Teatro e exposições

New Talent: Sofia, a atriz que quer salvar o planeta — uma peça de cada vez

Aos 22 anos, a jovem diz que não quer aplausos, prefere mudanças. É uma das dez finalistas do concurso New Talent.
A jovem de Oliveira de Azeméis é um dos novos talentos

Recorda-se sobretudo de não ser uma criança como as outras. As composições criavam sempre mundos fantásticos, “demasiado complexos para a cabeça de uma criança”. Quando lia, fazia questão de criar uma voz diferente para cada personagem. O teatro já lhe estava no sangue, ainda que não se apercebesse disso.

Hoje, aos 22 anos, Sofia Castro sabe exatamente o que quer e para onde vai. De tal forma que é também uma das dez finalistas da quarta edição do New Talent, o concurso promovido pela NiT, TVI e Santa Casa da Misericórdia de Lisboa para eleger os melhores jovens talentos de Portugal na área do lifestyle. No final, o vencedor irá receber 10 mil euros para desenvolver um projeto pessoal ao longo do próximo ano.

Aos onze anos já fazia teatro amador e agarrava o primeiro papel numa peça onde encarnava “uma prostituta brasileira”. Nada no guião falava sobre o passado da personagem, mas isso não a impediu de, na sua cabeça, preencher a biografia da personagem. “Fazia de uma empregada brasileira que claramente vinha de um mundo da oferta do corpo. Ela nunca se prostitui durante a peça, mas sempre senti que houvesse esse background.”

A peça foi um sucesso, mas em casa, os pais preocupavam-se. “A minha mãe só me confessou isso mais tarde, porque quando eu era miúda, questionava coisas que não eram normais. Qual era o meu motivo para viver? O que estou a fazer aqui? Isso acompanhava-me muito, já desde a primária. Eram coisas complexas demais para a idade, era um bocadinho assustador.”

A peça, em si, correu bem, e foi a primeira de muitas. “Foi uma coisa muito precoce, mas eu também não sou uma pessoa normal (risos).”

Sofia nasceu em Oliveira de Azeméis, onde viveu até aos 18 anos. Fez ballet, tocou violino, mas foi o teatro amador, que começou a fazer com 11 anos, que a apaixonou.

“Eu nunca quis ser atriz, tinha presente todas as dificuldades e a precariedade da profissão. Mas não queria ser mais nada além disso”, recorda. “Quando tive que decidir, lembrei-me que, quando a minha mãe queria que eu estudasse, a chantagem era sempre feita à volta da minha saída do teatro amador. Percebi então que era isso que fazia sentido na minha vida.”

Aos 16, começou a tirar um curso noturno de teatro em Aveiro. Dois anos depois, sufocada pela “farta de oferta cultural” da terra onde nasceu, pegou nas malas e foi para Lisboa. Podia ter sido Londres ou outra cidade.

“Eu queria fazer um curso lá fora, mas a minha mãe insistiu que tentasse por cá. Eu não queria. Se lá fora é difícil, cá é muito mais. Acabei por ficar porque se é difícil, é aqui que é preciso estar.”

Estudou, interpretou os clássicos, de Chekhov a Brecht — e a sua relação com o teatro foi mudando. “O que me apaixona no teatro? É uma opinião que mudou ao longo do tempo.”

“No início achava que ia mudar o mundo, uma visão super lírica. Percebi que não funcionara. Depois aproximou-se uma ideia de revolução. Não de mudar as coisas, mas de fazer com que outros percebam que algo está errado”, explica. “Não acredito no teatro como forma de entretenimento, mas como forma de revelação e de expressão artística. Um gesto político, não político das politiquices, mas de ser sempre uma tomada de posição.”

Com essa convicção, gravitou naturalmente para a criação das suas próprias peças. No bolso tem “Cortes Invisíveis”, para a qual ainda procura um espaço para estreia. Mas é no regresso às origens que está o seu próximo grande amor, aliado a uma sempre presente preocupação com o ambiente e a sustentabilidade.

“Estou a escrever, em coletivo, uma peça para a mata de Oliveira de Azeméis — onde também estou a criar uma cooperativa, porque fazem lá falta projetos culturais”, conta. “

Na pandemia começou a plantar árvores na Serra da Freita, que foi devastada por um incêndio. Sonhava com a possibilidade de mobilizar as pessoas para a reflorestação. Às tantas, voltou a cruzar-se com “Alice no Pais das Maravilhas” — e teve uma ideia.

“É um projeto com o qual tenho sonhado e no qual tenho trabalhado, que permita talvez a maior coisa que um ser humano possa fazer, que é reflorestar uma serra inteira.” A salvação da serra poderá estar na sua outra paixão, o teatro.

“Quero criar um projeto itinerante, onde cada cena tem lugar num local diferente da serra. Quando se salta para nova cena, percorre-se o caminho a pé”, conta. “Em cada cena há um ato de reflorestação, que cabe apenas aos atores, mas também ao público. E a cada cena, vamos saltando para sítios novos, num percurso circular. A ideia é que vamos avançando pelas zonas não reflorestadas, até que a serra volte a ser como era.”

É precisamente neste projeto que planeia aplicar os dez mil euros de prémio, caso os ganhe. Tudo isto faz parte dos seus desejos, mas também da visão que tem para o teatro em si.

“Quando estou a criar alguma coisa, não a crio para que seja bonita ou para receber palmas. Não quero que me batam palmas. Há coisas que não devem ser aplaudidas, que não devem sequer existir”, explica. “E esta performance é sobre sustentabilidade. Não é algo que mereça ser aplaudido — é algo que merece ser mudado.”

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