Teatro e exposições

New Talent: João Moreira quer quebrar barreiras entre a dança e a interpretação

É um apaixonado pelo teatro, deu nas vistas como dançarino de Conan Osíris e quer criar um espetáculo que junte todos os seus talentos.
O novo espetáculo chega em 2022

No primeiro ensaio antes da aparição no Festival da Canção da RTP, João Moreira e Conan Osíris perceberam que não podiam deixar-se levar pelo improviso. O dançarino imaginou uma performance assente em três momentos, um deles o salto e queda com que abre a interpretação de “Telemóveis”.

Em direto para todo o País, meio mundo ficou obcecado com o tema, o outro meio com o extravagante dançarino. Graças ao esforço conjunto, Conan e João foram eleitos como representantes nacionais ao Festival da Eurovisão. Foi o início de uma reviravolta na carreira do dançarino de 25 anos.

“A coisa escalou muito para além das nossas expectativas. Não estávamos nada à espera”, recorda João sobre o início da parceria entre os dois amigos que, juntos, criaram a performance que despertou a atenção de todo o País. O fenómeno teve outro efeito inesperado na carreira de João, que até então via apenas a dança como um hobby — e o seu foco era mesmo o trabalho como ator.

Dois anos depois, continua a correr Portugal e o mundo graças aos dotes de dançarino, mas cada vez mais quer regressar às origens da interpretação e da criação. E é também por isso que surge como um dos dez finalistas da terceira edição do New Talent, o concurso promovido pela NiT, TVI e Santa Casa da Misericórdia de Lisboa que elege os melhores jovens talentos de Portugal na área do lifestyle — e cujo vencedor irá receber 10 mil euros para desenvolver um projeto pessoal ao longo do próximo ano.

Soube com apenas nove anos que queria ser ator, ao começar a participar nas peças ainda na escola primária. “A minha vida mudou quando mudei de escola e de amigos”, recorda. A par com o teatro, dançava porque gostava, em casa, na escola, nos bailes.

“Dançava para me divertir, para me expressar, mas começaram a dizer que tinha skills acima da média, que dançava melhor do que os outros.” Ao som dos ritmos africanos de Angola e Cabo Verde, era ele, o miúdo branco, que impressionava.

“Achavam piada porque a maioria dos meus colegas eram afrodescendentes, eu dançava com eles, era o branco no meio dos negros”, conta. Guardou o talento de dançarino para os tempos livres porque o que queria era mesmo ser ator.

Formou-se em Realização Plástica de Espetáculo na Escola Artística António Arroio e depois de várias peças amadoras, estreou-se no palco como profissional. “Sabia que queria sempre trabalhar na área do espetáculo. Se não fosse a representar, seria figurinista, aderecista ou cenógrafo”, sublinha.

Em 2013, decidiu sair de Portugal e tentar a sorte em Amesterdão, onde fez provas de admissão para a Academy for Theater and Dance. “Não queria fazer teatro em Portugal, estava muito descontente com as instituições portuguesas.”

O curso de teatro para estrangeiros acabou por não abrir — foi convidado a inscrever-se no curso de dança, que rejeitou —, mas viajou mesmo assim e por lá viveu durante oito meses. Fez várias pós-graduações e pequenos cursos até receber novo convite de Portugal.

Além do teatro, experimentou o cinema, onde trabalhou em várias curtas-metragens. E em 2019 viria a ter o seu primeiro papel como protagonista de um filme, “Errar a Noite”, que fez a estreia no Indie Lisboa em 2020. Mas antes, viria a verdadeira revolução.

No final de 2017, o seu amigo de longa data Conan Osíris lançou o disco “Adoro Bolos”. Seguiram-se os convites para espetáculos e foi aí que João entrou em cena. “Ele falou comigo e decidimos que íamos construir uma apresentação juntos. Ele cantava, eu dançava”, conta.

“Num mês, passamos de uma sala como a Zé dos Bois para o Capitório e ao fim de um ano estávamos a representar Portugal na Eurovisão; meses mais tarde estávamos a fazer o Coliseu. Foram mais de 200 espetáculos em dois anos em que eu transitei de bailarino de freestyle sem grandes noções académicas para coreografar um espetáculo no Coliseu.”

O hobby tinha finalmente conquistado o seu espaço na vida de João, que agora era mais dançarino do que propriamente ator. Ou pelo menos assim o indicavam os trabalhos que lhe chegavam às mãos.

Não houve nenhum êxito maior do que a sua coreografia do tema “Telemóveis”, criada na véspera do Festival da Canção. “Conversámos antes da primeira apresentação e tive umas ideias para tornar tudo mais impactante. Desenvolvi os momentos-chave, o salto e a queda inicial, algo catchy; o momento da flecha e o dead drop final.”

A performance catapultou-o para a fama. Ao lado de Osíris, a sua cara saltou para os memes, para os vídeos de YouTube, foi tema entre humoristas e pessoas comuns. Foi um êxito confuso.

“Foi um desenvolvimento muito grande, mas depois perceber a dimensão da perda do anonimato foi mais difícil. Ver a minha cara pela Internet, deixar de ser desconhecido. Houve uma quantidade de aspetos por vezes deslumbrantes, outras vezes desconfortáveis”, confessa.

Durante os últimos dois anos, a dança foi quem mandou. Os convites começaram a chover, trabalhou com Madonna, Blaya, Dino Santiago. Mesmo sem formação, sentia que a experiência compensava toda essa lacuna. “Parei o meu trabalho em teatro e cinema quase completamente”, nota.

A travagem a fundo provocada pela pandemia foi a oportunidade perfeita para fazer uma pausa e repensar a carreira. Foi também nesses meses de confinamento que João começou a pensar na criação do seu primeiro espetáculo — uma forma de combinar os dois universos num só, da dança e da interpretação.

Com estreia marcada para novembro de 2022 no Theatro Circo, em Braga, encontra-se ainda em fase de pré-produção. É também a próxima grande meta e o projeto no qual irá investir o prémio de dez mil euros entregue ao vencedor do concurso New Talent.

“Chama-se Galafoice, que é uma fusão entre teatro, dança e música original”, explica. “Trata questões de identidade e orientação sexual, de identidade de género. Vem colmatar uma falha muito grande na esfera nacional de representatividade LGBTQI+.”

O nome remete para o fenómeno do fogo-fátuo, “uma explosão de gases em degradação no subsolo”, que “em contacto com o oxigénio criam uma explosão de luz”. Serve então de metáfora a “uma coisa oprimida”, que quando combinada com outras “consegue ter força para emergir e criar algum tipo de luz”.

Apesar de ser o autor da ideia e dos textos principais, Galafoice será um projeto colaborativo que irá incluir artistas como Conan Osíris, Filipe Sambado e Vaiapraia, que darão contributos em forma de texto e de músicas originais para o espetáculo.

O projeto tem também um lado autobiográfico. “É a narrativa de uma personagem desde os seus cinco anos até aos 25, fala da formação de um caráter, de uma identidade, de género, sexual; fala sobre psicologia, trauma, privilégio.”

É na história pessoal com laivos de ficção que João Moreira quer chegar a todo o lado e a todos os que não se sintam representados. “Tem como objetivo a descentralização, quero apresentá-lo nos mais diversos locais de Portugal, chegar ao máximo de pessoas possível, para que possamos criar representatividade para alguém, dar ferramentas de destruição de estigmas, criar espaços confortáveis de identificação.”

Veja o vídeo realizado por João Moreira para explicar porque é que merece vencer o concurso New Talent deste ano. A partir do dia 3 de dezembro já vai poder votar no seu finalista favorito.

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