Teatro e exposições

New Talent: Beatriz Bagulho quer formar a nova geração com os seus desenhos animados

A ilustradora e animadora de 24 anos é um dos dez talentosos finalistas do concurso New Talent.
Beatriz nasceu e cresceu entre artistas

Que Beatriz Bagulho acabasse por se tornar numa artista era quase uma inevitabilidade cósmica. Cresceu rodeada de artistas que nunca a puxaram para o seu caminho, mas que acabariam por influenciá-la. Os avós eram arquitetos. O pai também. A mãe era música. A tia curadora de arte. Enfim, estava-se mesmo a ver o que iria acontecer.

Desde miúda que passava as tardes entre os ateliês e as sessões musicais da mãe. Quase sempre de caderno e lápis na mão, sozinha com os seus desenhos. “Percebi o valor que a arte tem na vida das pessoas e habituei-me a ver o quão exigente uma vida criativa acaba por ser. Quanto sacrifício implica — mas aprendi também a apreciá-lo”, conta à NiT a jovem de 24 anos.

Os desenhos feitos ao som das notas que saíam do cravinho da mãe trouxeram-na até aqui, ao lote de dez finalistas do New Talent, concurso promovido pela NiT, TVI e Santa Casa da Misericórdia de Lisboa pretende eleger os melhores jovens talentos de Portugal na área do lifestyle. O vencedor recebe 10 mil euros para desenvolver um projeto pessoal ao longo do próximo ano. A ilustradora e animadora acredita que o prémio pode ser seu.

Aventurou-se com o violino na mão, instrumento que aprendeu a tocar aos seis anos no Conservatório Nacional. Só que nos intervalos das aulas, não era a música que a ajudava a passar o tempo. “Passava os intervalos a desenhar os outros músicos, as pessoas, o espaço incrível que é o conservatório”, conta. “Desenhar era a forma que eu tinha de brincar. E ainda é hoje em dia.”

A paixão acabou por levá-la até à Escola Artística António Arroio, onde ensaiou o primeiro projeto que viria a servir de guia para os anos seguintes. O projeto final consistia numa coleção de livros de filosofia onde os temas eram desconstruídos — e onde os mais pequenos podiam aprender conceitos através de atividades.

“Apesar do projeto não ter chegado a lado nenhum, foi uma primeira experiência enquanto ilustradora e daí veio muito da base do que eu queria e quero fazer no futuro”, explica a jovem que acabaria por se especializar em ilustração e animação e trabalhar em diversos projetos virados para o público infantil.

Colaborou com a Fábrica das Artes do CCB, também com o serviço educativo do Teatro Nacional de São Carlos; chegou até a ilustrar uma versão da Menina do Mar de Sophia de Mello Breyner. “Acho que a infância tem um papel fundamental na sociedade, trabalhar para e com a infância é muito especial e importante. São eles que vão mudar o mundo. E sempre que trabalho para elas inspiro-me nas minhas memórias e experiências. Quero ajudá-las a tornarem-se mais instruídas, mais cultas, mais curiosas, porque acho que são faculdades e modos de pensar muito importantes.”

Para aperfeiçoar as técnicas, viajou até ao Reino Unido, onde tirou o curso de cinema de animação. Mas enquanto os colegas foram trabalhar para séries e filmes, Beatriz Bagulho decidiu arriscar por um “caminho mais difícil” que, diz, “vai compensar”.

Nunca quis deixar a ilustração. Mesmo antes de finalizar o curso, viajava recorrentemente para Portugal para trabalhar em diversos projetos infantis. “Nunca quis esquecer a ilustração porque acho que os universos estão ligados. Quando penso numa história para um livro, sei que mais tarde poderá servir para uma série ou filme. E este caminho mais independente, onde trabalho como freelancer, tem como objetivo um dia criar o meu próprio estúdio, para que nunca deixe de fazer projetos infantis que misturam várias artes.”

Apesar de ter dificuldade em definir o seu próprio estilo, prefere apelidá-lo de eclético. Assume os traços comuns, mas confessa que tenta sempre adaptar-se às exigências de cada projeto. Além de projetos infantis, tem também colaborado com vários músicos na criação de videoclipes, mas é nas suas curtas-metragens que encontra a sua verdadeira voz.

“São projetos que partem de mim, que falam de valores e perceções em que eu acredito”, explica. Uma delas é a “Corporealities”, feita durante o curso e que aborda “o valor de darmos importância ao nosso corpo”; a outra é a “(In)dividual”, uma viagem surrealista de uma criança durante um exame médico, na qual tenta “descobrir quem é e tenta desamarrar-se das coisas que a prendem”.

É esse o futuro que imagina para si, uma vida onde tenha liberdade total para combinar as suas ideias, variadas técnicas e uma componente didática e educativa. Para isso conta também com o precioso prémio do New Talent.

“Há uma vontade em mim de criar coisas enquanto autora, de partilhar os meus valores e por isso procuro intensamente conseguir apoios e formas de me focar nestes projetos que tenho pendentes”, diz. Um deles aborda a problemática da indústria têxtil massificada, da fast fashion.

“É um filme que está na sua primeira fase e no qual estou a trabalhar com uma equipa de artistas, uma designer, uma argumentista e um compositor.” Juntos, querem criar uma história sobre um rapaz que atravessa o mundo com uma série de roupas, num percurso que acompanha o fabrico e distribuição e “todas as vidas que secruzam com este processo”.

Os dez mil euros do prémio seriam então “um primeiro passo” para dar liberdade a Beatriz e à sua equipa de se poderem focar neste projeto que une ilustração, desenho animado e técnicas têxteis com uso de colagens com tecidos. “Queremos fazê-lo para denunciar e revelar um pouco dos problemas causados por esta grande indústria.”

Veja o vídeo realizado por Beatriz Bagulho para explicar porque é que merece vencer o concurso New Talent deste ano. A partir do dia 3 de dezembro já vai poder votar no seu finalista favorito.

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