Teatro e exposições

Nuno Artur Silva foi “um comediante infiltrado no governo” e agora está de volta aos palcos

O conceituado autor tem um novo espetáculo de stand-up, “Onde é que eu ia?...”, que vai ser apresentado em breve em Lisboa.
Nuno Artur Silva fez 60 anos a 5 de outubro.

Argumentista e criador, foi o grande responsável pelas Produções Fictícias, trabalhou com grandes nomes da comédia, dirigiu o Canal Q, nos últimos anos foi administrador da RTP e secretário de estado do Cinema, Audiovisual e Media. É, acima de tudo, autor. Falamos de Nuno Artur Silva que, acabado de celebrar 60 anos, anunciou esta terça-feira, 18 de outubro, o seu regresso aos palcos.

Entre 12 e 22 de janeiro de 2023, vai apresentar o espetáculo “Onde é que eu ia?…” no Teatro São Luiz, em Lisboa. Ao seu lado estará o amigo António Jorge Gonçalves, que estará a desenhar em tempo real enquanto Nuno Artur Silva reflete de forma cómica sobre os seus tempos no governo, a experiência na RTP, a sua carreira profissional, mas também acerca de temas globais que são particularmente relevantes no mundo de hoje. Os bilhetes estão à venda por 15€.

A NiT falou com Nuno Artur Silva sobre o (esperado) regresso ao stand-up — ainda que o próprio admita que o espetáculo não seja exatamente de stand-up. Leia a entrevista.

Quando apresentou um espetáculo pela primeira vez, foi convidado para administrador da RTP. Quatro anos depois, quando se preparava para regressar a ele, foi convidado para ser secretário de estado. Não receia que agora volte a ser convidado para um cargo importante?
[risos] Quer dizer, digamos que há aqui um certo indício de probabilidades. Mas o que posso dizer é que desta vez vou fazer o espetáculo. Desta vez é mesmo para fazer. Já está tudo marcado… É verdade que da outra vez também estava, mas desta vez não voltarei atrás.

Como é que a sua experiência no governo, enquanto secretário de estado, influenciou o espetáculo?
Há aqui uma soma de experiências que, julgo eu, podem ser interessantes como material do espetáculo. Para quem passou grande parte da sua vida a trabalhar do lado da autoria, como comediante e com comediantes, a fazer muitas vezes humor político, ter oportunidade de passar para o lado de lá, ter o outro ponto de vista, foi uma oportunidade única. Agora que regresso à minha função inicial, agora que sou novamente autor, acho que pode ser interessante confrontar esses olhares. É disso que parte, mas o espetáculo não fala só da passagem pelo governo. Mas é inevitável falar sobre isso. O espetáculo não é só sobre mim, é também um olhar sobre um tempo e uma série de acontecimentos.

Quando passou para o outro lado, para a política, também encontrou muito material de comédia?
Desempenhei as minhas funções, quer na RTP, quer no governo, da melhor maneira que o consegui fazer. Desse ponto de vista, o autor e o humorista estavam em segundo plano — não eram eles que estavam em função. Mas a verdade é que serei sempre, na base, um autor. E o olhar, o lado mais cómico, estava sempre… eu tinha sempre um bloco de notas onde ia anotando algumas observações que me pareceram interessantes sobre aquilo que ia vendo. Isso também se vai refletir aqui, sem dúvida, é aliás sobre isso. Julgo que não só terei sido o primeiro comediante a ir para o governo — pelo menos comediante voluntário —, como julgo que também serei o primeiro membro do governo que sai para fazer um espetáculo de comédia. É uma curiosidade que poderá ter alguma originalidade em si. O que vou fazer é um retrato do que vi nos últimos tempos, no governo, mas também antes, na RTP, e na minha vida: o que é isto de ser argumentista e autor e comediante em Portugal? Isso já estava um pouco no primeiro espetáculo que cheguei a fazer e que agora, passados estes oito anos, acrescento a experiência que tive nos últimos tempos e aquilo que o mundo mudou, os desafios novos do humor… Julgo que irei falar sobre tudo isso.

Com tantas histórias, experiências e temas relevantes, foi fácil fazer uma seleção e criar o texto?
Sim, ainda estamos a fechar… Nós falamos de stand-up comedy, mas é uma simplificação. Porque, desde logo, vamos ser dois em palco. Sou eu e o António Jorge Gonçalves a desenhar em tempo real. Portanto, isto não é exatamente um espetáculo de stand-up nem um solo — como eu digo, é um solo acompanhado. O que já de si é uma contradição. Mas digamos que eu vou dizendo uma série de considerações, que espero que tenham graça, e o António Jorge vai fazendo o contraponto e desenhando outras coisas que poderiam passar pela minha cabeça e pela cabeça dele. Partimos muito deste fundo: qual é o lado cómico disto? Tudo tem um lado cómico e tentar encontrá-lo nestas coisas, por vezes muito sérias, que vão acontecendo na vida de cada um e na vida pública, e com esta peculiaridade de eu ter sido um comediante infiltrado no governo [risos]. 

Independentemente do governo e da RTP, quando começou a trabalhar enquanto autor, argumentista, na área da comédia, imaginava que aos 60 anos iria estar a fazer stand-up comedy?
Não! Era uma coisa que queria fazer desde o princípio, mas nunca… Não sou um ator nem um comediante profissional. Se há coisa que poderei ser é autor. E um autor que escreve para [alguém]. Ou seja, um argumentista. Essa é a minha base de trabalho. Agora, face àquilo que hoje é muito comum, numa sociedade performativa que é a nossa — em que todos os autores e escritores têm, digamos, os seus concertos ao vivo [risos]. Porque participam em debates, fazem conferências, colóquios, intervenções, então este meu ato performativo é um prolongamento da minha atividade de escritor e de autor. É nesse sentido que o faço. Não sou um stand-up comedian, de maneira nenhuma. Agora, já há muito tempo que gostava de fazer isto que eu chamo de uma espécie de conferência ilustrada. Faço-o com o António, temos uma cumplicidade muito grande, já trabalhamos juntos há muito tempo, fizemos banda desenhada, teatro, espetáculos… Só ganho a coragem de ir para a frente porque o tenho do meu lado.

Falando dessa coragem que pode ser necessária para ir para o palco, para fazer algo performativo, tinha esse receio e pouco à vontade? Por isso é que não aconteceu mais cedo? Ou, na verdade, foi porque a prioridade era, lá está, escrever, ser autor e argumentista?
As coisas foram acontecendo noutro sentido durante toda a minha vida. Acabei por desempenhar funções… Nas Produções Fictícias era autor, depois passei a diretor criativo — aquilo que se pode designar como showrunner, julgo que terei sido o primeiro em Portugal a desempenhar essa função — e depois as Produções Fictícias cresceram, eu passei a diretor geral, depois veio o Canal Q, e fui sempre assumindo os cargos. E foi ficando para trás essa vontade de poder… Aqui e ali fui fazendo algumas conferências e sempre que possível introduzia uma nota de humor, era quase inevitável. Agora, não vejo isso tanto como coragem, podemos dizer que é uma grande irresponsabilidade [risos]. Mas se há coisa que ganhei com o tempo, foi a liberdade de fazer o que me apetece. Sobretudo depois de ter estado num cargo de tão grande responsabilidade e num período tão difícil, há aqui uma vontade enorme de poder voltar à liberdade total, de estar por minha conta. É isso também que este espetáculo é.

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