Teatro e exposições

Luís Franco-Bastos: “Falava pouco sobre mim nos meus espetáculos”

A NiT entrevistou o humorista, que tem um novo especial de stand-up comedy, “Diogo” — é o mais pessoal e íntimo da sua carreira.
O humorista tem 33 anos.

Aos 33 anos, e com percurso sólido no humor nacional, Luís Franco-Bastos aventura-se no espetáculo mais íntimo da sua carreira. “Diogo” está prestes a ser apresentado numa tour nacional, que arranca a 29 de outubro em Guimarães e depois prossegue por uma série de cidades.

Benavente, Peso da Régua, Funchal, Alcochete, Caldas da Rainha, Torres Vedras, Lisboa, Águeda e Porto — entre outras que serão anunciadas em breve — são as localidades já confirmadas na digressão de Luís Franco-Bastos. Os bilhetes podem ser adquiridos online.

Porquê “Diogo”? Porque é o segundo nome do humorista — e é assim que é conhecido na sua família. Sempre o chamaram de Diogo para o distinguirem do pai, Luís, e do irmão, Luís Miguel. Agora, Franco-Bastos apresenta o “Diogo” num solo de stand-up onde irá abordar a sua vida pessoal, as memórias de família, as manhas que tem, a paternidade recente. A NiT encontrou-se com o comediante no Coliseu dos Recreios, onde irá atuar a 16 de dezembro. Leia a entrevista.

Este novo espetáculo, “Diogo”, foi apresentado como o mais íntimo e pessoal do seu percurso até agora. O que é que o levou a seguir esta direção neste momento?
A resposta talvez seja mais simples do que possa parecer. Não há um objetivo comercial ou estratégico no que é o material seguinte. Quando terminamos um espetáculo e começamos a criar outro, é a nossa vida e o nosso mood que dita o que o espetáculo vai ser. No fundo tento descobrir que espetáculo tenho cá dentro e que preciso de pôr cá fora. E esse espetáculo acabará por ser uma soma das vivências — das mais recentes e das mais antigas que entretanto se maturaram e ficaram no ponto para serem abordadas. É um bocado o que aconteceu aqui. Muitos dos temas que estão no espetáculo são coisas sobre as quais até já tinha vontade de falar há bastante tempo e fui testando material sobre elas ao longo dos últimos anos. Mas só agora senti que tinha encontrado os ângulos ideais para que os temas servissem o espetáculo e não fosse só uma vontade minha de falar de coisas íntimas porque sim. O tempo que demorou não foi por eu ter medo de falar delas. Foi porque precisei de encontrar os ângulos certos. Demorei um bocadinho mais, e agora que sinto que estão encontrados, o espetáculo vai arrancar.

Portanto, foi um processo muito gradual. Não houve nada específico que o tenha encaminhado para este tema.
Não, foi tudo acontecendo de forma muito natural. No meu caso então, que tinha uma componente específica mais no início da minha carreira que eram as imitações, que foram sendo largadas de uma forma muito natural e progressiva, à medida que a percentagem delas diminuía e que a percentagem das outras coisas aumentava e os espetáculos continuavam a correr bem, e as pessoas continuavam a dar o feedback de que estavam a gostar, limitei-me a seguir esse caminho natural e a partir de certa altura a minha saturação com elas já era total e absoluta. Como sentia que as pessoas acarinhavam as outras coisas, mesmo com outros projetos… Por exemplo: “quando é que volta o ‘Erro Crasso’?”, que foi um programa que tive durante algum tempo; ou “quando é que volta ‘O Hotel’?”, que é outro projeto que tenho agora. E quando as abordagens na rua — que às vezes são um barómetro interessante —, quando mais depressa me perguntavam quando voltava o projeto X e Y e pararam, felizmente, de me pedir para imitar o Ronaldo às quatro da manhã no Cais do Sodré, percebia que podia e devia seguir esse caminho e que a minha vontade natural estava a ser correspondida. 

Ou seja, este espetáculo não tem imitações, nem sequer da sua família?
Nenhuma. Até porque vocês não os conhecem [risos]. Já eu levei com eles o suficiente, escusam de vocês também levarem com isso. Acho que trago sempre uma componente de acting e de micro personagens no meu stand-up, mas já não são imitações de vozes de pessoas concretas, aqui já não existe nenhuma.

Tendo em conta aquilo que estava a dizer, suponho que também não se veja a voltar às imitações nos próximos anos.
Não, não vejo, embora também não seja numa lógica de “a partir de agora é proibido”. Mas de facto não vejo. É uma questão de feeling, do que estou a gostar de fazer, e de como é que me vejo a fazer no futuro. Mas a tendência, por “n” motivos, é não voltar a fazer. Chegar até aqui foi um caminho que deu trabalho, ou seja, é muito difícil descolares-te de um rótulo. Principalmente num mercado que não é tão grande, como o português. Por isso, voltar atrás poderia abrir um precedente de deitar por terra o trabalho feito até ao momento. Não é só uma vontade momentânea, tu percebes quando pensas “eu já não sou isto”, ou “já passei esta fase e agora sou outra coisa e outra pessoa”. Por isso acho pouco provável.

Vai atuar em dezembro no Coliseu dos Recreios.

O espetáculo é “Diogo” porque é Luís Diogo.
Infelizmente.

Para o distinguirem do seu irmão Luís Miguel e do seu pai Luís.
Exatamente. Isto dito por uma pessoa de fora ainda soa mais deprimente [risos].

A sua família continua a tratá-lo por Diogo?
Sim, sim. O engraçado é que automatizei tanto isso por parte da família, que o meu cérebro filtra as vozes. Ou seja, se é uma voz da família a chamar-me Diogo, reajo automaticamente. Se oiço um berro a dizer “Diogo” de uma voz que nunca ouvi na vida, automaticamente sei que não é para mim. De facto é curioso. Sou uma espécie de Shazam de nomes, tenho um mecanismo que reconhece ou não se a pessoa é do álbum da família.

E existe alguma espécie de alter-ego, entre o Luís e o Diogo?
Não, não. Isso é que torna tudo ainda mais ridículo. Se ao menos fosse uma espécie de heterónimo, poderia haver um lado pseudo-intelectual que eu pudesse explorar, mas não. Sou exatamente a mesma pessoa, simplesmente tenho duas designações. É quase como aqueles maridos que têm uma vida dupla. É o mesmo gajo, o mesmo idiota, lixa as duas famílias da mesma maneira, só que para uma é o indivíduo X e para outra é o Y. Não há nenhuma utilidade nisto, foi só complicar a minha vida. Chegar à escola, ter sido sempre Diogo para a família, por isso nem me lembrava bem que era Luís até que chego à escola e “tu és o Luís Diogo”. E eu: Luís? Mas nunca fui o Luís. “Ah, mas é o que está no teu BI.” E às tantas criou-se esta bifurcação e tive que escolher. Há pessoas que até escolhem o nome que a família lhes dava. Por exemplo, pode haver um João Pedro que prefere Pedro. Então é o Pedro para toda a gente e a maioria das pessoas não sabe que ele é João — mesmo no mundo do trabalho. Eu fui um pouco preguiçoso e, em vez de combater isso, abracei o Luís. E quando dei por mim claro que o número de pessoas que me trata por Luís é infinitamente maior e então, olha, ficou isto. É um espelho, no fundo, de toda a minha vida, de toda a minha logística e de todas as burocracias em que estou envolvido. É uma péssima gestão que dá numa confusão desnecessária [risos].

E agora, no fundo, é uma espécie de revelação ao mundo de que o Luís também é o Diogo.
Sim, nesse sentido foi útil, sabes? Porque dar nomes a espetáculos é um pesadelo que as pessoas não sonham. Principalmente em Portugal, porque a nossa língua — apesar de ser inacreditavelmente bonita, para nomes de espetáculos e de álbuns musicais, mas é pior para espetáculos, porque na música as coisas soam melhor… Quando um músico tem muito sucesso e muito talento, por exemplo, o Diogo Piçarra… Independentemente do nome que ele ponha ao álbum, as pessoas que o adoram desejam-no a ele, à música dele e ao corpo dele. No meu caso, é particularmente mais difícil que desejem qualquer uma destas. Então o nome dos espetáculos [de comédia] é muito mais fácil que em português soe piroso ou forçado. Em inglês, vês os nomes dos specials da Netflix e aquilo traduzido para português não funcionaria ou não teria interesse. Ter este segundo nome, e como ia revelar um lado mais pessoal e uma série de coisas sobre mim que a maioria das pessoas não sabe e como também não sabem que eu sou o Luís Diogo, chamar “Diogo” ao espetáculo é uma lógica que de repente é fresca. Demorou só 33 anos a ter uma utilidade, o meu segundo nome. Podia ser pior.

Já mencionámos que será um espetáculo mais especial e íntimo, mas consegue dar alguns exemplos concretos de temas que vá abordar?
Consigo. Digo que é muito sobre mim, mas ao falar da minha família também estou a falar sobre mim. Nos espetáculos que fui fazendo, não falava muito sobre a minha intimidade. Tinha uma ou outra história de coisas que me aconteciam, mas falava muito de como é que os outros falam, do que os outros fazem, humor de observação, personagens-tipo, sotaques… Falava pouco sobre mim e principalmente falava pouco sobre coisas realmente graves e íntimas sobre mim. Este espetáculo fala de manhas minhas, da minha educação, de experiências por que passei, manhas dos meus pais, histórias que vivi com eles, histórias com assuntos relacionados com os meus pais já depois de eles terem falecido. Falo, obviamente, do falecimento deles, o que seria não aproveitar isso para comédia [risos]. Falo da minha relação com cada um deles, que são coisas diferentes, o que me passaram em termos de valores… E também do meu lado mais pessoal, nomeadamente de hoje em dia ser pai, e obviamente aí também se desbloqueia uma grande nova pasta na nossa vida. Como é que ser pai me faz entender melhor os meus pais, ou não… O espetáculo tem estas temáticas todas.

Também é uma homenagem à sua família?
Não, é para fazer dinheiro [risos]. Mas não é. Acho que estaria a explorar uma vertente que não existe e que não é verdade. Até porque tenho sérias dúvidas de que, se os meus pais fossem vivos, se faria o espetáculo exatamente como vou fazer. É assim, acaba por ser uma homenagem indiretamente, e seria sempre, no sentido em que eles sempre apoiaram imenso o meu percurso e desejariam que as coisas me corressem bem e que eu fizesse espetáculos o máximo possível. No Coliseu [dos Recreios] então melhor ainda. Infelizmente não viveram para ver o meu primeiro Coliseu, mas certamente teriam gostado. E nesse sentido é uma homenagem indireta. Mas se disser que estou a fazer por causa deles e que é super simbólico, não é o caso. Sinto necessidade de falar da minha vida — como todos os humoristas fazem. E calha a minha vida ser isto, então é sobre isto que falo. 

Há pouco estava a explicar que o facto de só agora se estar a abrir mais no stand-up, a falar mais sobre si, não tinha a ver com nenhum receio específico. Mas agora, enquanto preparava o espetáculo, houve algo que tenha optado por não abordar? Obviamente também é natural que não queiramos desvendar tudo.
Não, até refleti sobre isto no outro dia. No início estávamos todos a descobrir como eram as redes sociais e todos nós púnhamos um bocadinho de tudo, desde o momento em que vamos ao cinema até àquilo que almoçámos. E a partir de uma certa altura, os artistas começaram a ser mais seletivos na maneira de as usar e a ter mais critério. O cidadão comum apegado às redes, digamos assim, ainda coloca um bocadinho de tudo. Eu tornei-me hiper seletivo. Odeio partilhar a minha vida privada nas redes e atualmente não o faço. As minhas redes só têm conteúdos profissionais, de entretenimento, sobre o meu trabalho, até porque acho que é isso que os meus seguidores querem. Mas não é só por isso, é porque prefiro que assim seja.

Mas no contexto de um espetáculo é diferente.
A questão é essa. Ironicamente, custa-me mais falar sobre a minha vida íntima digitalmente, onde não está ninguém ao pé de mim, e é para estranhos que estão à distância; do que falar sobre a minha vida íntima numa sala com três mil estranhos que estão à minha frente. É como se não estivesse a acontecer ou como se não saísse dali. Acho que é mais interessante assim, as pessoas saberem mais sobre mim no espetáculo do que num post.

Vão ser anunciadas mais datas da tour.

Também terá a ver com a questão da efemeridade.
Exato. Apesar de estarem milhares de pessoas a assistir no somatório da tour inteira, é quase como se não tivesse existido e são pequenas idas ao confessionário. Acho que é um bocado como os músicos dizem sobre as suas músicas: não consigo desabafar com os meus amigos, mas se for preciso numa letra ponho tudo aquilo que não consigo dizer a ninguém. Se calhar não falei muito sobre algumas das coisas que falo no espetáculo, com amigos ou a própria família — a que resta [risos] —, mas se for preciso estou em palco com o microfone na mão, as luzes apagam-se e as coisas saem. Porque também são feitas com um propósito que é fazer rir, então há outra solidez naquilo.

Já partilhou algumas das coisas que estarão no espetáculo com os seus familiares?
Sim, lembro-me de que uma que conto testei no batizado do meu primo. E testei mesmo na igreja. Com todo o respeito, a cerimónia não estava a ter o ritmo necessário. Então senti que havia ali espaço para entreter as pessoas que estavam sentadas à minha volta nos bancos da igreja. Então, a meio do batizado, “bem, vocês não sabem o que me aconteceu”. Contei essa história e a minha família gostou. Sinto que trouxe um brilho ao batizado que não estava a ter até ao momento, porque o padre claramente ainda não tinha feito stand-up muitas vezes, e então pensei: isto é capaz de resultar. E essa história está no espetáculo.

Aguardamos para ouvi-la, então. O Luís obviamente tem já uma carreira longa, sólida, estável, consolidada…
São palavras tuas, mas vou aceitar [risos].

O que é que sente que lhe falta fazer?
Em certa medida, não me falta muita coisa. Porque o meu grande objetivo e aquilo que era mesmo primordial para mim atingir era tornar-me um stand-up comedian de dimensão nacional. Ou seja, poder fazer as melhores salas pelo País todo e as pessoas quererem ir ver. Felizmente, isso já tem sido feito ao longo dos anos de forma consistente. Depois podes sempre medir os objetivos, um bocadinho mais à esquerda e um bocadinho mais à direita, há certos projetos que claro que ainda gostaria de vir a fazer, coisas que nem sei ainda que vou querer fazer, mas este era o objetivo primordial. Tendo chegado aqui, o que me falta é continuar a fazer isto. É poder fazer isto durante o máximo de anos possível porque isto sempre foi o meu objetivo e aquilo de que mais gostei de fazer. Portanto, o que falta é daqui a dois ou três anos ter outro espetáculo e daqui a seis ter outro e continuar a conseguir ser interessante e que as pessoas continuem a querer vir ver.

Estava a referir há pouco “O Hotel”. Nesse tipo de projetos mais fora da caixa, tem ideias para continuar a fazer coisas nesse sentido?
Sim, hoje em dia a Internet é uma ferramenta absolutamente inacreditável e que coloca o nosso destino nas nossas mãos — nesse aspeto. A quantidade de barreiras que era preciso superar antigamente para poder colocar um projeto na rua e fazê-lo chegar às pessoas era enorme. Hoje em dia essas barreiras praticamente não existem. Ou seja, desde que tenhas uma ideia e um mínimo de meios, consegues executá-la e que as pessoas a vejam. Depois elas selecionam se gostam ou não. Da mesma forma que surgiu “O Hotel”, certamente surgirão outros projetos do estilo. E tenciono continuar a fazê-los. Acho que, cada vez mais, o caminho é essa a independência. É fazermos os nossos próprios projetos com um controlo editorial a 100%. Isto é uma espécie de chavão conhecido, mas acho que nunca poderemos fazer o nosso melhor trabalho se não gostarmos a 100%, criativamente e editorialmente, do que estamos a fazer. Portanto, acho que a independência cada vez mais é o futuro. E tu vês a quantidade de humoristas e artistas completamente independentes que fazem os seus projetos… Não é que não pisem esses terrenos, mas não dependem dos meios tradicionais. Acho que o caminho será muito por aí. 

Estava a falar do objetivo de daqui a três anos ter um solo, de daqui a seis ter outro. Ao longo dos anos, mudou muito a forma como constrói um texto de stand-up? Ou nem por isso, foi só uma questão natural de maturação?
O processo mudou consoante aquilo que o mercado permitiu que mudasse. Ou seja, antigamente tínhamos muito menos ocasiões de testar material em Portugal. De atuar. Hoje em dia atua-se imenso, felizmente. Acho que até começamos a ter um mercado mais dinâmico do que o tamanho do nosso País. E isso é ótimo.

É bom sinal.
Exato. Antigamente querias testar stand-up, tinhas uma oportunidade por mês para atuar, e às vezes já era em teatros grandes — tinhas de levar um texto que nunca tinhas feito. Hoje em dia, se quiseres, atuas 5 ou 6 vezes por semana em Lisboa, em tudo quanto é spot. Quer seja o Lisboa Comedy Club, que faz um papel e um trabalho importantíssimo, quer seja noites mais pequenas organizadas em tudo quanto é espaço, não só em Lisboa mas em Coimbra, por todo o País. Hoje tens muitas mais oportunidades para testar, para ser melhor, para evoluir. A alteração foi essa. Hoje podes evoluir mais e quando chegas a um solo, o teu material tem obrigação de ser melhor do que aquilo que era há uns anos. 

Vê hoje com melhores olhos o panorama da comédia em Portugal, em relação a quando começou.
Sem dúvida nenhuma, absolutamente. Fico muito contente por ver que isso está a acontecer e por ver tantas pessoas novas com tanta vontade… Gosto muito desse encontro entre os mais experientes e os que estão a começar, de trocarmos opiniões sobre uma paixão que temos em comum, e acho que o panorama tem evoluído imenso e fico muito contente por poder continuar a evoluir desta maneira. Tal como os mais novos estão a beneficiar disso, espero que, enquanto este meio me quiser, possa beneficiar disso também. Mesmo quando já for uma carcaça putrefacta [risos]. Quero continuar.

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