Teatro e exposições

Nuno Artur Silva: “Quero trabalhar como autor. É disso que sinto falta”

Depois de ter estado na RTP e no Governo, o argumentista volta aos palcos para um espetáculo de stand-up que não é exatamente isso.
Nuno Artur Silva tem 60 anos.

Argumentista e criador, foi o grande responsável pelas Produções Fictícias, trabalhou com grandes nomes da comédia, dirigiu o Canal Q, nos últimos anos foi administrador da RTP e secretário de estado do Cinema, Audiovisual e Media. É, acima de tudo, autor. Falamos de Nuno Artur Silva que acabou de celebrar 60 anos e anunciou em outubro o regresso aos palcos.

Vai apresentar o espetáculo “Onde é que eu ia?…” no Teatro São Luiz, em Lisboa, entre 12 e 22 de janeiro de 2023. Irá subir ao palco acompanhado pelo amigo António Jorge Gonçalves, que estará a desenhar em tempo real enquanto Nuno Artur Silva reflete de forma cómica sobre os seus tempos no governo, a experiência na RTP, a sua carreira profissional, mas também sobre temas globais que são particularmente relevantes no mundo de hoje. Os bilhetes estão à venda por 15€. A NiT falou com Nuno Artur Silva sobre o (aguardado) regresso ao stand-up do comunicador. Leia a entrevista.

Vai voltar aos palcos em janeiro, no Teatro São Luiz, em Lisboa, para apresentar “Onde é que eu ia?”. Quando apresentou um espetáculo pela primeira vez, foi convidado para administrador da RTP. Quatro anos depois, quando se preparava para o retomar, foi convidado para ser secretário de estado. Equaciona receber um terceiro convite do genéro?
Bom, o cargo de Selecionador Nacional é sempre uma boa opção [risos]. Depois deste Mundial não sei o que vai acontecer, portanto, estou aberto a todas as possibilidades. Sim, de facto, tem havido um padrão, e uma das curiosidades é ver o que acontece desta vez. No entanto, uma coisa posso dar como certa: este espetáculo vou fazer. 

A ideia que levou à criação deste espetáculo ter-se-á transformado ao longo destes anos, em parte, devido aos dois cargos que exerceu.
Sim, também houve outras coisas… Não sei se ouviram falar, houve uma pandemia que também teve o seu peso, mas o que aconteceu foi que, num espaço relativamente curto de tempo, muita coisa mudou no mundo, em Portugal, e na minha vida em particular. Permitiu-me olhar para todos estes acontecimentos de pontos de vista muito diferentes. Desde o momento em que trabalhava na minha própria empresa, na área do humor e da ficção e do espetáculo; depois passei pela experiência de ir pela primeira vez para uma grande empresa pública, a RTP, que não é qualquer empresa; e depois voltar por pouco tempo e novamente ter um desafio num governo em circunstâncias que depois a pandemia veio alterar radicalmente. Portanto, o que me parece é que é um novo espetáculo onde se juntou aquilo que já era o espetáculo anterior a estas experiências. Há vários pontos e ângulos cómicos, ou pelo menos interessantes, que justificam ter aqui esta dissertação.

Usou a palavra “dissertação”, o espetáculo foi apresentado como sendo de stand-up, mas o Nuno também já disse que não é exatamente de stand-up…
Porque não sou exatamente um comediante. Primeiro, é um falso solo — tal como o primeiro já tinha sido. Da primeira vez que tinha feito um espetáculo deste género, chamava-se “Nuno Artur Silva. A Sério?”, fi-lo com os Dead Combo e o António Jorge Gonçalves. Também aí não era stand-up comedy, era uma espécie. Agora, novamente com o António, é uma espécie de solo acompanhado. Portanto, vou falar um pouco, espero eu, tendo alguns pontos de vista que espero que possam ter graça, sobre tudo o que foi acontecendo nos últimos tempos a nós todos, mas visto dos vários ângulos e pontos de vista onde fui estando. No governo, fora do governo… E o António Jorge vai desenhando em tempo real aquilo que não estou a dizer mas que faz contraponto e aquilo que eventualmente me vai estar a passar pela cabeça mas não digo. Portanto, é esse jogo que poderão encontrar [risos].

Mas fica a meio caminho entre uma palestra e o stand-up puro e duro?
Não, espero que não seja uma palestra! Espero que seja divertido. Pelo menos tenho essa expetativa, de que os ângulos possam ter o seu lado cómico. Foi sempre uma coisa em que pensei nos sítios muito sérios, de muita responsabilidade, onde fui estando. E às vezes em situações difíceis que têm a ver com as nossas vidas e as coisas que temos de resolver… Em todo o lado há sempre um lado cómico. Como dizia o escritor Dinis Machado, de quem eu gostava muito, em qualquer coisa, seja a mais trágica ou o pequeno desastre caseiro ou as grandes tragédias, há sempre um olhar cómico sobre isto. Há sempre um ângulo que, às vezes não é cómico, mas é pelo menos curioso. E são esses ângulos que tentei, com o meu bloco de notas, ir tirando e vou tentar contá-los aqui.

E imaginava encontrar esses ângulos cómicos nestes cargos tão sérios e neste contexto difícil por que todos passámos?
Imaginava [risos]. Estive a trabalhar muitos anos na área da comédia, e é sempre possível encontrar comédia mesmo nos momentos mais difíceis. Às vezes é precisamente a gestão… É o tempo. Às vezes é preciso passar algum tempo para que a comédia possa acontecer. A comédia é sempre um distanciamento em relação àquilo que aconteceu. É uma forma de olhar mais de fora, ou um tempo depois. Às vezes é demasiado cedo para ter graça. Agora se calhar já podemos fazer algumas piadas sobre a pandemia, por exemplo.

O que o surpreendeu mais quando foi para o governo? Imaginava que haveriam aspetos cómicos, mas talvez não soubesse como seria o dia a dia. Houve alguma coisa que o tenha surpreendido e que de que vá falar no espetáculo?
Eles são como nós… [risos]. Não, a primeira coisa é que não há nenhuma surpresa. Embora as circunstâncias anormais que todos vivemos também o foram para quem estava no governo. Uma pandemia que põe toda a gente em casa e com tudo aquilo que aconteceu, isto num governo ainda é visto como uma situação mais anormal. Houve momentos em que me senti duplamente a viver uma espécie de distopia. Não só o facto de estarmos numa pandemia, mas de estarmos numa pandemia e eu estar no governo. Parece que é um sonho, “eh pá, esta noite sonhei que estava no governo e havia uma pandemia”. É quase isso. Para mim foi. Porque, normalmente, quem vai para o governo são pessoas que têm atividades mais próximas da área governativa. Sei lá, juristas, engenheiros, economistas…

E com percursos mais partidários.
Exato, que eu não tinha, de todo. Portanto, um argumentista — ainda por cima com sintomas de comediante — no meio do governo, rodeado de engenheiros e economistas e juristas por todo o lado, e ainda por cima numa situação de pandemia, é qualquer coisa tipo filme de ficção científica. Agora, foi muito interessante. Do ponto de vista sério, do que é a atividade política e a responsabilidade governativa; e foi interessante do ponto de vista pessoal, da experiência para quem sempre viu de fora os governos e para quem sempre fez muitas vezes humor com a política, ter esse olhar do outro lado. E começar, se calhar, a olhar para o lado de fora com o mesmo olhar também.

Percebo que diga que pareça um filme de ficção científica… Neste momento, na vida real, temos ainda o caso do presidente Zelensky, da Ucrânia, em circunstâncias ainda mais surreais, diria eu.
Sim, eu de facto também fui o comediante no governo português, salvaguardada muita distância… Porque não era o primeiro-ministro e felizmente não tivemos nenhuma invasão russa.

Com todas estas experiências, histórias, possíveis ângulos e com a base do espetáculo original, foi fácil definir uma linha? Perceber o que fazia sentido entrar ou não?
Sim, quer dizer, para já, neste momento em que estamos a falar, o espetáculo não está fechado. Porque, como acontece muitas vezes em comédia, até à última da hora estamos sempre a acrescentar, a tirar, a pôr, e portanto há ali uma margem que depois nos próprios espetáculos pode flutuar, não é? Mas não, não foi difícil. Sei de que é que queria falar, isto passa por vários temas, tem também a ver com perceber o que é que poderá ter mais interesse ou não para as pessoas. Porque isto não é sobre mim. Se fosse, não tinha interesse nenhum. É sobre como eu, pelo facto de ter estado nestes sítios, posso ter um olhar interessante sobre eles. Ou pelo menos ter alguma graça nesse olhar. É a expetativa. Nunca sabemos se é verdadeira até ao momento em que estreia, as pessoas poderão gostar ou não. Mas a expetativa que tenho é fazer um relato do que foi acontecendo a todos nós a partir daquela posição. Vai desde os hábitos e as mudanças, sobre o que é hoje ver a televisão ou estar nos telemóveis, como é que nos informamos… até à experiência política, à vida mais quotidiana sobre o que está a acontecer hoje com as pessoas, feito a partir do meu olhar e sobretudo dos sítios por onde fui passando nestes últimos tempos. É contar o que acho que possa ser mais interessante ou cómico sobre isto tudo.

Não sendo o Nuno um comediante puro e duro, também testou material?
O primeiro teste é sempre feito com o António Jorge, que é o meu grande parceiro há muitos anos e que é a pessoa com quem tenho trabalhado em inúmeras coisas. Neste caso, mais uma vez, foi o primeiro ouvinte. Confesso que algum do material fui testando nos próprios locais com as pessoas, à medida que fui observando as coisas. O humor vinha muitas vezes do momento, reuniões que tínhamos, situações que presenciávamos… E eu tomava nota se achava que tinha potencial. Às vezes comentava isso com as pessoas que estavam a trabalhar comigo. É um bocadinho a deformação profissional. É-me quase inevitável ter esse olhar… Desde miúdo que vou tirando notas de coisas que sei que poderão ter interesse mais tarde para eu próprio desenvolver noutros contextos. 

E o facto de ter tido uma carreira longa, antes de chegar agora aos palcos em nome próprio…
O próprio título do espetáculo tem a ver com esse conceito. Esta coisa de que estamos sempre a ser interrompidos por qualquer coisa. No meu caso, comecei por querer escrever comédia — e escrevi durante muito tempo — mas depois passei a uma posição de diretor criativo. Hoje, é o equivalente português ao showrunner — o argumentista que toma conta dos projetos, que às vezes escolhe os atores, que trabalha com eles, que faz produção. Portanto, com os tempos fui-me afastando um bocadinho daquilo de que gosto mais de fazer que é a parte da escrita. Não que não goste das outras partes, porque gosto, mas afastei-me bastante. E depois ainda me afastei mais quando passei a ser, sei lá, empresário e depois tudo e mais alguma coisa. Depois passei para diretor de canal, fui para administrador da RTP, e depois o governo… Foi ficando lá para trás a atividade inicial que é aquela de que gosto muito. “Onde é que eu ia?” é um bocadinho um regresso àquilo que é a minha base, onde me sinto mais à vontade, que é ter as ideias e escrevê-las. Também para mim foi uma coisa que sempre adiei… Aconteceram outras coisas e depois comecei a lançar outras pessoas, a trabalhar com comediantes e atores novos…

Mas sempre com a ideia de um dia voltar…
Sempre com a ideia de que “tenho de parar e voltar”. E, agora, finalmente, está decidido. Podem convidar-me para o que quiserem. Mas é depois do espetáculo [risos], não agora. 

Tendo em conta tudo aquilo que já fez, e esse caminho de distanciamento e agora de regresso, o que é que sente que lhe falta fazer?
Isto. Ou seja, falta-me trabalhar em projetos mais pessoais. Aquilo que quero agora é tentar encontrar condições para realizar os projetos em que sou mais o que era no início de tudo — que é um autor. 

Tem ideias específicas?
Para já, este espetáculo. E, depois, tenho ideias que gostava de desenvolver, desde para o audiovisual… Tenho um ou dois livros que vou fazer, portanto, é sentir que é agora ou nunca. Este é o momento em que tenho de juntar toda a experiência que fui desenvolvendo, tudo o que possa ter aprendido, e fazer aquilo que quando era novo queria fazer [risos]. Que era, no fundo, escrever — e tentar criar condições para realizar… Mas, atenção, gosto muito da ideia de trabalhar com outras pessoas. Quero fazer isto criando grupos e trabalhando em conjunto, como faço agora aqui com o António Jorge. Sempre me senti muito bem… Acho que aquilo que faço melhor é ter as ideias e trabalhá-las em grupo com outras pessoas e poder fazer desde séries de televisão a programas, peças de teatro, livros com desenhadores, letras para canções… O que gosto é sempre trabalhar com os outros. Mas trabalhar como autor. É disso que sinto falta.

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