Teatro e exposições

New Talent: Rita e as ilustrações que são o desabafo de uma geração

Através das suas personagens, faz um autorretrato seu e dos jovens. Aos 25 anos, Rita Romeiras é finalista do New Talent.
Rita tem 25 anos e é ilustradora

Nunca gostou da perfeição, de retratos precisos, realistas. Quando pegava no lápis e no papel, preferia “inventar” do que “fazer o que já lá estava”. Foi assim que Rita Romeiras acabou por encontrar Rita Comedida, o nome da personagem que criou na adolescência e que hoje é a estrela dos seus comics.

Foi à sua boleia que a ilustradora lisboeta de 25 anos garantiu um lugar no lote de dez finalistas da quarta edição do New Talent, o concurso promovido pela NiT, TVI e Santa Casa da Misericórdia de Lisboa para eleger os melhores jovens talentos de Portugal na área do lifestyle. No final, o vencedor irá receber 10 mil euros para desenvolver um projeto pessoal ao longo do próximo ano.

Como quase todas as crianças, Rita adorava desenhar. O hábito acompanhou-a até à adolescência, passada a ouvir música e de lápis na mão. O que se revelou mais complicado foi o momento de decidir o que seguir no futuro. O que queria ser.

“Os meus pais vinham ambos de economia e gestão e isso influenciou-me a escolher economia no secundário. É aquela coisa de os pais também gostarem que os filhos façam o mesmo que eles”, conta à NiT. “Experimentei e correu mal.”

Traduzindo: Rita reprovou no décimo ano e ainda ponderou voltar a tentar, mas à última hora, decidiu mudar para artes. Entrou na António Arroio e tudo pareceu encaminhar-se no bom sentido.

“Só nessa altura em que reprovei é que comecei a pensar a sério na escolha. Percebi que era muito melhor poder usar a minha criatividade. Era muito melhor desenhar algo do que desenhar gráficos”, explica. Acabaria por ir para Belas Artes, onde se formou em pintura e ilustração.

Pelo caminho, foi também experimentando outras artes, da tapeçaria à cerâmica. Acabava sempre por voltar ao que lhe era mais familiar: o lápis e o papel.

Trouxe sempre ao seu lado a personagem que criara durante a adolescência, a Rita Comedida. “Ficou com esse nome porque, numa ocasião, estava eu a ser tímida, e alguém me chamou isso. O nome ficou-me na cabeça e quando a criei, achei que podia ter piada, até porque muito do que escrevo não é assim tão comedido.”

A personagem é “uma espécie de autorretrato”. “É uma representação de algo que sou eu”, explica. Da ansiedade, à angústia, às preocupações mundanas, Rita comenta um pouco de tudo.

“São desabafos que acabam por ser comuns a muita gente. O que escrevo e desenho nos comics é algo com que as pessoas se relacionam facilmente, sobretudo as da minha idade, da minha geração.”

É uma espécie de pequena janela para o que lhe vai na cabeça, na sua e de muitos outros jovens. “Gosto que haja uma confluência entre a minha vida e o que desenho. Os meus pensamentos, muitos deles passam para o papel quando tenho algo a dizer, quando os quero perceber.”

Entre as preocupações mais prementes, suas e da sua geração, está a precariedade. Apesar da paixão, a ilustração ainda não lhe paga as contas. Para o fazer, tem que trabalhar numa empresa de revisão de conteúdos.

“A precariedade é um problema enorme no ramo artístico. Sempre foi. É algo que temos que estar preparados para aceitar andes de nos metermos nisto.”

Ainda assim, não há nada que a faça demover do caminho. “Gosto de pintar, da parte plástica da coisa, sabe bem interagir com as tintas. No papel, a experiência não é tão rica, mas acho que o que tiro prazer nisso, é mesmo poder dizer as coisas e, quando as mostro, sentir que não estou sozinha.”

Por agora, está a preparar uma instalação para a Mostra Nacional de Jovens Criadores, que chega em dezembro. Mas a médio prazo, sonha com os dez mil euros do prémio do concurso New Talent. Se os ganhar, já existe um plano bem traçado.

“Agora que acabei a faculdade, já não tenho o ateliê. Estava num que entretanto também fechou e a minha casa é muito pequenina”, conta. “Gostava de poder criar um ateliê não só para mim, mas para mais pessoas. Um ateliê partilhado onde possa convidar e colaborar com outras pessoas. Fazer dele um espaço de troca de ideias. Sinto que isso faz falta.”

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