Teatro e exposições

Do primeiro fio à grande escultura: como foram montadas as Valquírias de Joana Vasconcelos

A artista tem duas obras expostas no Norteshopping até 2 de setembro. A NiT acompanhou a criação da exposição.
Para ver até setembro

A hora de fecho chega, os últimos clientes vão embora e o ritmo abranda, mas não termina. Nunca há silêncio total e ausência de vida num centro comercial, mesmo durante a noite. Quando as luzes diminuem de intensidade e a maior parte das lojas desce os gradeamentos, começa toda uma nova aventura.

A NiT acompanhou o segundo e terceiro dias de montagem da exposição de Joana Vasconcelos no Norteshopping, no passado fim de semana, e nem vai acreditar em tudo o que acontece antes de as “Valquírias” se mostrarem em todo o seu esplendor ao público do centro comercial de Matosinhos.

A “Mary Poppins” foi montada logo no primeiro dia, 16 de julho, mas não se pense que ficou logo pronta. A equipa da artista faz um trabalho muito minucioso e tem atenção a detalhes que escapam ao olho menos treinado do visitante comum. Tudo tem que estar perfeito e para isso há três pessoas com a responsabilidade de garantir que não há um cabo com tensão a mais ou que a estrutura não é colocada cinco centímetros acima ou abaixo do suposto.

É por volta da meia-noite que começa toda a azáfama do segundo dia. Há outra equipa com cerca de quatro elementos que trata da parte mais técnica, desde a montagem da estrutura que suporta a escultura até aos ajustes dos cabos ou o que seja necessário para garantir o sucesso da montagem.

Aqui, os números são impressionantes. Cada uma das peças pesa mais de 200 quilos, têm uma dimensão superior a sete metros e para prendê-las no ar foram usados cerca de 300 metros de cabos. Isso quer dizer também que toda a montagem levou três dias e perto de 30 horas.

Voltando ao início desta segunda noite de trabalho, rapidamente a equipa técnica leva para a praça central do Norteshopping a estrutura de alumínio que irá suportar a “Royal Valkyrie”. Vem dividida em quatro retângulos que rapidamente são aparafusados de forma a criar um só, gigante e dividido em várias partes que irão suportar cada braço da obra.

Toda a montagem é minuciosa

Em menos de uma hora fica tudo pronto, mas falta ainda toda a parte invisível do trabalho. É preciso que um dos especialistas escale até ao telhado do edifício, passe cordas, cabos e tudo o que é preciso para levantar e suportar a estrutura. Ao mesmo tempo, revêem-se os planos iniciais, as plantas, esboços e cálculos para perceber se tudo está correto e quais são as melhores formas para que tudo fique seguro.

Enquanto isso, a equipa diretamente ligada a Joana Vasconcelos aproveita para dar alguns retoques em “Mary Poppins”. Aqui é necessário reajustar os cabos e a estrutura para que o ar condicionado não faça a peça girar, enche-se um pouco mais algumas das partes com esferovite para que as formas sejam as corretas, retira-se as proteções de papel que embrulham os pendentes mais delicados e penteiam-se — sim, literalmente, com um pente de cabelo — as franjas para fiquem impecavelmente colocadas.

Tudo isto é um trabalho minucioso, vai-se ao detalhe, conferem-se as fotografias de exposições anteriores para garantir que está tudo como a artista idealizou. Não há margem para erros e mesmo quando parece que tudo está bem é necessário reavaliar, olhar para a peça desde o primeiro piso, desde o segundo, de vários ângulos. Nada pode falhar.

Pouco falta para as três da manhã quando a estrutura da segunda Valquíria começa finalmente a ser levantada do chão. São precisos todos os braços possíveis para ajudar na tarefa, bem como as duas máquinas com plataformas elevatórias que auxiliam na montagem.

Mais de uma hora depois ainda não pode dizer-se que esta tarefa esteja terminada e por isso decidem em conjunto que o melhor é não montar a obra esta noite. É que só é possível trabalhar até às 8 horas e a peça não pode ficar a meio. Ou seja, não faria sentido começar a montar para depois ter que desmontar a tempo da abertura do centro comercial.

O nascer da exposição

O segundo dia de montagem começa um pouco mais cedo, por volta das 23 horas e nota-se logo uma dinâmica diferente. Há mais movimento e mais coisas a acontecer. São logo trazidas todas as máquinas e as peças necessárias para montar a escultura.

Ao contrário da “Mary Poppins”, a “Royal Valkyrie” é insuflável. Isso quer dizer que duas ou três embalagens relativamente pequenas chegam para trazê-la. Vem devidamente acondicionada, envolta em plásticos e papéis de proteção que rapidamente são retirados para que se desenrolem as peças.

A partir daqui é preciso encher de ar cada uma das peças com uma máquina específica e montar os motores que garantirão que a escultura não se esvazia durante as semanas que aqui estará. Tudo parece correr bem até que surgem os imprevistos.

Os motores afinal não estão a funcionar como deveriam e rapidamente as peças perdem ar, algo que não pode, de forma alguma, acontecer. O movimento de pessoas que até ali parecia ritmado começa a ficar frenético: é preciso encontrar uma solução rapidamente.

Pode ser que a ordem dos motores esteja trocada, que os fios não estejam a funcionar corretamente, estejam mal ligados ou qualquer outro problema. Sobe-se um pouco o corpo central da peça enquanto se procura, sem êxito, resolver a questão.

Passava da uma da manhã quando, depois de várias tentativas, foi necessário chamar um especialista na área dos insufláveis. Apesar da hora tardia — e de estar, certamente, a dormir —, apareceu em poucos minutos e rapidamente resolveu a questão.

Pelo meio, o tempo foi aproveitado para que, do outro lado da praça, alguns elementos da equipa dessem alguns retoques na “Mary Poppins”. Não se pense que estava tudo terminado, ainda era preciso fixar melhor a peça à estrutura, alisar alguns detalhes enrugados e aplicar uma borla que tinha ficado esquecida.

Com estas questões resolvidas, começam a ser montados os braços da “Royal Valkyrie”. Já estão todos cheios de ar e é preciso apenas subi-los e unir cada um ao seu correspondente sítio. Este processo é mais rápido, mas não deixa de demorar uns bons minutos para cada um dos nove braços.

Depois de serem presos à estrutura principal, é necessário repetir todo o processo que já conhecemos de fixar bem cada ponto com os cabos que ligam à estrutura do teto, verificar todos os detalhes, pentear as franjas, alinhar as borlas. Tudo isto vai, claro, até de manhã.

As Valquírias

Para quem vai ao centro comercial e encontra as esculturas lá, tudo parece majestoso, imponente e interessante, mas não imaginam todo o trabalho que é necessário para que as obras se apresentem assim. Por um lado até pode parecer triste, quando se vê as peças por insuflar ou protegidas por papéis, mas há também um sentimento inexplicável de ver a obra a nascer.

Podemos garantir, sem dúvidas, que quanto mais olhamos para as duas Valquírias mais vemos. Há sempre um ângulo novo, um detalhe que não tínhamos visto antes, uma parte que parecia ser feita de uma forma e afinal quando observada com mais cuidado percebemos que é de outra. Mesmo assim, claro, é difícil de imaginar como aquilo ali chegou. Não, não veio tudo montado dentro de um camião para ser ali depositado tal como vemos.

A artista e a sua obra

Para perceber melhor do que se tratam estas esculturas é preciso saber a sua origem. Todas elas são inspiradas em mulheres importantes, cada uma na sua área ou no seu tempo. Ao longo dos últimos anos têm estado até expostas em grandes palácios e museus.

“As Valquírias são, na tradição nórdica, umas guerreiras que sobrevoam os campos de batalha e salvam os bravos guerreiros. Esses guerreiros escolhidos vão trabalhar para Valhalla, para o exército dos deuses. Estas Valquírias sobrevoam aqui não o campo de batalha mas o centro comercial e, no fundo, vão captar a atenção das pessoas que tiverem uma relação com elas e que estiverem interessadas em arte. Os públicos que vão aos museus também vêm aos centros comerciais. Vai haver aqui pessoas que sentem mais interação com a obra, porque estão mais habituadas, e outras que não, mas de alguma maneira cria-se esse diálogo até com as pessoas que normalmente não vão aos museus e que, se calhar, a partir daqui vão passar a ir”, explica à NiT Joana Vasconcelos.

Cada uma delas representa cerca de um ano de trabalho. São muitas horas passadas a coser, fazer croché, bordar, aplicar detalhes ou outras técnicas. Tudo feito por uma equipa do atelier da artista com cerca de 50 pessoas. No caso destas duas Valquírias, há ainda o trabalho complementar de várias artesãs de Nisa que fazem o bordado típico daquela região e que é possível observar no corpo central das duas peças e em alguns braços da “Royal Valkyrie”.

Inspirada na personagem do filme, “Mary Poppins” mostra-se como uma figura que está a descer, com elementos que fazem lembrar os braços abertos e o guarda-chuva que traz. Destaca-se o colorido dado pelos tecidos da Liberty’s, uma conhecida loja de Londres, e que são muitas vezes utilizados na decoração das casas inglesas. Já esteve exposta no Château de Versailles ou em Maastricht.

Por sua vez — e um pouco por oposição —, a “Royal Valkyrie” é mais imponente, tem uma ligação maior ao luxo e aos palácios. Isto pode ser por vários motivos. É inspirada em Marie Antoinette e em todas as mudanças que esta fez em Versailles quando para lá foi morar. Assim, e numa parceria com a Manufacture Prelle, responsável pelos tecidos que forraram o quarto desta mítica francesa, é possível encontrar aqui sedas naturais e pedaços desses mesmos tecidos. Podemos dizer que são detalhes muito raros e que pequenas tiras com menos de um metro custam cerca de 700 euros.

Esta peça também já esteve em exposição em Versailles, bem como na Royal Academy of Arts de Londres ou no Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa. Agora, estas duas Valquírias juntas criam uma dinâmica única, contrastando o luxo de uma com o colorido da outra.

“Não existe uma lista [de locais onde gostaria de expor], existe sempre o gosto que nós temos de a nossa obra ser recebida onde as pessoas nos estimam e este é um caso. Estar aqui no Norteshopping é um prazer, ser bem recebida, ter público, as pessoas tirarem fotografias e falarem da obra, é disso que vive o artista.”

Joana Vasconcelos já tinha exposto no Silo, um espaço artístico que fica no mesmo centro comercial, em 2000. O regresso parece agradar à artista: “Nunca pensaria que isto ia acontecer, significa que consegui continuar a minha carreira desde aí”.

Neste espaço de tempo, viveu várias aventuras, sobretudo no estrangeiro, onde as suas obras são muito apreciadas. Se há alguns anos o seu trabalho poderia não ser tão reconhecido no nosso País, parece que essa ideia já terá mudado.

“Já houve uma altura em que não, mas acho que de alguma maneira isso já passou.”

A exposição “Valquírias de Joana Vasconcelos” vai ficar no Norteshopping até 2 de setembro e contará com duas visitas guiadas às obras, a 10 e 24 de agosto, ambas às 19 horas. Para 24 de julho e 7, 21 e 28 de agosto estão marcadas oficinas de croché para as famílias e a 31 julho e 14 de agosto serão dedicadas ao público mais adulto. O número de participantes nestas atividades será limitado, pelo que é necessário inscrever-se previamente no balcão de informações.

Carregue na galeria para ver mais detalhes de toda a montagem da exposição.

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