Teatro e exposições

New Talent: Mariana Duarte Santos, a pintora de murais que se inspira em séries antigas

É viciada em rock, trocou a música pela pintura e, além de colorir as cidades, quer revisitar séries e filmes de culto com a sua arte.
Mariana adora pintar nas alturas

Sonhava tocar guitarra como Jimi Hendrix, dar concertos como os seus ídolos — os heróis do rock dos anos 70. Aprendeu a tocar guitarra, piano, bateria, mas o som nunca saía de forma natural. Trocou a palheta pelas canetas e, à falta da destreza inata para a música, dedicou-se a desenhar os rostos e os discos dos rockers.

Entre os rabiscos durante as aulas e os retratos que ia fazendo no diário gráfico onde desenhava família, amigos e situações, a técnica apurou-se. Se até então não achava que os seus desenhos eram particularmente mais interessantes do que o dos outros miúdos, rapidamente percebeu que, ao contrário da música, o traço era algo que lhe saía de forma natural.

Para prová-lo, Mariana Duarte Santos tem agora um portfólio recheado de obras e sobretudo de murais gigantes espalhados pelas ruas de Portugal. É também essa arte que a coloca como uma das dez finalistas do New Talent, concurso promovido pela NiT, TVI e Santa Casa da Misericórdia de Lisboa pretende eleger os melhores jovens talentos de Portugal na área do lifestyle. O vencedor recebe 10 mil euros para desenvolver um projeto pessoal ao longo do próximo ano.

Embora a família apontasse a outros planos, a jovem de 25 anos sabia que, na sua cabeça, não havia espaço para outro caminho que não o das artes. Estudou na Escola Artística António Arroio e depois formou-se em Artes Plásticas no Ar.Co. Mas quando terminou os estudos, já tinha uma longa lista de trabalhos no currículo.

Aos 14 anos já enviava trabalhos para Austrália e Noruega, através de propostas freelance encontradas na Internet. “O primeiro foi uma ilustração de um livro infantil para uma editora”, recorda. Saltou da ilustração para os retratos, até começar a desenvolver um estilo próprio.

Apostou nas gravuras realistas e, sem perceber bem porquê, os trabalhos foram crescendo, de tal forma que a prensa que tinha disponível no Centro de Arte e Comunicação Visual deixou de ser suficiente. Chegou a recorrer a um rolo como os que são usados para alcatroar estradas para poder criar as gravuras.

“Pareceu-me um passo lógico passar para os murais, que era uma área que não conhecia de todo”, recorda. Quando se cruzou com um concurso da EDP para a criação de um mural, concorreu. E ganhou.

“Não pagava muito mas era mais pela experiência de fazer algo em ponto grande. Ganhei e acabou por ser o meu primeiro”, conta do trabalho que nasceu no Fundão. Apesar das cores, os seus murais são quase sempre em tons de pretos e cinzas, quase sempre imagens realistas, normalmente inspiradas em motivos locais.

Apesar de já ter em seu nome quase duas dezenas de murais, nem todos têm o mesmo significado, até porque nem sempre tem liberdade total para escolher o tema ou a imagem a criar. Foi essa liberdade que teve no mural criado em Tomar.

“Há alguns murais que me passam ao lado, mas este foi um dos que me marcou mais. Primeiro pelo desafio de ter que o fazer em dois dias, mas mais do que isso, pude escolher a imagem, que normalmente é imposta e pedem-me sempre para usar imagens de arquivo da terra ou do local”, conta. “É sempre uma coisa muito específica e tem a ver com coisas que não têm necessariamente muito a ver comigo.”

Trata-se de um retrato saído diretamente do arquivo de mais de duas mil imagens de filmes e séries, neste caso de “The Outer Limits”, a série de ficção-científica dos anos 60.

O mural de Tomar

Apesar de recente — começou a pintar murais apenas em 2019 —, é um trabalho que além de “dar visibilidade”, permite-lhe sair “da solidão do atelier”. “Gosto da pressão de ter que concretizar uma coisa gigante em pouco tempo, normalmente numa ou duas semanas. É um desafio.”

Só que antes dos murais, Mariana tinha outra obsessão: séries e filmes obscuros de décadas passadas. Foi com a lendária “Twilight Zone” que tudo começou. “Gosto da estética dos film noir e há muitos filmes e séries com essa estética nos anos 60 e 70. Comecei a fazer recolha de still frames, de imagens perdidas e descartáveis, porque passam no ecrã num milésimo de segundo e vão-se embora.”

As gravuras inspiradas nestes mais de dois mil frames que recolheu já deram origem a várias exposições, dentro e fora de Portugal. “São imagens merecedoras de vida, bonitas, interessantes. Gosto de tirá-las do contexto original e apresentá-las num novo, para que possam transmitir outras histórias”, nota.

É também esta a base do grande projeto que quer concretizar com a ajuda dos dez mil euros do prémio do concurso New Talent. Quer criar “um livro de artista” que parte de um ator desconhecido e de toda a sua filmografia.

“Tirei mais de duas mil frames ao longo de 150 filmes e séries, depois fiz uma seleção de cerca de 200, neste caso de um ator específico”, explica sobre o processo. A ideia passa por criar um livro de gravuras assente no ator, nos seus filmes e nos atores que com ele contracenam.

“A vida deste ator foi retratar as vidas imaginadas das personagens. E como ele é desconhecido, isso cria uma linha ténue entre o que é realidade ou imaginação”, nota. “Quero que se questionem se o ator existiu na realidade, se as personagens são reais. É uma intercalação de vidas que podem ou não ser imaginadas.”

Veja o vídeo realizado por Mariana Duarte Santos para explicar porque é que merece vencer o concurso New Talent deste ano. A partir do dia 3 de dezembro já vai poder votar no seu finalista favorito.

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