Teatro e exposições

João Lima, o ator multitalentoso que quer ajudar os jovens de bairros sociais

Ator, músico, modelo. Aos 27 anos, sabe apenas que é um artista de corpo e alma — e que quer ajudar os outros. É um dos finalistas do New Talent.
João quer desenvolver um projeto social

O pai é músico. A mãe é atriz e bailarina. O avô é encenador. “Nunca tive muitas hipóteses de escapar a esta vida”, confessa João Lima que, aos 27 anos, seguiu inevitavelmente o caminho das artes, tal como quase toda a sua família.

É ator, toca e compõe, é modelo, produtor e tudo o que mais lhe chegar às mãos. E são todos esses talentos que lhe permitiram chegar ao lote de dez finalistas da quarta edição do New Talent, o concurso promovido pela NiT, TVI e Santa Casa da Misericórdia de Lisboa para eleger os melhores jovens talentos de Portugal na área do lifestyle. No final, o vencedor irá receber 10 mil euros para desenvolver um projeto pessoal ao longo do próximo ano.

Apesar da influência familiar, João explica que todos tinham noção das dificuldades do mundo das artes, ao ponto de o terem mesmo tentado convencer a não seguir a profissão. “Tentaram dissuadir-me em conversa, mas não resultou. Nunca me impingiram nada, nunca me obrigaram a não ser o que quisesse.”

O condicionamento era natural. Cresceu entre cenários no teatro Maria Vitória, onde o avô encenou diversas revistas. Acompanhava a mãe nos workshops. “Sempre me deixaram ver, participar, perguntar. Sempre tiveram muita paciência para me responder a tudo.”

Aos seis anos, filho único e com imenso tempo para passar sozinho, já devorava os filmes de Fred Astaire. “Desde muito cedo que soube que queria ser artista, apesar de ter passado pela fase de querer ser biólogo ou arqueólogo”, conta.

“Tinha esse fascínio mas rapidamente percebi o conceito de que aquilo de que tu gostas, como profissão, tem sempre uma parte chata. Todas têm. Nenhuma outra solução me interessava tanto quanto a de ser artista.”

E João ajuda a definir o conceito. “Não me lembro que idade tinha, mas lembro-me que percebi que não queria ser ator. Eu achava que queria, mas percebi que não me chegava. Via a minha mãe a fazer workshops, trabalhos sociais. Via o meu pai a tocar. O meu avô a encenar. Era claro para mim que queria ser artista, tocar um pouco de tudo. Ser só ator não chegava.”

Tinha perto de nove anos quando se estreou numa peça de teatro. Foi a experiência certa para perceber qual era a sua grande paixão.

“Nessa peça, a preocupação era menos o texto — e eu nunca fui ator de adorar decorar texto — mas mais a fisicalidade, os tempos cómicos das reações. Achava piada a quão contagiante era sentir o riso na plateia. Ao facto de estarem todos atentos a mim, quando eu ainda não tinha feito nada. Há um jogo de perceber o que é que prende a atenção das pessoas”, nota.

Aos 12, saltava pela primeira vez para a televisão, com um papel na série “Campeões e Detetives”. O casting surgiu um pouco por acaso e chegar aos locais de gravação foi uma espécie de magia. “Fiquei fascinado com os cenários, com aquilo do fingir. Mas depois dessa experiência percebi que não queria voltar a fazer nada tão cedo.”

Preferia então formar-se e, só depois, trabalhar. Tudo para “fazer as coisas bem feitas”. Acabaria por se formar na Escola Profissional de Teatro de Cascais, onde acabaria por descobrir mais uma paixão, a música.

A guitarra tinha entrado na sua vida uns anos antes, quando aos 12 começou a ter aulas e se fascinou num curso de verão de jazz. Depois, aprendeu quase tudo pela sua própria mão — com uma ajuda genética do talento do pai, guitarrista que fez parte dos Toranja, entre outros projetos musicais.

“Toco jazz, bossa nova, uma data de coisa. Mas também percebi que gostava mais de compor do que de tocar. Não sonho dar concertos, ir em digressão”, conta. “O meu pai adorava tocar de tudo e sei o quão musicalmente deprimido ficou quando teve quatro anos intensos sempre a tocar o mesmo nos Toranja. Tive excelentes lições de vida em cada, de como o dinheiro é importante, mas apenas até certo ponto. Eu tenho é que fazer aquilo de que gosto.”

Na escola de teatro, os intervalos de almoço eram os momentos em que podia estar sozinho, recompor-se. Encontrou um piano numa sala recôndita e fazia ali uma espécie de terapia, até que os professores o apanharam.

“Ouviram-me e pediram-me para começar a compor para projetos de final de curso. Depois comecei a compor para colegas, até que também isso se tornou demasiado intenso e tive que parar”, conta. Rege-se por uma máxima: “Fazer muitas coisas ao mesmo tempo requer demasiado esforço e nem sempre corre. Prefiro ter mais calma.”

A música passou a ser “algo mais egoísta”, até que, inesperadamente, surgiu mais outra faceta sua pela qual ninguém esperava. Um dia foi contactado pela Central Models, que o queria agenciar. Viam nele potencial para manequim.

“Nunca me tinha passado pela ideia fazer isso. Aliás, toda a gente à minha volta se riu quando soube”, conta. As sessões permitiam-lhe ter uma estabilidade financeira que até então não tivera.

“Só era mais chata a questão da imagem, de andar bem arranjado, ir a eventos. Sou muito bicho do mato nesse departamento”, confessa. Tal como até então, tudo se fazia em etapas curtas. Manteve-se no meio durante dois anos, até se deixar envolver nos projetos que hoje o absorvem por completo.

Pelo caminho, ainda passou novamente pelos ecrãs da televisão, no elenco da novela “Festa é Festa”, uma vertente que, assume, não o apaixona. “Nunca fui muito atrás dessas coisas. Se se voltar a repetir, fico agradecido, mas sinto que televisão, tens que ter o domínio daquele momento, sem que o possas trabalhar muito. Chegas lá, fazes a cena em duas ou três tentativas e segues para a próxima. Não interessa se falhaste ou se está minimamente bem. Não é bem uma crítica, é uma constatação.”

Hoje, anda pelos palcos a animar adultos e crianças com a peça “Objeto Náutico Não Identificado”, uma peça de teatro físico, encenada pelo britânico John Mowat. Mais do que representar para os maiores, João sentiu-se concretizado quando tinha na plateia os miúdos.

“Vou ser sincero, foi uma das maiores surpresas do último ano. Sabia que iam gostar, mas não sabia que iam adorar. Ter ali 200 crianças a vibrar, a sentirem a cena. Conseguimos agarrá-los durante uma hora”, conta. “Gostei tanto que, no futuro, quero levar o espetáculo às escolas.”

Atuar para crianças não é uma experiência nova. Fê-lo durante quase um ano, um pouco por todo o País. Mas é noutro meio que pretende aplicar, se ganhar, todo o prémio do New Talent.

Desde pequeno que se habituou a acompanhar a mãe e a companhia em que trabalhava nos workshops dados nos bairros sociais para jovens em risco. A componente social do teatro é, para João Lima, absolutamente vital e daí pretende aplicar a sua experiência e passá-la a quem mais dela precisa.

Chegou a dar aulas a crianças, fez direção de atores e a certa altura, decidiu que queria aplicar todo esse conhecimento numa causa nobre, ao mesmo tempo que atinge outro objetivo: a auto-concretização.

“Adoro ensinar, principalmente neste registo. Em criança pude ver a diferença que faz este tipo de iniciativas na comunidade local. A minha família sempre me incutiu essa ideia, a de fazer o bem, a de ajudar o próximo, sem preconceito. A reconhecer o privilégio, sendo que qualquer uma daquelas pessoas podia ser eu.”

O projeto chama-se Bairro em Cena e pretende fazer mais do que apenas dar as ferramentas rudimentares da representação a jovens de bairros carenciados. “Quero um curso para jovens, mas odeio a ideia de fazer um cursinho que não lhes vai servir para nada. É um curso para quem não conhece o meio, dar-lhes ferramentas não só para representarem, mas para se poderem mexer no meio, para poderem ir à procura, criarem uma estratégia para terem sucesso. Quem é artista acha que isso é básico e elementar. Não é.”

Caso João Lima seja o grande vencedor do concurso New Talent, é nesse projeto que vai investir. “Seria um dos apoios para poder fazer os workshops, para poder fazer uma pré-produção bem feita. Isto não é uma coisa de duas semanas. Tem que ser algo bem feito, porque o caminho para se ajudar não passa apenas por dar técnica, mas ajudar a arrumar a cabeça e perceberem como podem gerir a sua carreira.”

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