Teatro e exposições

Fomos conhecer a incrível instalação portuguesa que vai estar no Burning Man

Chama-se “O Nome da Rosa” e vai ser apresentada no deserto americano no final de agosto.
O dramaturgo Nuno Paulino é a grande mente por trás do projeto.

Este ano, e pela primeira vez na história, o mítico festival Burning Man — que acontece todos os anos em Black Rock City, uma cidade montada de propósito no deserto do Nevada, nos EUA, durante uma semana — vai receber uma instalação artística portuguesa. Esta edição vai acontecer entre 25 de agosto e 2 de setembro. Por agora, tudo está a ser preparado num armazém em Santa Iria de Azóia, no concelho de Loures.

A NiT entra no espaço e encontra Nuno Paulino, dramaturgo e o grande criador da obra, à conversa com um jornalista americano. O repórter está de férias em Lisboa, mas é um grande aficionado do Burning Man e não se conteve em chamar um Uber para Santa Iria de Azóia quando descobriu que ali estava a ser montada uma das peças que vai poder ver daqui a um mês no evento. “Vemo-nos no deserto”, despede-se, de forma entusiasmada.

O armazém, que é grande mas discreto para quem o vê da rua, funciona como oficina de artes — tem dezenas e dezenas de materiais e ferramentas, inclusive um autocarro antigo e uma autocaravana. 

É lá que “O Nome da Rosa”, a obra portuguesa que será apresentada nos EUA, tem sido construída nos últimos quatro meses. Como a maior parte das instalações no festival, esta peça cruza arte e ciência.

É uma figura de uma Deusa Mãe (que representa a Terra) assente numa base pesada e montada numa rosa dos ventos bastante diferente do habitual. “Esta rosa dos ventos aponta para todas as direções, porque é possível manobrá-la”, explica Nuno Paulino, de 50 anos, à NiT.

A imagem de projeto.

“Queríamos atribuir o significado de ela apontar para todos os nortes e não só para um. Acho que essa é uma grande mensagem: não deixar que ninguém te diga que só tens um caminho, que só há uma solução, que só podes ser dessa maneira. Isso tem muito a ver com o Burning Man, onde existe esta filosofia de poderes escolher, de poderes ser diferente.”

Essa é uma parte da obra interativa, em que todos os burners — assim se chamam os aficionados do Burning Man — vão poder mexer, com a ajuda da equipa portuguesa no local. A rosa dos ventos está fixa num mastro, que também simboliza a navegação e é um símbolo bem nacional.

Outros elementos muito portugueses e que foram utilizados são a cortiça — que serve de roupa para esta Deusa Mãe — e o azeite virgem extra, que vai ser útil para incendiar esta obra de dois em dois dias durante o festival (nesses momentos, claro, será necessário retirar a cortiça).

“Foi um processo que inventámos — quase patenteámos — de um condutor de fogo quase perfeito que vai incendiar o ferro de acordo com um design específico. Há um preparado de algodão e de combustível biológico que é incendiado com os raios do sol como se fosse uma tocha.”

O raio de sol atravessa e fica guardado no interior de uma garrafa que irá funcionar como uma câmara de luz. O último raio de sol do dia fica conservado em azeite nessa câmara para à noite incendiar a instalação, sendo que o fogo dura cerca de cinco minutos.

“Arder é também um simbolismo de a terra estar tão aquecida neste momento.”

Há uma espécie de pequena nave espacial, construída com partes de carros antigos, em que qualquer pessoa se pode sentar para ajustar a obra e coincidir melhor com a posição do sol a cada momento.

Cerca de 800 projetos candidataram-se à edição deste ano do Burning Man. Só 62 é que foram selecionados para integrarem o recinto do evento. Esta peça foi ainda premiada com o Honoraria Grant, que distingue as principais criações do festival de Black Rock City.

“A nossa diferença é que conseguimos este domínio da forma. Eles não, eles metem fogo a um bocado de madeira — pode ter uma forma muito bonita mas passados cinco minutos aquilo é tudo a mesma coisa.” Há um vídeo que mostra como tudo vai acontecer.

É uma forma de abordar a questão das alterações climáticas e mostrar como o sol pode ser uma fonte energética alternativa ao petróleo. Além disso, é uma peça que estará coberta de LED — uma oferta generosa de Scott Morgan, artista americano de iluminação que se voluntariou para ajudar na produção.

Vai haver geradores ligados a uma estrutura de bicicleta que poderá ser pedalada para produzir energia e alimentar as baterias das luzes. “À noite, quando ligamos as luzes, estamos a usar uma energia que nós próprios gerámos — isso é bonito.”

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