Quando Pedro Sá da Bandeira chegou à Colômbia, em 2022, levava a expectativa de continuar a trabalhar como fotojornalista. Tinha experiência internacional, uma carreira que já o tinha levado dos jornais portugueses aos corredores do Congresso norte-americano e vários anos de trabalho em Moçambique. Ainda assim, em Bogotá, as portas não se abriram.
Grande parte deste percurso pelo mundo deve-se também à carreira diplomática da mulher, Catarina Arruda, de 56 anos, que o fez viver em diferentes países ao longo das últimas duas décadas.
Em vez de guardar a máquina fotográfica, decidiu comportar-se como se continuasse a ter uma redação à espera das imagens no final do dia. Saía de casa e caminhava durante horas pelo centro da capital colombiana, procurando histórias, pessoas e momentos que ajudassem a compreender uma cidade onde viviam milhões de pessoas.
“Ninguém conhecia o meu trabalho. Então pensei: vou trabalhar. Comecei a fotografar diariamente como se estivesse a trabalhar para um jornal ou para uma organização”, conta à NiT o fotojornalista de 56 anos. “Também foi uma forma de combater a solidão. A fotografia é a minha maneira de me relacionar com o mundo e de tentar interpretá-lo.”
Durante os quatro anos seguintes, Bogotá tornou-se um enorme projeto documental. Parte desse arquivo pode agora ser visto em “Não Somos Ilhas”, exposição patente na Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA), em Lisboa, até 10 de outubro. A entrada é gratuita.
Embora tenha viajado por várias regiões da Colômbia, foi sobretudo o centro de Bogotá que fascinou Sá da Bandeira. Ali encontrou uma espécie de versão concentrada do país: estudantes, funcionários públicos, vendedores ambulantes, migrantes venezuelanos, comunidades indígenas deslocadas e movimentos políticos cruzavam-se diariamente nas mesmas ruas.
“Quando chegava ao centro de Bogotá, parecia que entrava no coração da sociedade colombiana. É um lugar muito rico politicamente e também do ponto de vista étnico. Há pessoas vindas de todas as regiões do país”, explica.

A localização também ajudava. É naquela zona que estão concentrados os principais poderes políticos colombianos e várias universidades. Sá da Bandeira viveu ainda no país durante a chegada ao poder do primeiro governo de esquerda da história recente da Colômbia, liderado por Gustavo Petro.
A mudança política levou diferentes movimentos sociais para as ruas. Protestos, manifestações LGBT, organizações indígenas e grupos de esquerda passaram pela objetiva do português. “Tudo isso acabou por se traduzir numa enorme riqueza fotográfica. Passei horas e horas a palmilhar o centro de um lado para o outro. As fotografias da exposição são um pouco a minha vivência daqueles quatro anos.”
Bogotá não foi apenas um cenário fotogénico. Viver na capital significou também perceber as dificuldades de uma metrópole gigantesca e profundamente desigual. Pedro encontrou uma sociedade muito estratificada, marcada por diferenças económicas visíveis e por uma mobilidade social que considera reduzida. Ao mesmo tempo, acompanhou as consequências de décadas de conflito armado, que empurraram habitantes de zonas rurais para as grandes cidades.
Um desses fenómenos tornou-se particularmente visível através das comunidades indígenas deslocadas. Durante a estadia do fotógrafo, grupos Embera chegaram a instalar-se no Parque Nacional de Bogotá depois de fugirem das suas regiões devido à violência. Sá da Bandeira encontrou também comunidades indígenas nas várias viagens que fez à Amazónia colombiana, onde chegou a dormir em aldeias e a acompanhar modos de vida muito diferentes dos da capital.
Visitou a Amazónia sete ou oito vezes, mas decidiu deixá-la de fora desta exposição. Inicialmente, pensou apresentar um retrato de toda a Colômbia. Acabou por perceber que tentar encaixar um país tão diverso numa única mostra retiraria força ao trabalho.
“A Colômbia rural é completamente diferente da urbana. Percebi que tinha um trabalho forte, sobretudo ao nível da cor, e uma vivência muito profunda de Bogotá, principalmente do centro. Decidi concentrar a exposição apenas na cidade.”
O resultado não pretende ser um postal turístico da capital. Há pessoas, gestos, manifestações, profissões, tradições e cenas banais do quotidiano. São precisamente esses momentos aparentemente pequenos que interessam ao fotógrafo.
Sá da Bandeira define-se mais como documentarista do que como fotógrafo preocupado em encontrar uma imagem bonita. Há temas que persegue em praticamente todos os países onde vive: religião, tradições, profissões em desaparecimento e, sobretudo, a forma como as pessoas ocupam e se relacionam com o lugar onde vivem. “Tenho uma curiosidade muito grande em conhecer o mundo sem ser como turista. Quero perceber como é que as pessoas vivem em sociedades diferentes.”
Do “Record” ao Congresso dos Estados Unidos
Essa curiosidade começou muito antes da Colômbia. Pedro Sá da Bandeira trabalhou no “Record” antes de sair de Portugal, em 2002, acompanhando a sua mulher. Uma decisão que acabaria por transformar a vida do casal numa sucessão de mudanças de país.
Nos Estados Unidos, trabalhou no “The Hill”, jornal especializado na cobertura do Congresso norte-americano. Estava em Washington durante a presidência de George W. Bush e fotografou alguns dos momentos políticos que antecederam a invasão do Iraque, além dos trabalhos da comissão criada para investigar os atentados de 11 de Setembro.
Depois seguiu-se Moçambique, onde trabalhou sobretudo para a agência Lusa, além de colaborar com organizações não governamentais e projetos de cooperação internacional. Fotografou durante dois anos as consequências das cheias e acompanhou episódios muito mais violentos, como a explosão de um paiol de munições, que o levou a fazer reportagem em hospitais.
Quando regressou a Portugal, encontrou um mercado bastante diferente daquele que tinha deixado. Chegou em plena crise da Troika e, apesar de trazer 16 anos de carteira profissional, recorda ter sido tratado como estagiário quando procurou trabalho num jornal.
O percurso ainda teve uma mudança inesperada. Antes de voltar a sair do País, tentou um projeto agrícola numa quinta da mãe. Mais tarde, em 2014, mudou-se para a África do Sul e tirou um diploma de cozinha. Chegou a montar um quiosque nos Açores durante dois verões e ainda hoje ajuda uma irmã que trabalha na restauração quando é preciso. O percurso ainda teve uma mudança inesperada. Antes de voltar a sair do País, tentou um projeto agrícola numa quinta da mãe.
A fotografia, porém, nunca desapareceu. Em cada mudança de país, Sá da Bandeira volta a começar. Primeiro observa, depois anda e, por fim, fotografa. Foi esse método que levou para Bogotá. Sem encomenda, sem redação e sem saber se aquelas fotografias alguma vez seriam expostas, passou quatro anos a construir um arquivo da cidade.
A oportunidade surgiu através de um convite da Sociedade Nacional de Belas Artes. Depois de ter apresentado anteriormente um trabalho sobre Moçambique, propôs trocar a ideia inicial de uma exposição sobre toda a Colômbia por um mergulho numa única cidade.
“Não Somos Ilhas” pode ser visitada na Galeria Pintor Fernando de Azevedo, na Sociedade Nacional de Belas Artes, na Rua Barata Salgueiro, em Lisboa. Está patente até 10 de outubro, de segunda a sexta-feira, entre as 12 e as 19 horas, e aos sábados, das 14 às 19 horas. A entrada é gratuita.
Carregue na galeria para ver algumas das fotografias de Bogotá que Pedro Sá da Bandeira reuniu em “Não Somos Ilhas”.








