Teatro e exposições

Falámos com Maria João Vaz, a atriz trans que ficou com o papel na peça do São Luiz

Tornou-se conhecida dos portugueses nos anos 90 quando interpretou o pastor do “tou xim?”. “Não aprovo a forma, mas aprovo o conteúdo” do protesto.
Maria João Vaz, noutra peça.

Tem sido um dos temas mais discutidos nos últimos dias. A invasão de palco e interrupção da peça “Tudo Sobre a Minha Mãe” — que ocorreu no Teatro São Luiz, em Lisboa, na quinta-feira passada — lançou para o espaço público uma discussão sobre inclusão e representatividade trans no meio artístico dos atores.

Keyla Brasil, atriz e performer, subiu semi nua ao palco e caracterizou o trabalho de André Patrício como “transfake” — ou seja, criticou o facto de um ator cisgénero interpretar uma personagem transgénero, alegando que as pessoas trans têm dificuldades em aceder a trabalhos na área da representação e apontando a discriminação diária de que sofrem.

Face à manifestação organizado por ativistas que teve lugar este domingo (22 de janeiro) em frente ao São Luiz, a companhia Teatro do Vão apressou-se a reagir às críticas, mostrando-se solidária e legitimando os protestos. Após algumas conversas com os responsáveis do teatros municipais de Lisboa e do Porto, para onde segue agora o espetáculo, foi acordada uma verba extra para contratar outra atriz trans.

Maria João Vaz recebeu a chamada na manhã de sexta-feira, 20 de janeiro. O convite para assumir o papel chegou pouco depois de ter visto o protesto de Keyla Brasil nas redes sociais. A produção de “Tudo Sobre a Minha Mãe” desafiou-a a, em poucas horas, preparar a personagem e decorar o texto de Lola — a personagem transgénero que até aqui era interpretada por André Patrício. O ator deixou Lola, mas manteve-se no elenco, para dar vida a outras personagens.

“Sou uma atriz profissional. Quando há um trabalho, avalio e decido em conformidade”, explica Maria João Vaz, de 58 anos, demonstrando o raciocínio simples que a levou a aceitar o convite. “O texto não é muito grande, são quatro ou cinco páginas de diálogo, e passei ali umas quantas horas a decorar o texto com a colega que contracena comigo. É um texto que me diz coisas. Envolvo-me facilmente com ele porque se trata de uma pessoa que tem filhos. Eu tenho três filhas, aquilo tem a ver com a maternidade e até os nomes das personagens me são próximos. E é sempre bom voltar à minha profissão, porque nos últimos tempos tem sido complicado.”

Não sabe se por discriminação ou por outros fatores, mas não tem tido grandes oportunidades na área da representação. A última vez que teve um papel foi em junho de 2022, quando fez parte da encenação de “A Sagração da Primavera”, do Teatro Praga. Desde então, trabalhou num museu e num restaurante Burger King, “empregos precários para conseguir sobreviver e pagar as contas”.

A produção de “Tudo Sobre a Minha Mãe” — da qual já fazia parte uma atriz trans, Gaya de Medeiros, que interpreta a outra personagem trans, Adrago — recebeu-a bem. Perguntaram-lhe se quereria fazer a sua parte numa câmara nos bastidores, para que conseguisse ler o texto. Em alternativa, questionaram se não quereria usar um auricular, através do qual alguém lhe poderia ir dizendo as falas. Maria João Vaz resolveu decorar o texto e subiu ao palco apoiada apenas na sua memória— na sexta-feira, no sábado e no domingo. Agora, a peça ruma ao Teatro Municipal do Porto — Campo Alegre, para outras três apresentações de sexta-feira a domingo, entre 27 e 29 de janeiro. Os bilhetes estão à venda por 9€. “Tendo tido a oportunidade de subir ao palco do São Luiz para participar naquele espetáculo, depois de toda esta reivindicação, disse que gostaria de estar presente e que decoraria o texto e faria a cena.”

Maria João Vaz adianta que não comentou com André Patrício a troca de papéis, nem abordou o facto de ser ela agora a interpretar Lola. “Não vou falar sobre o assunto, não faz sentido.” Curiosamente, há cerca de um ano, a atriz tinha feito um casting para interpretar uma personagem da peça. Na altura, deram-lhe um texto que continha falas de Agrado.

O elenco da peça, antes de Maria João Vaz entrar.

“Na altura, só decorei metade do texto. Não decorei o resto porque achei que era transfóbico. Entretanto, essa parte do texto até foi transformada. À partida, logo na audição, condicionei a minha participação porque me recusei a decorar metade do texto, porque não me identificava com aquilo. Não faço qualquer personagem, seleciono as coisas. Não iria defender coisas com as quais não concordo… Não iria defender ideias nazis a não ser que fosse uma personagem nazi, que se justifique e haja ali uma envolvência que faça sentido. Depende das circunstâncias.”

Sobre o protesto que motivou o convite, tem o seu próprio ponto de vista. Subscreve a ação e a intenção, mas descreve-a como “violenta”. “Não aprovo a forma, mas aprovo o conteúdo e os objetivos. E há pessoas que não compreendem esta diferença.”

E acrescenta: “Nunca tomaria aquela atitude, porque não gosto de confrontos, violência, arrogância, imposição. É da minha natureza. Prefiro ir a fóruns, dar entrevistas, escrever um artigo ou fazer uma palestra de esclarecimento. Sei que são ações que, eventualmente, demoram mais tempo a mudar mentalidades. É mais rápido cortar a cabeça à rainha Marie Antoinette e provocar uma revolução com efeitos rápidos, para acabar com a monarquia e começar a república. Ou pegar em armas e fazer o 25 de Abril. Sou 100 por cento a favor, mas não pegaria numa arma. Provavelmente cantaria ou iria para as ruas ou faria sessões de esclarecimento. Cada pessoa ocupa os espaços, os lugares e as atitudes que têm a ver com a sua natureza — e a minha é pacífica.”

Maria João Vaz diz, além disso, que faz parte das duas comunidades: a trans e a dos atores. Pelo que também não consegue ter uma atitude hostil. “Faço parte da comunidade artística, sou atriz, e as pessoas que estavam no palco são pessoas com quem já trabalhei. São minhas amigas e meus amigos. Não conseguia ter uma atitude de imposição… E considero que foi violenta porque uma pessoa quando está em cima de um palco está despojada, vulnerável. Na nossa cabeça estamos num limbo, entre a realidade e a ficção… No processo de atuação no teatro estamos a chamar um texto que está no cérebro, estamos a dominar a cena, temos consciência de que estamos num palco e que há pessoas a ver. Estamos a exibir-nos. Transporto sempre um bocadinho de mim para as personagens que interpreto. É um ponto vulnerável de consciência. Portanto, ser interrompida de uma forma intrusiva… Aquilo é violento nesse aspeto.”

Por acreditar nisto mesmo é que recusou, recentemente — antes desta invasão de palco em protesto — a participar num vídeo que reivindicava uma maior representatividade no meio artístico. De igual forma não quis comparecer na manifestação de domingo.

“Estou no meio, entre duas comunidades e não ia estar… Respeito as duas e tenho amigos e amigas nas duas, não ia fazer isso. Por ironia do destino, houve aquela ação e quem foi convidada para participar na peça fui eu, que não participei nos protestos. Logo na altura disse: ‘Isso vai ser mal interpretado’. Porque não participei nos protestos e fui convidada. Mas porque é que fui convidada? Provavelmente, porque sou atriz. Não sou uma pessoa trans que é convidada para fazer um espetáculo. Sou atriz. Esta é uma situação particular de uma peça que foi ensaiada durante meses e era preciso ocupar uma personagem em horas. Eu tenho uma carreira de 34 anos, tenho experiência em safar espetáculos no passado, estreias de teatro em que atores ficaram doentes. Por isso estava tranquila e descontraída para fazer isso. Aceitei e encarei com normalidade. As pessoas podem sentir que sou privilegiada por alguma razão… Mas nas comunidades, como nos partidos, há sempre fações mais radicais e outras mais moderadas. Há pessoas que gostam mais de ver sangue, outras que não, e respeito isso tudo. Só não espero ser arrastada na lama por ter uma opinião diferente.”

Defende ainda que esta produção já era, “em parte”, inclusiva. “Também é ironia do destino. No fundo, esta produção foi inclusiva porque convidou uma pessoa trans para fazer um papel. Agora, o outro papel era interpretado por uma pessoa cis. Foi uma tentativa incipiente e não foi total. Mas, por acaso, o alvo escolhido foi uma produção que até estava a ser inclusiva, em parte. Isso foi encarado como uma afronta máxima.”

Tornou-se conhecida com este anúncio de 1995.

Maria João Vaz argumenta que a sua forma para suscitar uma “maior representatividade” passa simplesmente por tentar conquistar trabalhos em peças de teatro, filmes ou novelas. “É isso que tenho tentado. Eu estaria a exercer essa representatividade se tivesse tido trabalho. O facto de estar presente nessas produções daria visibilidade e representatividade à comunidade. Através do meu métier, da minha profissão, e não através de uma ação deste género”, diz, acrescentando que pretende normalizar a presença da comunidade trans na sociedade de uma forma mais passiva. “Essa é a minha atitude. Há pessoas que querem agitar as coisas.” 

Perguntamos-lhe se esta ação de protesto não pode abrir um precedente para outras invasões de palco, para outras manifestações “intrusivas” e “violentas” no campo artístico, orquestradas por outros motivos, porventura menos nobres. A atriz julga que não e oferece outro ponto de vista. 

“Acho que o teatro, como uma amiga minha disse… O palco é uma arena, não é? É uma espécie de um parlamento, um local onde acontecem coisas e há pessoas a assistir. O palco é sagrado. E as pessoas que estiveram presentes naquele dia assistiram em direto àquela peça em vários sentidos. Estavam a assistir à peça e depois assistiram àquela realidade que era focada na peça, com uma pessoa trans a invadir o palco. Era a realidade misturada com a ficção. E as pessoas que assistiram a isso… Para elas penso que foi um privilégio terem ali, em carne e osso, uma pessoa trans. Têm a ficção, a ilustração, e depois tiveram a realidade nua e crua — literalmente até. Significa que o teatro, que foi sempre um objeto de intervenção, de passar ideias, de divulgação de causas… Algumas peças são simplesmente lúdicas, mas outras têm um cariz político muito forte. O teatro continua a ter esse papel e isso foi demonstrado.”

Esta é a primeira personagem trans que Maria João Vaz interpreta. Em palco, a atriz emocionou-se. Os colegas elogiaram a sua prestação e terão reconhecido a carga autêntica que carrega para o palco ao fazer um papel destes. Mas a atriz não acredita que o género seja determinante no seu trabalho. “Para mim não é fundamental falar-se no género. Quero é ser aceite, e trans is my business. Mas percebo que há muitas pessoas que sofrem pelo facto de serem trans. Sofrem violência, discriminação, discriminação no trabalho…”

E acrescenta: “As pessoas dizem que atores e atrizes são atores e atrizes e fazem personagens, indiferentemente. ‘Ah, que um ator branco pode fazer de preto’. Já não faz sentido. Porque são comunidades historicamente discriminadas. E é o mesmo com as pessoas trans. Nós somos discriminadas. Pelo menos deem-nos os papéis que falam na nossa comunidade. Não quer dizer que qualquer pessoa não possa interpretar um papel. Mas já que não temos oportunidade, ao menos esses deixem-nos fazê-los, porque tem a ver connosco, porque são as nossas vivências, os nossos corpos. As pessoas cis são elogiadas por fazer de trans pela sua coragem e não sei quê. Coragem é nós vivermos num mundo… Quer dizer, eu não sinto coragem, não tenho essa atitude como outras pessoas da minha comunidade têm, dessa coisa vitoriosa e de resistência. Sou coerente com a minha parte pacifista. Eu vivo, pura e simplesmente, e não estou em luta contra ninguém. Não me senti nunca discriminada do ponto de vista social. Nunca me senti nem agredida nem injuriada nem magoada do ponto de vista de relações de trabalho ou na rua… Porque tem a ver com a minha atitude. Estou muito na minha e estou tranquila. As pessoas aceitam isso e é o que me devolvem.”

Apesar de considerar que a discussão pública que se gerou em torno do assunto é positiva, também aponta que é “duro” perceber a “ignorância” de muitas pessoas que comentam o tema nas redes sociais ou nos meios de comunicação social. “É doloroso ver pessoas que pensávamos que tinham o mínimo de formação, de informação, cultura, humanidade… Percebemos que não. Aí, sim, há uma agressividade horrível. É incompreensão, ignorância, falta de solidariedade e muita falta de empatia. E falo de pessoas inclusive da minha área profissional. Já ‘desamiguei’ várias das redes sociais, porque não admito algumas das coisas que disseram. Não estou para aturar aquele desaforo. Isto foi importante porque veio agitar as coisas e trouxe temas de que vale a pena falar.”

Maria João Vaz recorda o anúncio publicitário recente da divisão espanhola da marca de whiskey J&B, que apelava à solidariedade usando o exemplo de uma jovem trans com o seu avô. O vídeo tornou-se viral nas redes sociais, ao ser imensamente partilhado. “Estava tudo a partilhar porque achavam aquilo incrível. E, agora, de repente, já acham… Pronto, é tudo assim, já se esqueceram. Se calhar é porque era Natal. As pessoas não percebem intrinsecamente do que se trata aqui. E cada pessoa trans é uma pessoa trans, como outra pessoa qualquer. Pretendemos coisas diferentes e identificamo-nos com coisas diferentes. Há muito desconhecimento sobre o que se passa com estas pessoas, pessoas como eu. E depois opinam e falam e misturam imensas coisas. Misturam orientação sexual com género…”

A trajetória de Maria João Vaz

Quando foi entrevistada pela NiT em 2020, Maria João Vaz recordava estar numa “segunda puberdade”. O seu processo de transição “deu-se muito tarde”, na casa dos 50 anos, e iniciou-se em 2018. 

“Nasci assim, sou trans desde que estava na barriga da minha mãe. Não tive essa perceção, porque fui percecionada de um género sobre o qual não tinha opinião porque era um bebé acabado de nascer. Mas, a partir da genitália de uma pessoa, a sociedade, a família e toda a gente interpreta aquela pessoa de determinada maneira e condiciona e educa… A pessoa devia ter sido outra coisa e é algo que lhe foi imposto. Portanto, há um sofrimento. E, depois, eventualmente, há uma epifania. E depois há uma transição. A minha deu-se muito tarde, porque nasci num tempo em que não tinha acessos, não percebia… Pensava que era deficiente.”

Maria João Vaz, que ficou conhecida dos portugueses em 1995 ao interpretar um pastor num anúncio publicitário da Telecel, diz que isto também terá afetado o seu trabalho. “Nunca fui muito bem interpretada durante toda a minha vida. Fiz um coming out tardio. Como atriz, antes, também não tive grande sucesso. Presumo que as pessoas não me conseguiam interpretar bem. Havia uma contradição em mim própria. Isso provavelmente passava para os outros, não faço ideia. Portanto, nunca tive muito trabalho, nunca tive um agente, tentei durante 30 anos e não consegui. Depois do meu coming out houve um ímpeto, porque era novidade, porque eventualmente venderia alguma coisa porque se lembravam sempre da publicidade que tinha feito há mais de 25 anos… Isso era a notícia flash. Houve um ímpeto, entrei nalgumas coisas, curtas-metragens, participei nuns teatros, mas coisas incipientes. Entrei também numa novela, em duas sessões. Prometeram que haveria consequência, mas não houve. Fiz essas duas sessões, pensando que haveria consequência. De outra forma não teria aceite, porque não queria ser a bandeirinha LGBT da produção. Depois voltou a ser deserto. Respondi a castings, estava sempre atenta porque queria continuar a minha atividade, e na maioria das vezes não passava de enviar o currículo.”

Leia o artigo da NiT sobre a história de Maria João Vaz.

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