Teatro e exposições

O artista que recebeu 72 mil euros para criar uma obra — e entregou uma tela em branco

Jens Haaning explica que criou algo “10 ou 100 vezes melhor” do que era suposto. Batizou-a de “Agarra no Dinheiro e Foge”.
A tela em branco tem uma explicação

Aos 56 anos, o artista dinamarquês, Jens Haaning tornou-se conhecido pelas obras que confrontam a política, a arte e a sociedade. Num dos seus projetos mais famosos, reuniu numa tela notas verdadeiras que, acumuladas, equivaliam ao salário anual médio de um dinamarquês. Repetiu a ideia mais tarde, desta vez com o salário anual médio de um austríaco. E deveria tê-lo feito novamente — não fosse Haaning um artista à procura de quebrar todas as regras.

Foi através de um convite formal que aceitou a proposta do Museu de Arte Moderna Kunsten, na cidade dinamarquesa de Aalborg, para recriar essas mesmas peças. Ao contrário de tintas ou outros materiais, Haaning precisava de dinheiro vivo, notas de euros, para concretizar a obra, um encargo que o museu aceitou.

Foram-lhe então entregues cerca de 72 mil euros a título de empréstimo, para que pudesse preencher as telas. Só que no dia da chegada das obras ao museu, os responsáveis repararam que elas estavam vazias. Quando questionaram Haaning sobre o sucedido, o dinamarquês tinha uma resposta pronta.

A nova obra chamava-se “Take the Money and Run” — ou Agarra no Dinheiro e Foge — e tinha como objetivo superar todo o conceito anteriormente idealizado. “Decidi fazer um novo trabalho para a exposição, em vez de exibir os dois antigos trabalhos feitos há 14 e 11 anos, respetivamente”, respondeu Haaning.

Incrédulo com a indignação do museu, o artista explicou que as novas telas “se baseiam e dão resposta ao conceito da exposição e às obras que deveriam ter sido exibidas”. A mensagem escrita enviada por Haaning ao museu a justificar-se está agora anexada às telas que, mesmo assim, foram colocadas nas paredes.

Contudo, os responsáveis do museu não ficaram satisfeitos e mostraram não ter problemas em recorrer às vias judiciais para reaver o dinheiro que, neste caso, ficou no bolso de Haaning.

A obra que deveria ter sido replicada

“Percebi, pelo meu ponto de vista, que podia entregar-lhes uma obra muito melhor do que eles haviam imaginado”, revelou à “CNN”. “Não vejo isto como um roubo. Criei uma peça de arte que talvez seja 10 ou 100 vezes melhor do que a que estava planeada. Qual é o problema?”

Não é dessa forma que os responsáveis do museu olham para o conflito, já que além dos 72 mil euros, pagaram também mais de 1.300€ a título de honorários e como compensação pela despesa com as molduras e a entrega.

Haaning riposta e explica que esse dinheiro não seria sequer suficiente para compensar o custo do trabalho, seu e da sua equipa. “É sempre melhor quando trabalho com exposições fora da Dinamarca. Os museus dinamarqueses esperam que seja eu a investir, na esperança de que eles um dia me comprem alguma coisa.”

Do museu chegou um ultimato: o dinheiro deverá ser devolvido na totalidade até janeiro, data em que a exposição termina. Caso isso não aconteça, fará entrar um processo contra Haaning nos tribunais dinamarqueses.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

Novos talentos

AGENDA NiT