Teatro e exposições

Já visitámos o novo Museu do Holocausto do Porto (foi uma experiência emocionante)

Inauguração foi adiada por causa da pandemia, mas as visitas vão ser gratuitas até ao final de maio.
Um dos vários cenários do museu.

Quem olha de fora não consegue entender bem o que vai dentro daquelas portas brancas da Rua do Campo Alegre. Na parte de baixo de um edifício, ao lado de restaurantes e lojas e no mesmo espaço que já teve um stand de automóveis, fica agora o mais recente espaço de memória do Porto: o Museu do Holocausto do Porto.

Com a abertura inicialmente agendada para 27 de janeiro, Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, a pandemia trocou as voltas aos responsáveis, mas nem por isso retirou valor à tão esperada abertura. Oficialmente, o museu abriu ao público esta segunda-feira, 5 de abril.

A entrada interior é em tudo semelhante ao exterior, com um estilo discreto e simples. Depois de passada a parte de receção, começa a visita propriamente dita. O primeiro espaço é um pequeno jardim, onde em poucos passos é possível relaxar e esquecer o mundo lá fora, ou então preparar a mente para o que aí vem.

A primeira sala tem à esquerda uma zona onde é exibido o filme “A Luz de Judá” e onde os visitantes podem sentar-se durante uns minutos. No centro, há uma vitrine envolta em arame farpado onde está uma menorá, uma espécie de candelabro com sete braços usado pelos judeus. Do lado direito há então uma das imagens mais conhecidas e ao mesmo tempo mais impactantes do Holocausto: os portões do campo de Auschwitz. A imagem é retroiluminada, numa sala onde pouco mais há do que essa luz, o que lhe dá uma atmosfera muito particular. Um misto entre caminhar do escuro para a luz, sabendo que ali só haverá sombras.

“No fundo, o museu começa com um convite a visualizar um pequeno excerto relativo ao período da II Guerra Mundial e aos refugiados que passaram pelo Porto [nessa altura]”, explica à NiT o curador do museu, Hugo Vaz, acrescentando que “logo a seguir temos uma entrada no campo de extermínio e concentração de Auschwitz-Birkenau e de igual forma numa camarata, numa barraca de Birkenau, onde somos convidados a explorar o tema dos campos de concentração e de extermínio”.

É exatamente isso que podemos ver na sala seguinte: uma camarata. Estreita, com poucas condições, três andares de pequenos cubículos desconfortáveis. Do lado oposto há fotografias da época, que nos transportam imediatamente para aquele ambiente que ali se vivia.

Ao final do corredor fica aquela que poderá ser a sala mais simples e ao mesmo tempo mais impactante do museu. É uma sala quadrangular, negra, com um marco de mármore no meio com a inscrição “Remember”, que em português poderá ser traduzido como lembrar, recordar ou, sobretudo, não esquecer.

Nesta sala negra, a luz vem das letras brancas inscritas nas paredes. São muitas, mesmo muitas, pequenas e com grande significado. Aqui estão cerca de 30 mil nomes, que representam os seis milhões de judeus que desapareceram com o Holocausto. É precisamente por isso que é chamada de “Sala dos Nomes”.

“É uma sala memorial, no fundo, que nos convida à reflexão sobre este horror, sobre esta catástrofe que foi o Holocausto”, sublinha Hugo Vaz.

A partir desta sala o percurso segue por um corredor cuja entrada é ladeada por duas vitrines onde estão dois Rolos de Torá, as escrituras sagradas para os judeus. Esta foi uma oferta feita à sinagoga da cidade por refugiados que aqui chegaram há muitos anos e está, tal como na entrada, envolta em arame farpado.

O seguinte corredor conta então com mais detalhe a história dos refugiados que passaram pelo Porto, utilizando documentos da época, fotografias e pequenos vídeos. No fundo, está toda a narrativa que é contada no museu.

“Desde o início da vida judaica na Europa antes da II Guerra Mundial, terminando no pós-guerra. Passando naturalmente pelos guetos, pelos justos entre as nações e por outros temas.”

No final do corredor em L, onde se faz a ligação com a cidade, está uma sala que pode ser utilizada para palestras ou exposições temporárias, por exemplo. Aqui há ainda mensagens de acontecimentos não muito distantes no tempo e que servem como aviso para que todos estejam atentos. Um alerta, para que a história não volte a repetir-se.

“Temos disponíveis na nossa exposição cerca de 400 fichas individuais de judeus que passaram pelo nosso País, refugiados, e que usaram Portugal como uma plataforma para sair da Europa. São fichas extremamente interessantes, onde temos informação variada, desde a sua origem, o seu percurso e o seu destino depois de saírem de Portugal. É parte do nosso arquivo que está aqui disponível para ser consultado, para ser visto e é isso que na realidade nos diferencia.”

O último espaço de todos fecha um ciclo. Leva-nos até à entrada, ao átrio e culmina com uma árvore. Neste ciclo fechamos também a sequência de vida-morte-vida, uma vez que a visita começou com um pequeno jardim, passou para toda a parte sensorial e documental sobre o Holocausto e acaba novamente com a natureza, representada pela árvore.

“O museu é construído na sequência de um projeto cultural que a nossa comunidade tem construído, que inclui não só o Museu do Holocausto do Porto mas também o Museu Judaico e a Sinagoga. É um museu que é criado, essencialmente, porque decidimos aceitar o repto do Projeto Nunca Esquecer, o programa governamental de memória do Holocausto, e que na realidade convida a sociedade civil a contribuir precisamente para esta memória do Holocausto”, relata o curador.

Aberto para todo o público, este museu foi pensado sobretudo para as escolas e as suas visitas, de forma a divulgar o tema aos mais novos. Ainda assim, o curador daquele que se diz um museu único na Península, defende que todos são bem-vindos a este espaço.

“Todos os públicos são bem-vindos, quanto mais não seja para perceber a ligação entre o tema e o Porto, que é desconhecida de muitos, mas é evidente que estamos e queremos trabalhar bastante com as escolas.”

Para já, é possível visitar o museu de segunda a sexta-feira, entre as 14h30 e as 17h30, sendo que todas as normas de segurança estão a ser cumpridas. As entradas serão gratuitas até maio.

Carregue na galeria para conhecer melhor o Museu do Holocausto do Porto.

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