Teatro e exposições

New Talent: Marco Mendonça, o ator que quer debater a blackface e o racismo na arte

Esbarrou por acaso numa carreira no teatro, revelou-se como autor e quer ganhar o concurso para se lançar a solo.
A paixão tardia pelo teatro não o impediu de ter sucesso

Chegou às provas de admissão da Escola Superior de Teatro e Cinema sem pressão. Sabia que gostava de artes, mas estava longe de ter um plano definido. Decidiu prestar provas de admissão, recebeu o regulamento, leu as letras gordas, pegou na mochila e lá foi.

Marco Mendonça sobreviveu às aulas da manhã, até que alguém lhe perguntou qual o monólogo que tinha escolhido para levar no dia seguinte. “Que monólogo?”, perguntou. “Fiquei petrificado. Não tinha lido essa parte do regulamento e começou a ansiedade, sobretudo porque nesse dia tinha percebido que, ao contrário do que pensava no dia anterior, era mesmo aquilo que eu queria fazer.”

Sem grande conhecimento de arte e de teatro, passou por uma prova de cultura geral que confessa ainda hoje recordar “com vergonha e embaraço”. “Para o monólogo, tive a audácia de procurar textos meus que tinha escrito com 15 ou 16 anos porque seriam mais fáceis de decorar. Tentei decorá-lo até de madrugada, mas não o consegui dizer uma vez de cor. Fui deitar-me a achar que no dia seguinte ia desistir.”

Assim que acordou e ainda na cama, recitou o texto sem falha. “Foi o gatilho que me fez pensar em levantar e ir ao segundo dia de provas”, conta o jovem ator de 26 anos. “É possível que tenha tido a cara de pau de dizer que o texto era meu. Estava tão despreocupado com o ridículo, porque tudo aquilo para mim já era ridículo. Estava rodeado de pessoas preparadas, que sabiam que queriam mesmo aquilo. E eu estava ali só a experimentar.”

Não só sobreviveu à justa às provas como teve a sorte de, nesse ano, terem aumentado as vagas para o curso de teatro. Entrou, formou-se, deixou-se obcecar pela arte — que passou a consumir vorazmente para compensar os tantos anos de atraso relativamente aos colegas — e fez-se ator.

Hoje, é o seu talento para a interpretação e para a criação que o torna num dos dez finalistas do New Talent, concurso promovido pela NiT, TVI e Santa Casa da Misericórdia de Lisboa pretende eleger os melhores jovens talentos de Portugal na área do lifestyle. O vencedor recebe 10 mil euros para desenvolver um projeto pessoal ao longo do próximo ano.

O caminho teve início ainda na vila de Songo, em Moçambique, terra de muitos portugueses. Filho de pai português e de mãe moçambicana, começou a participar nas peças de teatro da escola primária. Aos 12 anos deixou o país, a escola e os amigos para trás e mudou-se com a família para Portugal.

“Foi um bocadinho complicado, deixei os meus amigos de infância para trás, mas nada de fora do habitual. Não fui um adolescente deprimido por causa disso”, recorda. Refugiou-se no ginásio, a sua obsessão antes do teatro, onde convivia com novos amigos e trabalhava o corpo.

Marco Mendonça é um dos atores de “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”

As memórias dos espetáculos e das peças feitas em pequeno regressaram no momento de escolher a área a seguir no secundário. “Sentia dentro de mim que queria seguir algo relacionado com a arte, só não sabia bem qual a vertente. Sabia que não queria pintura, arquitetura, design.”

Candidatou-se à Faculdade de Letras, mas foi após alguma pesquisa que descobriu a Escola Superior de Arte e Cinema. Decidiu experimentar, pediu dinheiro aos pais para se inscrever e arriscou, mesmo tendo a noção de que tinha “visto muito pouco teatro”.

Durante as provas percebeu que era mesmo a carreira de ator que lhe interessava. Esqueceu o ginásio e deixou-se absorver pela obsessão com o teatro. “Tentei ver todas as peças, fazer teatro, peças, castings, workshops. Tudo para compensar todos esses primeiros anos em que o teatro não fez parte da minha vida.” 

Enquanto aprendia tudo o que precisava para ser ator, ao mesmo tempo que devorava teatro e cinema, escrevia para si próprio. Não era sequer algo de novo. Já o fazia desde a adolescência, uma espécie de escape de expressão.

“Sempre gostei de escrever, muitas vezes fazia-o porque não me conseguia expressar na minha vida social. Escrevia poemas que sonhava transformar em canções”, conta. “À medida que comecei a estudar teatro e a ler mais peças, senti que podia começar a escrever para o formato de teatro. Fui fazendo as minhas primeiras experiências, todas inacabadas, muito ingénuas, muito curtas.”

Em 2018 juntou-se a dois colegas de curso, Eduardo Molina e João Pedro Leal, e com eles assinou “Parlamento Elefante”, a peça que venceria a bolsa de criação Amélia Rei Colaço. “A primeira vez que escrevi uma peça em co-autoria tive logo a oportunidade de apresentá-la ao público”, refere sobre a peça que esteve em cena na sala estúdio do Teatro Nacional D. Maria II.

Dois anos depois, em 2021, lança novamente em co-autoria outro espetáculo, “Cordyceps”, que esteve em digressão de norte a sul do País. Como ator, a vida também lhe tem corrido bem: é um dos protagonistas de uma das peças do momento, “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”. Agora só falta outra meta: aventurar-se a solo.

Ora esse projeto está já em andamento e, explica Marco, toca num tema “difícil de digerir” que envolve racismo, as artes e uma realidade cada vez mais premente. “O blackface é considerada a primeira manifestação artística original nos Estados Unidos, cujas práticas teatrais eram, até então, todas importadas da Europa”, explica.

“É engraçado e triste que a primeira forma de arte se baseie na ridicularização de uma minoria, no disfarce grotesco e na pantomina de uma fatia da sociedade que sofria ainda com a escravatura, a inexistência de direitos, a opressão.”

A tradição de ter atores brancos a pintarem a cara de negro e a caricaturarem africanos e afrodescendentes acabaria por ser exportada para outros países, onde “entraram no entretenimento, na televisão e no teatro” e até “em tradições locais”.

Será para concluir o projeto até 2023 que Marco quer agarrar os 10 mil euros de prémio do concurso New Talent, sobretudo para poder, numa primeira fase, investigar a fundo a história e tradição do blackface, nos Estados Unidos e em Portugal.

“Quero perceber como é que o racismo se infiltra na arte e na cultura, antes sequer de ser discutido como um problema gravíssimo da humanidade”, frisa. O espetáculo que imagina será feito para “ferir suscetibilidades”, até porque se Marco se sente desconfortável ao discutir o tema, pretende precisamente “causar essa carga desconfortável” nos espectadores.

Veja o vídeo realizado por Marco Mendonça para explicar porque é que merece vencer o concurso New Talent deste ano. A partir do dia 3 de dezembro já vai poder votar no seu finalista favorito.

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