Teatro e exposições

Nova exposição no CCB tem um quadro de Paula Rego com uma pintura misteriosa no verso

Será exposta junto a "O Impostor", obra comprada pelo Estado este ano, no museu do Centro Cultural de Belém, em Lisboa.
Quadro é uma crítica direta a Salazar.

“Um foco em Paula Rego” é a nova exposição do Museu de Arte Contemporânea – Centro Cultural de Belém, em Lisboa. A mostra, que inclui oito obras da artista, vai estar patente até 10 de setembro.

O principal destaque da exibição no antigo Museu Berardo é um quadro sem título, que nunca tinha sido exposto, e que inclui outra pintura da artista no verso. Delfim Sardo, curador da mostra e administrador do CCB, confessou à agência Lusa (citada pelo semanário Expresso) não saber se a obra no verso, também sem nome, “terá sido rejeitada por Paula Rego”.

O que se sabe é que é uma pintura de uma figura feminina, que o CCB revela numa fotografia exposta na exposição. O curador crê tratar-se de uma criação dos anos 50, pois é semelhante ao tipo de desenhos que realizou quando estudava em Londres.

Outro dos motivos de interesse é “O Impostor”, quadro de Paula Rego datado de 1964. A pintura a óleo e técnica mista foi adquirida pelo Estado por 400 mil euros à família da artista em janeiro e retrata de forma crítica António de Oliveira Salazar.

No início do ano, o ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva justificou a sua compra pelo interesse que a obra de Paula Rego reúne e justamente para expor um dos seus quadros neste novo espaço museológico.

A obra em causa foi escolhida por ser uma referência — tanto pela autora como pelo tema que retrata. “Seria impensável ter um novo museu de arte contemporânea [instalado no Centro Cultural de Belém] que não tivesse uma peça significativa da Paula Rego pertencente ao Estado Português”, sublinhou o ministro da cultura, citado pela mesma fonte, sobre a aquisição que irá ficar em depósito já no ex-Museu Berardo.

A 27 de dezembro, o Governo aprovou a extinção da Fundação de Arte Moderna e Contemporânea — Coleção Berardo (FAMC—CB). A sua gestão e posse passou para a Fundação Centro Cultural de Belém.

A célebre pintora nasceu em Lisboa a 26 de janeiro de 1935 e morreu aos 87 anos, a 8 de junho de 2022, em Londres. Paula Rego é uma das artistas portuguesas mais reconhecidas internacionalmente e, no final de 2021, foi mesmo considerada uma das 25 mulheres mais influentes do mundo pelo “Financial Times”.

A escolha da obra adquirida pelo Estado terá sido feita a partir de sugestões da família de Paula Rego, com base numa proposta da curadora da Coleção de Arte Contemporânea do Estado (CACE), Sandra Jurgens. Com esta aquisição, a CACE passa a ter dez criações da pintora.

“Sem desvalorizar as outras, esta peça é muito maior, com outro significado e relevância para estar exposta num museu de arte contemporânea com um perfil internacional”, sublinhou Pedro Adão e Silva sobre o novo projeto que será desenvolvido ao longo do ano.

O quadro “O Impostor” tem 179 por 158 centímetros e foi pintado em 1964. Fez parte da primeira exposição de Paula Rego em Portugal, que aconteceu em Lisboa, na Sociedade Nacional de Belas Artes, em 1965.

Para Nick Willing, um dos filhos de Paula Rego, “é uma honra que uma obra muito importante” da artista, realizada no Albert Street Studio, em Londres, no Reino Unido — país onde a autora se radicou na década de 70 — seja integrada numa coleção do Estado Português. Anteriormente mostrada “em muitos países, é uma honra que fique agora em Lisboa, num dos museus mais importantes de Portugal e a nível internacional”, disse Nick Willing. “Se fosse para Espanha ou para os Estados Unidos da América não teria o mesmo significado.”

No quadro, o chefe do Governo da ditadura aparece retratado como um polvo. “Esta imagem é uma das críticas mais diretas ao regime que ela fez na década de 1960”, salientou o filho de Paula Rego. “Naquela altura, a minha mãe fez muitas obras em estilo figurativo a criticar Salazar. A polícia política estava sempre de olho nela, quando vinha a Portugal.”

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