por completo esse trabalho lógico e racional de o que é que ele pensa, quais são as suas motivações, porque é que ele é assim, porque é que ele fez isto, porque é que ele fez aquilo… A certo ponto tive que me dizer a mim próprio que ‘agora, com toda esta informação, vou largar todo o trabalho racional que fiz, porque já faz parte de mim e do meu conhecimento, e agora vou fazer um espetáculo’.”

Diogo Fernandes nunca tinha feito um musical, mas tinha uma base de música — estudou no conservatório durante cinco anos. “Nunca tinha feito musicais, mas gosto muito de tentar, é algo que me dá muito prazer. Portanto, fazer um musical sempre esteve na minha imaginação, apesar de nunca ter pensado seguir por esse caminho. Mas estou muito contente com este projeto e está-me a dar muita pica, o cantar e o representar no mesmo projeto. Vai-me marcar para a vida.”

O espetáculo vai estar em digressão europeia.

Trabalhar com Gus Van Sant, assume, é uma experiência “surreal”. “O ‘Bom Rebelde’, lembro-me de o ter visto para aí com 12 ou 13 anos. E lembro-me de aquilo me ter marcado de uma forma… A relação entre o Matt Damon e o Robin Williams. Não sei, ficou comigo e acho que qualquer pessoa que veja o filme o marca de uma forma ou outra. E eu conhecia o nome do Gus Van Sant. Ainda por cima o meu interesse de trabalhar enquanto ator internacionalmente está presente desde já muito novo, até estive a viver seis meses em Inglaterra porque queria estudar lá, depois voltei por causa da Covid. E estar agora a trabalhar com o Gus Van Sant, ainda por cima na primeira obra teatral dele, ou seja, é uma nova experiência e desafio para ele, que vai marcar a sua história e carreira, é surreal. É claro que, depois, lá, quando estamos no processo criativo todos juntos, acaba por ser o Gus, e estamos a criar algo em conjunto. Mas claro que há aqueles momentos de: isto está mesmo a acontecer. Isto é o Gus Van Sant.”

O ator português conta que o cineasta americano deu muita liberdade ao elenco. “Também acho que, o facto de sermos muito novos, aquela ingenuidade de diferença de experiências de background… Gostei muito do facto de ele nos dar liberdade, e de não ser como muitas vezes ouvimos de não haver propriamente liberdade criativa enquanto atores em projetos de teatro. E aqui foi muito pelo contrário, porque ele foi mesmo muito recetivo às nossas ideias apesar de ele ter vindo com um guião. Acho que ele diria que o espetáculo que existe agora é completamente diferente da visão do guião com que ele veio para Portugal.”

E acrescenta: “Não sentes nada daquilo de que uma pessoa cheia de prémios, experiência e currículos chegar aqui e dizer-nos o que fazer. Não é nada disso. O Gus é mesmo uma pessoa tranquila. E nunca sentimos nenhuma pressão da parte dele em relação ao que temos de entregar. Passou muito por usar aquilo que faz de nós nós e utilizarmo-lo na nossa personagem. E nota-se, nos ensaios, que ele gosta de muitos dos erros que cometemos, porque vêm dessa ingenuidade e inocência da idade jovem. E acho que por isso é que ele escolheu fazer isto com um elenco tão jovem.”

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