Teatro e exposições

Gonçalo Fonseca fotografou tráfico de órgãos na Índia. Agora volta a olhar para Lisboa

O fotógrafo português apresenta “New Lisbon” no IMAGO, com mais de 50 imagens inéditas sobre a crise da habitação.

Quando Gonçalo Fonseca chegou a uma aldeia remota no norte da Índia, perto da fronteira com o Bangladesh, já levava meses a investigar redes de tráfico de órgãos. Tinha conhecido pessoas que venderam um rim por menos dinheiro do que custava a máquina fotográfica que levava ao pescoço. Foi nesse momento que começou a questionar o que fazia tão longe de casa.

“Percebi que havia um desequilíbrio de poder muito grande. Foi o início de um processo que me fez perceber que o meu lugar é em Portugal, que é onde quero estar e onde gosto de estar”, conta à NiT.

Hoje, aos 33 anos, Gonçalo Fonseca continua a fotografar algumas das grandes questões sociais do seu tempo, mas já não sente que precisa de atravessar o mundo para encontrar histórias. Desde 2018 que vive em Portugal e é por cá que desenvolve grande parte do trabalho. Uma dessas séries, sobre pessoas atingidas pela crise da habitação em Lisboa, vai agora regressar à cidade.

“New Lisbon” estará patente entre 3 de outubro e 7 de novembro na Leica Store Lisboa, na Avenida da Liberdade, integrada na programação do festival Imago Lisboa. A inauguração acontece às 17 horas e contará com a presença do fotógrafo. 

O projeto foi desenvolvido entre 2019 e 2021 e acompanha dezenas de pessoas apanhadas pela transformação do mercado habitacional da capital. Há idosos sujeitos a pressão para abandonarem as casas, mães solteiras que ocuparam imóveis e famílias que procuraram nos bairros autoconstruídos uma alternativa para terem um teto. A exposição vai incluir mais de 50 fotografias inéditas.

Foi este trabalho que, em 2020, valeu a Gonçalo o Leica Oskar Barnack Award — Newcomer, tornando-o no primeiro português a vencer a categoria dedicada a novos talentos. Mas “New Lisbon” também sintetiza a forma como olha para a fotografia: os grandes temas interessam-lhe através das pessoas que vivem com as suas consequências.

“Enquanto estou a fotografar, a proximidade é a chave para conseguir momentos reais, verdadeiros, que possam contar a história da melhor forma”, explica. O método começa antes de tirar a máquina da mochila. “Apresento-me, digo quem sou e porque é importante falar sobre aquele tema. Digo às pessoas que tenho interesse em ouvi-las, em passar tempo com elas, em conhecer a história de vida delas. Depois tento transmitir isso através das imagens.”

Da fronteira de Melilla às igrejas clandestinas de Xangai

Gonçalo nasceu em Lisboa, em 1993, e começou por estudar Jornalismo na Universidade Católicam em Lisboa. Seguiu-se uma pós-graduação em Fotojornalismo em Barcelona e foi em Espanha que começou a construir uma carreira como freelancer. Em 2016, decidiu ir para Melilla, território espanhol no norte de África que funciona como uma das fronteiras terrestres entre a União Europeia e Marrocos.

Numa altura em que a crise migratória dominava as notícias através das chegadas à Grécia e a Itália, Gonçalo sentia que pouco se falava daquela outra porta de entrada na Europa. Passou meses em Melilla a trabalhar sobre migração e direitos humanos. Uma das histórias levou-o até um grupo de crianças marroquinas que vivia junto ao porto.

Os miúdos tentavam fazer aquilo a que chamavam “risque”: entrar às escondidas nos barcos que partiam para Espanha, na esperança de começarem outra vida. Gonçalo acompanhou-os numa dessas tentativas. Ao tentar fotografá-los enquanto se infiltravam no porto, caiu nas rochas, partiu um pulso e ficou com ferimentos nas pernas. A polícia chamou uma ambulância e o fotógrafo teve de interromper o trabalho durante algum tempo.

Depois da recuperação, regressou à fotografia com um projeto sobre a política portuguesa de drogas, a que chamou “Como Portugal venceu a guerra às drogas”. Começou-o em 2017, voltou ao tema em 2020 e 2021 e viu parte do trabalho publicada na “Time”, em 2018.

Nessa fase, porém, Gonçalo ainda acreditava que as histórias mais fortes estavam longe de Portugal. “Tinha um grande fascínio pela China e, mais tarde, pela Índia. Sentia que as boas histórias estavam nos confins do mundo. Tinha muita vontade de conhecer outras realidades e perceber como é que as pessoas viviam.”

Em 2017, comprou um bilhete para Xangai com o próprio dinheiro e instalou-se na cidade durante dois meses. O plano era simples e arriscado: produzir reportagens por iniciativa própria e tentar vendê-las depois a jornais e revistas internacionais.

Saiu de lá com três histórias muito diferentes. Fotografou igrejas cristãs clandestinas que funcionavam em apartamentos, investigou uma indústria de transmissões em direto que ainda dava os primeiros passos e trabalhou sobre a solidão numa das maiores cidades chinesas, onde começavam a surgir negócios criados para quem procurava companhia, incluindo aulas para aprender a encontrar namorado ou namorada.

O fotógrafo Gonçalo Fonseca.

O trabalho nas igrejas exigia outros cuidados. Gonçalo teve de encontrar pessoas que lhe abrissem as portas de comunidades onde os fiéis sentiam que não podiam falar de todos os temas nas missas. Dentro dos apartamentos encontrou uma liberdade que não via noutros espaços, mas também percebeu o risco assumido por quem aceitava ser fotografado.

Essa preocupação levou-o a desistir de outra reportagem que queria fazer na China, desta vez sobre os impactos sociais e ambientais da indústria. Depois de falar com ativistas e de se reunir com a Greenpeace, percebeu que o maior perigo não seria para ele. Seria para os tradutores e colaboradores chineses de que precisaria para trabalhar.

“Disseram-me que podia não estar a arriscar a minha vida, mas podia arriscar a vida de quem teria de me ajudar. Eram pessoas que podiam arruinar as suas vidas por me ajudarem a fazer uma reportagem sobre um tema tão sensível.”

Na Índia, começou a questionar o próprio trabalho

A experiência chinesa correu bem e permitiu-lhe recuperar o dinheiro investido. Pouco depois encontrou o tema que o levaria à Índia: o tráfico de órgãos. Tudo começou quando leu sobre o trabalho da antropóloga Nancy Scheper-Hughes e decidiu perceber o que existia por detrás das histórias quase mitológicas sobre pessoas que acordavam numa banheira cheia de gelo sem um rim.

Descobriu uma realidade menos cinematográfica, mas não menos dura. O tráfico estava ligado à pobreza, à corrupção e à manipulação dos processos legais de transplante. Gonçalo passou quase seis meses entre Nova Deli, Chennai e a fronteira com o Bangladesh. Encontrou bairros e aldeias onde intermediários convenciam pessoas com dificuldades económicas a venderem rins.

Numa aldeia remota de Bengala Ocidental, uma das últimas entrevistas quase terminou mal. Gonçalo sabia que o traficante responsável por recrutar pessoas vivia naquela zona. Enquanto entrevistava um morador, três homens entraram na casa aos gritos. Tinham sido enviados para os intimidar.

“Foi um momento muito tenso, daqueles em que sentimos que a coisa pode descambar. Eu não percebia nada do que estavam a dizer, só ouvia os gritos.” O fotógrafo atribui ao fixer que o acompanhava a capacidade de acalmar a situação e permitir que saíssem dali sem consequências.

O episódio deixou marcas, mas foi outra constatação que alterou o rumo da carreira. “Estava a entrevistar pessoas que tinham vendido os rins por menos dinheiro do que custava a minha máquina fotográfica. Era uma realidade por completo diferente da minha.”

Foi aí que começou a desaparecer a ideia de que precisava de procurar os grandes temas no outro lado do planeta. Regressou a Portugal e passou a procurar dentro das próprias comunidades a proximidade que sempre tentara construir no estrangeiro.

“New Lisbon” nasceu pouco depois. Quando regressou da Índia, Gonçalo encontrou uma Lisboa transformada pelo turismo, pela especulação imobiliária e pela subida dos preços das casas. Em vez de fotografar a crise através de números ou edifícios, procurou quem estava a vivê-la.

O fotógrafo acompanhou algumas dessas pessoas durante anos e manteve contacto com muitas delas depois de terminar o projeto. “Deram um passo de coragem ao partilharem comigo a história das suas vidas”, recordou quando recebeu o prémio da Leica.

A proximidade não significa, para Gonçalo, que o fotógrafo deva colocar-se no centro do sofrimento que documenta. “Há sempre este discurso do jornalista que sofre. Há alguma dureza em estar confrontado com realidades difíceis, mas a dureza real é a de quem vive as coisas 24 horas por dia, sete dias por semana, 365 dias por ano e não tem escapatória. Eu, no final do dia, vou para casa. Nisso sou um sortudo.”

Há, contudo, histórias em que essa distância desaparece. Os incêndios são uma delas. A família materna tem uma casa numa aldeia que esteve perto de arder em 2017 e, desde então, Gonçalo vive os verões atento ao cheiro a fumo.

“Sinto o fumo e vou à Internet ver de onde vem. É uma realidade partilhada por milhões de portugueses, na qual me incluo. Aí é muito mais difícil manter a distância. Sofro com este tema e com a forma como a paisagem fica depois de um incêndio. É um luto.”

Essa ligação está também na origem de outro projeto que será apresentado no IMAGO Lisboa. O fotógrafo integra também uma exposição coletiva do Project Groundswell, ao lado da irlandesa Yvette Monahan, do alemão Ingmar Björn Nolting e da portuguesa Maria Oliveira. 

quatro foram distinguidos pelo projeto europeu, que recorre à fotografia para mostrar respostas à crise climática. Gonçalo apresenta “A Burning Landscape”, trabalho iniciado em 2024 sobre os incêndios em Portugal, as suas causas e as soluções que podem ajudar a travar o problema. A exposição já passou pela Áustria, Irlanda e Itália antes de chegar a Lisboa.  

Desde 2017, o português tem trabalhado por conta própria para publicações como “The New York Times”, “The Washington Post”, “The Wall Street Journal”, “The Guardian” e “Der Spiegel”. Foi finalista dos Pictures of the Year International, recebeu o Project Groundswell Prize e chegou à final do Earth Photo Award 2026, entre outras distinções. O trabalho já foi mostrado em vários países da Europa, Ásia, Médio Oriente e Austrália.

Mas é em Portugal que encontrou o lugar onde quer continuar a fotografar. Depois de Melilla, Xangai, Nova Deli ou das aldeias junto ao Bangladesh, percebeu que não precisava de ir aos “confins do mundo” para encontrar as histórias que procurava. Muitas estavam à porta de casa.

“New Lisbon” é inaugurada a 3 de outubro, às 17 horas, na Leica Store Lisboa, no número 258 da Avenida da Liberdade. Pode ser visitada até 7 de novembro, de segunda-feira a sábado, entre as 10 e as 19 horas. A entrada é gratuita.

Carregue na galeria para conhecer melhor o trabalho de Gonçalo Fonseca e ver algumas das histórias que o fotógrafo português tem documentado em vários pontos do mundo.

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