Teatro e exposições

Narrativa: o novo paraíso para os amantes de fotografia no centro de Lisboa

O espaço recebe exposições, masterclasses, oficinas e apresentações. É obrigatório para qualquer interessado por fotografia.
O espaço fica junto da Avenida de Roma.

Quando, em 2016, Mário Cruz visitou o Bronx Documentary Center, em Nova Iorque, nos EUA, sentiu-se inspirado para criar um espaço do género em Portugal. O fotojornalista português tinha lá estado para apresentar o seu livro “Talibe: Modern Day Slaves”.

“Fiquei a conhecer o trabalho que eles faziam. Embora seja um conceito diferente e a outra escala, senti que, independentemente disso, era um ponto de fotografia aberto a todos. Algo que não encontrava por cá”, explica Mário Cruz à NiT. 

O fotojornalista começou a organizar as masterclasses Narrativa — uma vez por ano, durante três ou quatro meses, forma um grupo de seis fotógrafos que queiram concretizar projetos autorais para os acompanhar, dando sugestões e formas de valorizar o seu trabalho. Daí nascem “narrativas fotográficas” idealizadas em coletivo.

“Correu muito melhor do que pensava. Em duas edições tivemos mais de 10 distinções. A Narrativa acabou por se tornar quase uma referência nessa área da fotografia. Quem gostava de fotografia documental e queria realizar um projeto, sabia que tinha essa hipótese na Narrativa. Com esse sucesso, achei que poderia dar um passo em frente e ter um espaço.”

Foi assim que, numa antiga loja de móveis junto da Avenida de Roma, no centro de Lisboa, nasceu o espaço físico da Narrativa no início de maio. É o local que acolhe as masterclasses, mas também exposições, oficinas, apresentações ou debates. Há ainda uma biblioteca de acesso livre com mais de 100 livros de — e sobre — fotografia de vários géneros. 

“A Narrativa nasce precisamente com essa missão, de valorizar a fotografia como forma de expressão e comunicação. E estamos a fazê-lo sem qualquer vertente comercial. Não é possível comprar nada na Narrativa. É importante, queremos que a fotografia seja algo de acesso gratuito e aberto a todos.”

No espaço, a receber os visitantes, encontra-se sempre alguém ligado à fotografia, algo que Mário Cruz faz mesmo questão que aconteça. Isso deve-se a “uma grande sinergia entre ex-participantes da Narrativa que agora, no seu tempo livre, se dedicam à abertura do espaço e a acolher as pessoas que por lá passam”.

O espaço recebe debates e oficinas.

O objetivo é mesmo ser um ponto de encontro entre todos os interessados por fotografia. “Numa base diária podemos encontrar um fotojornalista do ‘Público’ que vai lá editar um projeto como estudantes de várias escolas, seja do Instituto Português de Fotografia, seja do IPCI, sejam fotógrafos que já têm projetos e que querem ter algum tipo de feedback e até perceber se podem expor ou apresentar o projeto na Narrativa.”

Entre 18 e 21 de agosto, vão celebrar o Dia Mundial da Fotografia com o Ciclo Narrativa. Serão dias intensos de programação — o grande destaque vai para a presença do fotógrafo italiano Antonio Faccilongo, que vem apresentar a obra com que venceu a História do Ano do World Press Photo, o mais prestigiado concurso de fotojornalismo do planeta. Mais: normalmente, a exposição do World Press Photo (que costuma passar por Portugal), só apresenta duas ou três fotografias de cada trabalho vencedor.

Neste caso, a Narrativa vai exibir cerca de 20 imagens de Faccilongo, pelo que naturalmente permite “uma compreensão muito mais completa do trabalho”. O fotógrafo vem a Lisboa apresentar as fotografias, partilhar toda a sua experiência numa conversa restrita a 10 pessoas — a única atividade com um número limitado de participantes, pelo que será paga — e fazer leituras de portefólio. Em conjunto com Mário Cruz, vai olhar para o trabalho de fotógrafos portugueses e explicar como podem valorizar as suas fotografias.

O Ciclo Narrativa inclui ainda uma conferência referente à FotoEvidence, editora especializada nos livros de fotografia que chamam a atenção para questões de direitos humanos e injustiça social; apresentações de livros; ou debates. Vai haver uma apresentação em torno do projeto KioskZine, de Paulo Pimenta, José Farinha e Daniel Rodrigues. E uma conversa entre três fotógrafas de três campos e gerações diferentes, Patrícia Lombreira, Pauliana Valente Pimentel e Luísa Ferreira.

O espaço de galeria.

Serão ainda exibidos os documentários “Lisboa: Cidade Triste e Alegre”, de João Trabulo; e “Nturudu – Um Carnaval Sem Máscara”, de Arlindo Camacho, gravado na Guiné-Bissau. Nos mesmos dias serão abertas as candidaturas da próxima masterclass da Narrativa — não há grandes dúvidas de que serão preenchidas rapidamente. Mário Cruz diz que o feedback que a Narrativa tem tido nestes primeiros dois meses de vida tem superado as expetativas. As oficinas que vão havendo têm esgotado em poucas horas — e na inauguração passaram por lá mais de 500 pessoas.

Até começar o Ciclo Narrativa, é possível conhecer a exposição “Do Teu Ombro Vejo o Mundo”, do fotógrafo João Silva, vencedor nessa categoria dos mais recentes Novos Talentos Fnac. Conheça todas as iniciativas no site oficial da Narrativa. Há visitas guiadas esporádicas e têm recebido doações espontâneas para a biblioteca, o que promove a tão importante “literacia visual”. 

Além disso, esta “casa aberta para todos” está a conseguir construir um sentido de comunidade. Mário Cruz conta que já há pessoas que vêm a quase todos os eventos que promovem. “Vamos ter cá nomes firmados, mas estamos sobretudo interessados em mostrar os novos nomes da fotografia portuguesa. Mas qualquer fotógrafo, independentemente da idade e da sua qualidade e daquilo que quer explorar, é bem-vindo e tem espaço aqui.”

Um dos próximos passos é promover projetos de cariz social, para aproximar a fotografia de comunidades que, por razões socioeconómicas, não têm tanto acesso. Planeiam começar em breve um jornal comunitário, com a colaboração de jornalistas de vários órgãos de comunicação social, para dar voz a jovens que não têm tanto acesso à cultura. E têm ainda a ambição de irem às escolas que estão nos piores lugares do ranking nacional. “Mas para isso é preciso que a Narrativa continue a existir.”

Como não têm qualquer objetivo comercial ou rendimento, a Narrativa foi aberta com um “investimento pessoal” e um apoio da Fujifilm Portugal. “No próximo ano, não sabemos como é que vai ser, a Narrativa precisa de apoios e mecenas para existir. Teria sempre este tempo de vida precisamente para mostrar que é uma mais-valia para a cultura e que é um espaço necessário.” Pelas reações da comunidade, parece estar mais do que provado.

A Narrativa, que fica no número 60 da Rua Dr Gama Barros, está aberta de quarta a sexta-feira, entre as 14 e as 19 horas. Aos sábados encerra mais cedo, pelas 17 horas.

É um espaço aberto a todos.

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