Teatro e exposições

Duas horas de terror puro em Portugal: a experiência que põe homens rijos a chorar

O Trauma é feito por ex-militares e replica cenários assustadores. Os responsáveis dizem que é uma espécie de coaching.
Prepare-se para algo nunca visto

O projeto chama-se Trauma e promete “a primeira experiência de terror extreme” em Portugal. Menos expectável é que, algures na apresentação, se fale num “novo conceito de coaching”. Para o Mestre, o responsável pelo evento que prefere manter o anonimato, a combinação pode “parecer estranha”, mas “faz todo o sentido”.

“Não é um coaching fofinho. É precisamente o contrário”, explica à NiT a voz masculina que se limita a revelar que foi também responsável por outros “eventos imersivos de terror”. A ocultação explica-se pela expectável polémica e estende-se à equipa de cerca de dez pessoas que imaginam e protagonizam os cenários aterradores, na sua maioria ex-militares.

“Queremos que as pessoas passem por algo desafiante, que pareça perigoso sem o ser, mas que sirva para refletirem sobre a sua vida, os desafios que enfrentaram e enfrentam”, explica. “É nestas situações difíceis que encontram força que não sabiam que tinham e, dessa forma, podem transportá-la para o seu dia a dia.”

Nestas sessões de Trauma, que não passam de uma total encenação, todos os esforços se focam em esbater essa linha que separa a ficção da realidade. Pretende-se que, na cabeça dos participantes, tudo seja o mais real possível.

Para criar os cenários, socorrem-se de treinos e aprendizagens trazidas da vida militar, depois polvilhadas com um pouco de ficção e de terror. Parte-se de cenários de raptos, de prisioneiros de guerra, onde os protagonistas vestem a pele de psicopatas.

Segundo o Mestre, cada sessão é única, mesmo para participantes repetentes. O cenário, esse é um mistério, mas pode envolver situações com nomes curiosos, como a “Ginástica até ao Vómito”, o “Batismo do Diabo”, “Sozinhos no Escuro” ou “Labirinto Aconchegante”.

O desafio começou a ser preparado há dois anos, ainda antes da pandemia, e foi um passo natural na sequência de outros eventos imersivos que já tinham feito em Portugal. “Quem vinha aos eventos, dizia que os nossos eram os melhores. Pediam-nos sempre coisas mais fortes, mais intensas, queriam emoções difíceis, que parecessem insuperáveis. E isto que estamos a fazer é precisamente dar às pessoas isso que nos pediam.”

Mas se nesses eventos, os protagonistas eram atores treinados para assumirem papéis violentos, desta vez a fórmula foi invertida. “Temos pessoas com experiência profissional, ex-militares, ex-operacionais. Pegamos em alguém com essas vivências e treinamo-las como atores”.

Segundo os responsáveis, a equipa tem vários backgrounds, também em psicanálise e psicologia, o que permite ir analisando os participantes. “Não queremos traumatizar as pessoas, é o contrário: queremos destraumatizá-las. Focamo-nos em certas limitações pessoais”, diz.

O processo começa precisamente no momento da inscrição, o que não garante a participação, isto porque há um apertado processo de seleção. Cada interessado terá que preencher um questionário, fornecer informações pessoais, problemas de saúde, medos, fobias. Depois de escolhidos, só podem participar em grupos de quatro, para que a equipa possa prestar atenção personalizada.

“Isso permite nos trabalhar a nível psicanalítico de forma mais rápida e mais profunda”, explicam. “Se a pessoa, na seleção, não marcar a caixinha que diz que tem medo de espaços apertados, nós obviamente sabemos que temos que colocar essa pessoa em contacto com essa condicionante.”

Se a parte mental é vital, a parte física não é menos importante. Mas, sobretudo, regem-se pela ideia de que cada grupo, cada participante, é único. “É um evento orgânico, dinâmico, tudo muda consoante a reação da pessoa.”

Se existem provas físicas, elas são adaptadas consoante a capacidade do indivíduo. Até porque, de momento, durante o processo de seleção não são requeridas quaisquer declarações médicas. “Estamos a ponderar isso”, revela o Mestre, que assegura que os guias são experientes e conhecem bem os limites. Ainda assim, é combinada uma palavra de segurança que, quando dita, indica a todos que é hora de parar.

A capacidade de ler os participantes é fulcral. “Tentamos perceber quais as lacunas a nível psicológico de cada um, fazemos um perfil e partimos daí”, conta. “Já tivemos pessoas fisicamente muito resistentes que passado meia-hora querem desistir.”

Frisam, contudo, que a desistência precoce não é uma vitória. Não é, de todo, esse o grande objetivo. “Não queremos que ninguém desista, mas queremos fazer com que sintam que querem desistir — e podem fazê-lo, sempre e a qualquer momento”, nota. “Queremos que vivam a experiência completa. Não queremos que paguem para desistirem ao fim de 20 minutos.”

No entanto, admite que, com base na experiência com os grupos de teste, será complicado evitar que isso acabe por acontecer. “Aos 20 minutos, já muita gente está arrependida e a pensar: ‘porque é que eu vim para aqui, isto não é divertido’. Mas queremos que continuem e tentamos motivá-las a isso.”

A experiência Trauma deverá arrancar algures no final de novembro, com os participantes que superarem o processo de seleção, e que terão que viajar até um lugar desconhecido, algures entre Fátima e Torres Vedras. Prometida está “uma verdadeira transformação” que “vai mudar a vida das pessoas”. “Isto é para um funcionário comum a procura de algo diferente, ou para o CEO que se quer superar e passar para o próximo nível.”

“O nome é apenas um jogo de palavras. Não queremos traumatizar as pessoas, queremos destraumatizá-las”, conclui. A experiência tem, até ao final do ano, um valor promocional de 69€ por pessoa, mas deverá subir para os 120 a 150 já em 2023.

O objetivo passa por criar desafios ainda maiores e mais longos. Nos planos está já um desafio de oito horas e outro que pode chegar aos três dias.

“Isto é algo que não existe em Portugal e na Europa”, refere o responsável pelo Terror Xtreme. “Para se viver uma experiência deste género, o mais próximo que pode fazer é ir para um país complicado ou ir até às linhas da frente da guerra na Ucrânia.”

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