Teatro e exposições

“Monumento do pirilau”: a obra mais polémica de João Cutileiro

A instalação de homenagem ao 25 de abril, em Lisboa, continua a gerar debate. O escultor morreu aos 83 anos, esta terça-feira.
O monumento foi inaugurado em 1997.

Morreu o escultor João Cutileiro, aos 83 anos. Durante várias décadas foi um nome prolífico em Portugal, com centenas de obras deixadas em legado — várias delas icónicas e algumas polémicas, como costuma acontecer com os artistas mais geniais.  

É o caso da escultura de D. Sebastião, em Lagos, com que desafiou o Estado Novo, em 1973; mas sobretudo do monumento ao 25 de Abril, que está instalado no alto do Parque Eduardo VII desde 1997. A inauguração aconteceu precisamente no feriado do 25 de abril.

O monumento, que foi encomendado pela Câmara Municipal de Lisboa, foi feito a partir de um pedestal que estava destinado a uma estátua do Santo Condestável. Tem uma forma fálica — como o próprio João Cutileiro reconheceu, por exemplo, numa entrevista ao “Correio da Manhã” — e tornou-se conhecido como “o pirilau” da cidade.

O escultor nunca quis explicar detalhadamente porque é que fez o memorial desta forma — dizendo que a obra representa-se a si própria. Aliás, Cutileiro sempre revelou um certo desconforto em relação a outros artistas que gostam de falar sobre as inspirações das suas peças.

No entanto, num artigo do jornal “Tal & Qual” em 2007, João Cutileiro dizia que achava “graça” ao uso do termo “pirilau” para descrever o seu monumento, “porque é sinal de que há uma grande carência de pirilaus neste País”. E lembrou ainda que “o jato de água do Lago de Genebra tem uma ejaculação muito maior”.

Na mesma reportagem, uma vendedora de panos e toalhas tipicamente portugueses, chamada Idalina Sousa — que tinha uma banca no Parque Eduardo VII —, assumia que não conseguia entender o monumento, nem perceber como se tratava de uma homenagem à revolução.

Por ela passavam os turistas, que lhe perguntavam o que era aquele “amontoado de pedras”, sem ela conseguir dar uma resposta satisfatória. Para Idalina Sousa, podia ter-se feito “uma coisa melhor neste sítio, porque isto não diz nada, nem aqui, nem noutro lugar”.

Tinha 83 anos.

Na altura, a vendedora dizia que os turistas espanhóis eram os maiores apreciadores do memorial, “mas os ingleses e os americanos não, principalmente quando dizemos que lhe chamamos ‘pirilau’. Ficam escandalizados”.

As críticas ao monumento na sociedade portuguesa foram constantes e perduraram ao longo das décadas seguintes — muitas estão publicadas em blogues, antes da era das redes sociais. Em 2009, num texto publicado no “Diário de Notícias”, João Miguel Tavares defendia que o Parque Eduardo VII devia ser todo refeito. Não só por causa deste memorial, mas também por causa disso.

“A cereja em cima do bolo foi o pirilau de homenagem ao 25 de Abril da autoria de José Cutileiro, um escultor com muitos méritos mas que naquela ocasião foi tomado pelo delírio criativo sem que ninguém tivesse tido a clareza de espírito de lhe sussurrar ao ouvido ‘se calhar, não era bem isto’ (por respeito, evidentemente, à ‘liberdade artística’).”

Em 2013, no “Público”, Vasco Pulido Valente escrevia sobre Lisboa e coisas que não “aludem a nada, o pénis de João Cutileiro (salvo seja), tão primitivo e desinteressante como ele mesmo”.

Mais tarde, numa entrevista publicada em 2017 pelo jornal “Sol”, o tema era novamente abordado perante Cutileiro. “O Cristo-Rei também parece um pirilau”, defendeu-se na altura o escultor.

Mais ou menos polémico, João Cutileiro foi um dos maiores nomes da escultura contemporânea portuguesa. Nascido em Lisboa, numa família burguesa antifascista, viveu e trabalhou durante vários anos em Évora, onde manteve o seu atelier até à morte. Em 2018, assinou com o Ministério da Cultura, o município de Évora e a universidade desta cidade, um protocolo de doação do espólio e casa-atelier do artista.

No mesmo ano recebeu a medalha de Mérito Cultural e foi detentor de doutoramentos Honoris Causa pelas universidades de Évora e de Lisboa.

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