Teatro e exposições

Encenador de “Tudo Sobre a Minha Mãe” reage a protesto contra “transfake”

Daniel Gorjão mostra-se “solidário” com a comunidade com quem “sempre” esteve, embora caracterize o protesto como “violento”.
A peça foi interrompida na semana passada.

Depois da reação do ator André Patrício, agora foi o encenador Daniel Gorjão a reagir publicamente ao protesto contra o “transfake” na peça “Tudo Sobre a Minha Mãe” — motivado pelo facto de um ator cisgénero interpretar uma personagem transgénero.

“Como já assumi, tentei fazer um gesto de representatividade que não foi bem acolhido pela comunidade trans”, disse este domingo, 22 de janeiro, à agência Lusa, Daniel Gorjão, citado pela “Sapo Mag”. O encenador mostra-se “solidário” com a comunidade com quem alegadamente “sempre” esteve, embora discorde da forma “violenta” com que o protesto tenha sido realizado.

“A mudança faz-se mudando”, disse, descrevendo o processo de substituição de André Patrício pela atriz trans Maria João Vaz — embora Patrício se mantenha no espetáculo com outros papéis. Diz que a “possibilidade” surge agora, “depois de todos os acontecimentos”, já que “se reuniram condições”, com o “suporte dos teatros produtores”.

“Foi isto que aconteceu. Nem tudo sempre é apenas uma questão de vontade. Como eu já tinha explicado, existem sempre condicionantes na criação de um espetáculo”, disse ainda, frisando “nunca ter tido a intenção de ofender quem quer que seja”. “E o meu trabalho também pode falar por mim nestas questões.”

O protesto

Aconteceu na noite de quinta-feira e o vídeo tem sido amplamente divulgado nas redes sociais. Durante uma apresentação da peça de teatro “Tudo Sobre a Minha Mãe”, no Teatro São Luiz, em Lisboa, a atriz trans e performer travesti Keyla Brasil invadiu o palco, semi nua, em protesto contra o “transfake”.

A brasileira interrompeu o espetáculo e defendeu que o ator André Patrício não deveria poder interpretar uma personagem trans por ser cisgénero. “Transfake! Desce do palco! Tenha respeito por este lugar”, pediu. Imediatamente, a produção baixou a cortina, cobrindo os atores, mas a ativista manteve-se no palco a falar para a plateia.

“Gente, boa noite, Chamo-me Keyla Brasil. Sou atriz, sou prostituta”, disse, enquanto alertava para a falta de oportunidades em Portugal para as pessoas trans. “O que está a acontecer agora é um assassinato e um apagamento das identidades travesti. Se contrataram quatro mulheres e três homens, porque é que não contrataram duas pessoas trans para fazer a personagem? Sabem porque é que eu trabalho como prostituta como [as personagens] Agrado e Lola? Porque não temos espaço para estarmos aqui neste palco. Neste lugar sagrado.” No final, pediu a André Patrício para que não voltasse àquele lugar.

A peça “Tudo Sobre a Minha Mãe” é uma adaptação do argumento do filme homónimo de Pedro Almodóvar. Em Portugal, a encenação é de Daniel Gorjão, a partir de um texto de Samuel Adamson. Nesta peça, André Patrício interpretava Lola; enquanto a atriz trans Gaya de Medeiros se mantém como Agrado.

Depois das declarações de Keyla Brasil, ouviram-se aplausos no público. A atriz Maria João Luís dirigiu-se à artista: “Estamos aqui a fazer um espetáculo que defende a vossa luta”. Keyla Brasil não concordou: “Não defende, estão excluindo”.

Gaya de Medeiros veio depois à boca de palco elogiar o gesto de Keyla Brasil. “Quero que vocês entendam com generosidade, de coração. A liberdade de uma não será a liberdade de todas. Eu sou apenas um começo. Isto aqui não está como deveria estar. Mas acho que hoje este ato da Keyla Brasil, uma artista que está na prostituição, deve entrar na história de Portugal, para que se entenda a importância destes corpos ocuparem estes espaços para contarem as suas histórias. Isto não é contra o ator e o diretor. Isto é contra uma denúncia histórica. Que andamos a fazer há muitos anos.”

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