Miguel Barros não precisa de estar em Lisboa para a pintar. Na verdade, algumas das imagens que cria inspiradas na cidade nascem a milhares de quilómetros de distância, no Canadá, onde vive há quase duas décadas. Não procura reproduzir uma rua ao detalhe nem copiar uma fotografia. Pinta aquilo de que ainda se lembra.
Aos 64 anos, o artista português continua a regressar às fachadas, às escadinhas, aos azulejos e, sobretudo, às cores da cidade onde nasceu. “É memória. É saudade”, resume à NiT.
Os tons intensos que aparecem nas telas também não são um acaso. “As cores densas e vibrantes têm a ver com essa saudade profunda que sinto.”
Essa Lisboa reconstruída à distância está agora reunida em “AzulTejo”, a exposição que assinala os 40 anos de carreira de Miguel Barros. A mostra abriu esta terça-feira, 15 de setembro, no MAC — Movimento Arte Contemporânea, em Lisboa, onde pode ser visitada gratuitamente até ao dia 29 deste mês. Reúne 29 trabalhos onde aparecem fragmentos reconhecíveis da capital, embora filtrados pelas memórias do pintor.
A relação com a pintura começou muito antes de imaginar que poderia viver dela. Desde miúdo que as cores lhe serviam para construir uma espécie de universo paralelo.
“Era uma coisa que me encantava e que me levava para outro tipo de sonho. Criava mundos e fantasias. Sempre me fez muito bem criar o meu próprio mundo através das cores”, recorda.
Miguel estudou Arte e Design, no IAD, em Lisboa, e começou a expor profissionalmente nos anos 80. A primeira exposição individual aconteceu nessa cidade em 1986. Só em 2001, porém, é que se decidiu dedicou exclusivamente à pintura.
Pelo meio, a vida começou a levá-lo para cada vez mais longe de Portugal. Viveu em Angola e, mais tarde, decidiu procurar deliberadamente um lugar que fosse o oposto dos países onde tinha passado grande parte da vida.
“Quando saí de Angola, sabia que gostaria de voltar um dia a Portugal, mas não naquele momento. Queria ir para um sítio onde tudo fosse o oposto. Pensei: vou para um país frio, completamente diferente, e quero perceber que efeito é que isso vai ter na minha pintura.”
A escolha acabou por recair em Calgary, uma cidade no sul do Canadá. A adaptação trouxe-lhe temperaturas muito diferentes das que conhecia. “Nós costumamos dizer que o Canadá tem três estações: inverno, julho e agosto”, brinca.
Foi também naquele país que construiu uma parte importante da vida pessoal. É casado desde 2014 com Nuno Barros, engenheiro informático. O casal não tem filhos.
A mudança de continente, porém, teve um efeito curioso no trabalho. Quanto mais longe ficou de Portugal, mais Lisboa parece ter entrado nas telas. Miguel não precisa de colocar um elétrico, o Castelo de São Jorge ou outro postal turístico no quadro para que a associação apareça.
“Posso fazer qualquer coisa inspirada no Canadá, mas as pessoas que conhecem o meu trabalho olham para quatro pinturas e veem Portugal. Veem Lisboa”, conta. Essa continuidade, explica, ajuda-o a “nunca esquecer quem sou, porque sou e quais são as minhas raízes”.
“AzulTejo” nasce desse exercício. O título junta o azulejo ao Tejo, dois elementos que se repetem no imaginário do artista. Em vez de representar uma Lisboa rigorosamente fiel à que existe hoje, Miguel recupera pedaços da cidade que ficaram guardados ao longo dos anos. Há arcos, portas, ruas estreitas, fachadas, miradouros e manchas de azul que tanto podem remeter para o rio como para o céu ou para os azulejos.
Existe outra razão para a exposição ter um peso especial. Quatro décadas depois da primeira mostra individual, Miguel regressa à mesma cidade para celebrar 40 anos de pintura.
Apesar da longevidade, o artista garante que nunca existiu um momento em que tenha pensado abandonar a profissão, nem sequer quando viver apenas dos quadros se tornou mais difícil.
“Nunca tive essa dúvida. Vejo a pintura como a minha profissão, mas também como uma coisa que não consigo deixar de fazer. Mesmo nos momentos mais difíceis, nunca me passou pela cabeça desistir.”
Há nisso, admite, uma certa dose de irracionalidade. “Tem de haver sempre uma loucura saudável para avançarmos e fazermos as coisas acontecer.”
Depois de Portugal, Angola e Canadá, as geografias foram mudando. Lisboa, curiosamente, não. Miguel continua a regressar-lhe através das telas, mesmo quando está do outro lado do Atlântico.
“AzulTejo” pode ser visitada no MAC — Movimento Arte Contemporânea, em Lisboa, até 29 de setembro. A entrada é gratuita.
Carregue na galeria para conhecer algumas das obras de Miguel Barros que transformam as memórias de Lisboa em cores, formas e paisagens.








