Teatro e exposições

“Se perguntassem se queria fazer um espetáculo durante tanto tempo, fazia um manguito”

A NiT entrevistou Ivo Canelas sobre “Todas as Coisas Maravilhosas”. Falámos ainda da exposição de fotografia e da próxima peça.
O ator de 47 anos tem mais datas do seu monólogo.

Encontramo-nos com Ivo Canelas perto da zona onde vive, no Campo dos Mártires da Pátria, em Lisboa. Entre galinhas, gansos, patos, muitos cães e bastante gente a desconfinar ao final da tarde, sentamo-nos num banco de jardim para falarmos sobre o regresso de “Todas as Coisas Maravilhosas”.

O monólogo sensação estreou há mais de dois anos e já teve mais de 100 datas por todo o País. Pelo meio, houve várias interrupções causadas pela pandemia, e não só — sendo que até já foi anunciado por diversas vezes que seriam as últimas datas, que nunca chegaram a ser. 

Aliás, as novas sessões de abril já esgotaram completamente, mas a organização acaba de abrir para maio. Por enquanto, há seis datas disponíveis, entre os dias 5 e 14. Começa sempre pelas 19 horas, no Estúdio Time Out, no Mercado da Ribeira, e os bilhetes custam 20€.

Aproveitámos também para abordar a exposição de fotografia que o ator tem patente em Loures — e o próximo espetáculo que aí vem, uma encenação do texto icónico “Cenas da Vida Conjugal”, de Ingmar Bergman, que vai ser apresentada no Teatro São Luiz, também em Lisboa, entre 22 de junho e 4 de julho. Leia a entrevista da NiT — e vai poder ver um excerto desta conversa no programa “New in Town”, na TVI24, no sábado, 24 de abril, a partir das 14h30.

Agora que as salas de espetáculo reabriram novamente, o Ivo regressou com a peça “Todas as Coisas Maravilhosas”, um monólogo que tem vindo a fazer já há bastante tempo. Para um ator é bom estar há tanto tempo com o mesmo texto?
Nunca tive, realmente, tanto tempo com o mesmo texto. Já estou no espetáculo cento e muitos. Tem sido um desafio incrível mantê-lo fresco. Por outro lado, é um espetáculo que não é um monólogo em que o texto é sempre igual. É verdadeiramente diferente de espetáculo para espetáculo, porque depende muito da participação do público. Alguns elementos participam e isso faz mudar a história, não literalmente, mas transforma bastante as cores que o espetáculo pode ter. Não é sempre igual, e raramente, se é que alguma vez foi, aborrecido. Do ponto de vista da memória, é uma experiência incrível. Porque cada vez que volto ao texto, e isto é quase uma metáfora para a vida, apercebo-me do quanto mais há para descobrir naquilo que eu já achava que estava completamente descoberto. E para isso, aparentemente… a vida tem-me ensinado com este espetáculo que é preciso um tempo de afastamento. Cada vez que me afasto e penso que está fechado o ciclo, não há aqui mais nada, e volto, essa distância permite-me, quando me reencontro com o texto, descobrir coisas que nunca tinha descoberto. Ou porque eu mudei um bocadinho em algumas coisas, ou porque as próprias coisas ganharam uma dimensão diferente. Ou simplesmente porque o facto de que me afastei permite-me ter uma objetividade diferente em relação ao mesmo material. 

Em termos de decorar o texto, é algo que já está intrínseco?
Quase que o sei todo agora [risos]. Uma vez mais, cada vez que lá volto fascina-me perceber como é que a memória funciona, a um nível muito mais profundo do que o consciente. E a quantidade de informação que estará com certeza guardada dentro dos nossos cérebros é impressionante. Porque ao longo destes dois anos que fiz este material, cada vez que lá volto, passado não sei quantos meses, basta começar por uma ponta e de repente 90 por cento das coisas ressurge.

Foto de Margarida Rodrigues durante o espetáculo.

Como estava a dizer, as pessoas interagem consigo nestes espetáculos. Existe algum padrão?
Acho que o padrão é que quando as pessoas ultrapassam o sentimento natural de querer ter graça — e relaxam —, atingem uma profundidade interessantíssima. Quando querem ter graça, normalmente não têm [risos]. Quando se despojam um bocadinho do que é que podes estar a pensar ou do que é que alguém vai pensar e dizem o que sentem e pensam, por menos ou mais interessante que possa parecer, o espetáculo ganha uma profundidade altamente surpreendente. E depois há outra coisa: aparentemente não há certos ou errados. Tudo o que qualquer pessoa disser ou fizer é humano. E isso, se for aceite por mim, está sempre certo. É quase como se o padrão fosse eu aceitar tudo como válido e, se assim for, tudo é válido e tudo representa uma parte qualquer do enorme espetro que é a humanidade.

Ou seja, não há uma resposta errada de todo.
Conto pelos dedos de uma mão, um ou dois momentos estranhos que tenham acontecido, e foi porque as pessoas estavam muito nervosas e quiseram ter graça. Ou porque eu não tive a agilidade ou a generosidade suficiente de aceitar o que me foi proposto, porque pensei “isto é muito estranho”, por uma razão ou outra.

Para um ator, o facto de ser um monólogo com uma dinâmica muito interativa com o público faz com que seja mais entusiasmante do que uma peça mais convencional?
Esta peça é, sem dúvida, especial, no sentido em que é um falso monólogo. É praticamente um diálogo e, pelo contacto visual direto com o público, é olhos nos olhos. E isso realmente é muito invulgar e intenso. Porque normalmente tu constróis uma quarta parede, uma bolha onde só estás tu ou com os teus colegas em palco e não está mais ninguém à tua volta.

Até para não haver distrações, suponho.
Claro, e para criares uma realidade para ti e para quem está a ver. Não estás ligado ao que está de fora, estás ali dentro. Ali é ao contrário, é como nós aqui. Estamos a falar e eu estou ciente se me estás a ouvir ou não, e vice-versa, e como é que estás a receber aquilo que eu estou a dizer, e se eu tenho de alterar alguma coisa para ser claro. Este espetáculo tem essa característica de constante verificação do outro. Isso é invulgar e para mim tem sido muito desafiante, especialmente agora com as máscaras, porque é muito difícil de ler exatamente o que é que cada pessoa está a pensar. Tu estares a chorar ou a rir com uma máscara na cara é muito semelhante. Ou se estás trombudo ou a dormir, também é muito semelhante. E então há uma parte minha que tem de se desligar completamente do botão do “será que estão a gostar ou não?” e dizer “confio que estejam e vamos lá juntos nesta viagem”.

Ivo Canelas também levou a sua cadela, Elis.

O Ivo tem alguma espécie de ritual antes de entrar em cena? No caso desta peça.
Não [risos]. É o normal: tentar chegar o mais cedo possível à sala e focar a energia, ou pelo menos reconhecer a energia de onde venho, e aquela com que estou e a calma que preciso de ter para começar as duas horas de viagem.

Como estava a dizer, já houve várias interrupções por causa da pandemia, ou porque teve também a ver com as datas das tours, e até já foi anunciado várias vezes que seriam as últimas datas do monólogo e acabaram por não ser. Porque é que isto acontece? Porque de facto tem havido uma procura imensa por parte do público?
Sim, e porque… eu acho que está tudo um bocadinho ligado. A partir do momento em que aconteceu a pandemia, nós ainda tínhamos alguns espetáculos que queríamos ter feito, e que foram cancelados. Tínhamos uma tourné pelos PALOP, pela Madeira, Açores, e foi cancelada. Então ficámos ali com uma parte encravada. Hesitámos muito se deveríamos voltar com a pandemia ou não, por causa das máscaras, do distanciamento social, da saúde pública, e se o espetáculo não ficaria deformado ou se não perderia alguma intimidade. Ao voltarmos, apercebemo-nos de que, se o espetáculo já tinha muito impacto porque trata de doenças mentais, suicídio, depressão — temas que não são simples nem fáceis mas que a sociedade está muito mais apta para pensar —, agora, no pós-pandemia, descobrimos uma fome ainda maior das pessoas para lidar com estes temas. Porque as doenças mentais dispararam em flecha. E de repente estamos todos muito mais sensíveis e com necessidade de contacto, e este texto aborda muito isto. E também por causa da pandemia, o pára-arranca, faz agora uma semana e não faças duas, este espetáculo como é um monólogo adaptou-se ainda melhor no sentido de “olha, para a semana ainda podemos fazer espetáculo. ‘Bora fazer? Há pessoas? ‘Bora. E para a outra? Logo se vê” Entrámos nesta modalidade ninja, em que cada semana vemos se estamos abertos, se há interesse e se eu tenho energia. E se estas três coisas se juntarem nós avançamos. Como começaste esta conversa, nunca tinha feito um espetáculo com tanto tempo. E se tu me dissesses: olha, queres fazer um espetáculo durante dois anos? Eu fazia-te logo um manguito grande, a dizer “não, nem pensar, nem pintado”. Mas nesta modalidade de “então e mais uma semana?”, está bem. Até não estar. E aí vamos ter de descobrir o sítio onde parar.

Mas o que estava a dizer de não gostar da ideia de fazer algo durante tanto tempo tem a ver com estar demasiado tempo agarrado a um projeto?
Sim, e acho que tenho algum medo de, de repente… Não é fácil fazer carreiras muito longas de espetáculos e mantê-lo vivo e ficar apaixonado pelo material e entusiasmado com aquilo que vais fazer, repetindo todas as noites. E às vezes tenho medo de ficar assim pendurado a meio. Imagina que tínhamos um espetáculo de seis meses e que eu ao terceiro mês estava farto. É muito complicado. Eu já fiz espetáculos de três meses e sei a luta que foi, a luta que é, tu lutares para manteres aquilo vivo. Por isso, é nesse sentido, um medo qualquer do compromisso [risos].

Mudando um pouco de tema, o Ivo também tem feito trabalho na área da fotografia, e tem uma exposição patente — que já tinha sido inaugurada e que agora voltou a abrir — nas Galerias de Loures. Esse trabalho do lado fotográfico era algo que já vinha a explorar há bastante tempo ou é mais recente?
Bem, “trabalho” é forte demais para o que aquilo é, na realidade. Ou seja, eu gosto muito de fotografia, mas sou completamente amador, tenho o maior respeito pelos fotógrafos profissionais. Comecei a tirar fotografias com o telemóvel, quando tive o meu primeiro iPhone, em 2000 e tal. E depois comprei uma câmara… Este projeto das galerias foi um convite incrível da curadora Cláudia Simenta que me convidou para expor algum material que eu tinha e assim foi. Escolhemos 30 fotografias, se não estou em erro, um bocadinho pelo critério de: quais é que têm qualidade suficiente do ponto de vista de armazenamento que possam ser ampliadas? 

Há novas datas do monólogo. Foto de Margarida Rodrigues

Mas não são temáticas?
Tentámos encontrar um tema unificador. Acabámos por chamar à exposição “Suspension of Disbelief”, que é um conceito interessante, aquilo que utilizamos quando estamos a ler um livro ou a consumir um objeto de arte, que é desligarmo-nos das regras da realidade. Ou seja, tu olhas para um filme, tu só te envolves emocionalmente se te conseguires desligar de que aquilo é tudo a fingir. E nós temos essa capacidade como seres humanos, e por isso é que choramos e rimos e sofremos com o que está a acontecer. Então essa noção de deslumbrar com o que não é real foi o ponto unificador. E depois arranjámos um protocolo com o centro de refugiados de Loures. A venda das obras vai reverter a favor do centro, que recolhe refugiados do mundo inteiro. A fotografia tem esta coisa de olharmos uns para os outros, e não só não nos reconhecemos a nós próprios como nos aproximamos do outro. Gosto imenso de tirar fotografias e gostava de saber mais ainda.

Além do monólogo e da exposição, está a trabalhar noutros projetos?
Sim, tenho mais um espetáculo, os ensaios vão começar brevemente. Vamos estrear no São Luiz, no final de junho. É um espetáculo de [Ingmar] Bergman, “Cenas da Vida Conjugal”, encenado pela Rita Calçada Bastos, comigo e com a Katrin Kaasa. É um texto incrível do Bergman, vai lá estar 15 dias. E estou a participar numa série, mas não tenho nada de novo para dizer porque não sei quando é que ela sai. E assim de concreto é isso. Este fascinante período pandémico é levar a vida… nem é um dia de cada vez, é meio dia de cada vez, a ver o que o futuro nos reserva.

Como é que têm sido estes meses, desde que as salas fecharam?
Super desafiantes para todos nós. Porque, uns mais do que outros — depende muito das responsabilidades familiares, pessoais, etc. — do ponto de vista psicológico é desafiante para toda a gente. E para me manter entretido artisticamente, comecei a fazer uns textos no Instagram, porque estava muito fechado e tinha alguma fome de contacto. Mas também cheio de vontade que este “quase”, que há de ser complicado e que ainda há de durar bastante tempo, não vai ser de um mês para outro que vai ficar tudo bem, que este “quase” passe o mais rápido possível porque vamos ter um grande desafio de recuperar isto tudo em todas as áreas durante bastante tempo. E se começarmos a pensar sobre isso, a minha avó tem 99 anos e esteve muito tempo fechada em casa, que azar neste final de vida lhe serem roubados dois anos… Mas também para a minha sobrinha que vai fazer três ou quatro, de repente foi ao jardim e viu uma série de miúdos e ficou “what? Mas há assim tantos mais miúdos?” Ela não tinha bem essa noção. O que acontece a estes dois anos? É tempo perdido? Eu acho que nunca é, mas todos estamos com o relógio um bocadinho desorganizado. É muito fora. 

E qual é o maior desafio em fazer “Cenas da Vida Conjugal”? A história vai ser agora adaptada para uma série da HBO.
Vai? Não sabia! Sabes que não vejo o filme nem a série [original] há mil anos. Vi quando era miúdo e ainda bem que já não me lembro, não tenho isso presente, e não vou ver agora porque é estranho.

Não ajuda?
Especialmente porque os atores são bons, às vezes é difícil tu veres coisas que são muito certas e é difícil não copiar ou, pior ainda, encontrares um caminho natural que é em tudo semelhante, ao qual tu resistes porque viste o outro a fazer, e se calhar aquele é o caminho e acabou-se. E estás a tentar encontrar uma coisa original… Por isso prefiro não ver, e até posso fazer exatamente igual, mas ao menos faço sem saber que o estou a fazer [risos]. Mas não sabia da série, fantástico. O material é completamente incrível, do quotidiano de um casal aparentemente tudo maravilhoso, com uma vida e filhos e tal, e depois, afinal, como tudo o que brilha, não é ouro. Vai-se revelando tudo o que realmente se está a passar por baixo da superfície e é o que se passa em todos nós. As coisas com que não sabemos lidar — e numa relação pode ser profundamente complicado. No outro dia estávamos a fazer as primeiras leituras e acho que num primeiro nível o mais difícil é, depois de ler aquilo tudo, conseguir tirar a tristeza do coração. Porque aquele material, ouve lá, é muito triste, muito denso. Mas ao mesmo tempo é muito perto de nós todos. Qualquer pessoa que tenha vivido uma relação, não precisa de ter filhos e 20 anos de relação, o nosso conhecimento e experiência é à escala. Estás com uma pessoa um ou dois anos e as nossas idiossincrasias e mentirinhas e essas coisas todas multiplicadas por 20 anos… É muito triste, estava a dizer à nossa encenadora que o São Luiz devia arranjar um terapeuta logo a seguir ao espetáculo ou durante os ensaios, só um bocadinho [risos]. Ou então uma massagem, pelo menos. Acho que é mesmo uma sensação de um nó na garganta muito profundo. Ele escreve muito, muito bem, e toca assim em coisas que acho que nós todos passamos ou passaremos algures em partes da nossa vida.

É muito relacionável.
Super, e quanto mais velhos ficamos, acho que mais nos aproximamos daquele universo e mais o compreendemos na pele. Há uma certa noção de finitude, que depois uns sabem lidar melhor do que outros.

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