Ainda nem sequer começou, mas já é um dos eventos mais polémicos do ano. O MEO Commedia a La Carte Fest, marcado para 29 de outubro a 1 de novembro, em Lisboa, perdeu vários artistas nas últimas semanas, alegadamente, por causa da presença de Jerry Seinfeld, cabeça de cartaz.
Segundo o que o “Expresso” avançou esta terça-feira, 8 de setembro, o futuro do festival de humor tem gerado dúvidas e o cancelamento total terá mesmo sido equacionado pelos organizadores — tal como a hipótese de manter o evento apenas com o comediante norte-americano.
No entanto, manter o festival, convidar novos nomes para o cartaz e processar os artistas que desistiram será a estratégia que ganhou força numa reunião entre os responsáveis pelo evento, realizada na segunda-feira.
Criado pelos Commedia a La Carte, grupo de humor de improviso formado por César Mourão, Ricardo Peres e Carlos M. Cunha, o festival é coproduzido pela Last Tour Portugal e pela Aquele Abraço. A primeira edição foi anunciada em abril, com Jerry Seinfeld como principal nome internacional. O comediante norte-americano, conhecido pela série “Seinfeld”, que criou com Larry David, vai atuar a 1 de novembro na MEO Arena, naquela que será a sua estreia em Portugal e a única atuação na Europa em 2026.
A contratação de Seinfeld já tinha sido apresentada por César Mourão como um dos grandes objetivos do projeto. Em junho, no podcast “Humor à Primeira Vista”, do “Expresso”, o humorista explicou que o convite tinha sido feito há cerca de dois anos. Revelou ainda que Seinfeld aceitara atuar em Lisboa por considerar especial a oportunidade de vir a Portugal.
Na altura, o cartaz incluía nomes como Herman José, Inês Aires Pereira, Cebola Mol, Cuca Monga, Carolina Deslandes, Bárbara Tinoco e Tatanka, além de outros artistas das áreas da comédia, música e artes visuais.
O problema surgiu com as posições públicas de Seinfeld sobre o conflito entre Israel e a Palestina. O humorista, que é judeu, manifestou apoio a Israel depois dos ataques de 7 de outubro de 2023 e chegou a deslocar-se ao país com a família, onde se encontrou com familiares de reféns israelitas. Em 2024, afirmou ainda o seu apoio às Forças de Defesa de Israel e, em junho deste ano, voltou a provocar críticas quando, depois de lhe pedirem que dissesse “Free Palestine” (“Palestina Livre”, em português), respondeu: “[A Palestina] Não existe.”
Foi este episódio que levou vários artistas portugueses a abandonar o festival. O espetáculo “Tributo Pop”, que reunia Carolina Deslandes, Tatanka e Bárbara Tinoco, e o concerto dos Cuca Monga foram os primeiros a ser retirados da programação, a 4 de setembro. Na altura, não foi apresentada uma justificação para os cancelamentos. A organização limitou-se a anunciar que estava a trabalhar em novos espetáculos e garantiu o reembolso dos bilhetes.
O espetáculo “O Palhaço Escultor”, de Pedro Tochas, também foi cancelado sem que o artista tenha apresentado publicamente uma explicação. Vhils, por sua vez, confirmou que não participaria no festival depois de pedir que o seu nome fosse retirado do cartaz.
A polémica ganhou outra dimensão no sábado, 5 de setembro, quando Inês Aires Pereira e os Cebola Mol, dupla formada por Eduardo Madeira e Filipe Homem Fonseca, anunciaram que também não iriam participar. Inês Aires Pereira foi a mais explícita sobre os motivos. A atriz afirmou que um dos nomes do festival “defende insistentemente ideias e atos” que considera indefensáveis e acrescentou que não queria “relativizar ou normalizar um genocídio”. Em resposta a seguidores, explicou ainda que nem todos tinham conhecimento das posições do humorista quando aceitaram participar.
Os Cebola Mol não mencionaram Seinfeld diretamente, mas acompanharam o anúncio com uma imagem de uma melancia, símbolo associado à solidariedade com a Palestina. “Celebraremos justiça, liberdade e alegria numa próxima oportunidade”, escreveram.
A organização mantém, para já, nomes como Herman José, Clarice Falcão, Matilde Breyner, o projeto Rebenta a Bolha (que junta César Mourão, Vasco Palmeirim, Pedro Ribeiro e Vera Fernandes), Jerry Seinfeld e o grupo Imagina (também com César Mourão, que se vai apresentar ao lado de Fábio Porchat, Gustavo Miranda e João Vicente).
Os bilhetes para o espetáculo continuam disponíveis, com preços entre 67€ e 247€.








