Teatro e exposições

Sofia Arruda: “Este espetáculo toca nas feridas de uma forma descomplexada”

A NiT entrevistou a atriz, que está a fazer a peça “O Freud Explica” e só regressa à televisão em 2023.
Está em cena em Lisboa até dia 20.

Desde 8 de outubro que a peça “O Freud Explica” está no Teatro Armando Cortez, em Lisboa, com um elenco renovado. Saíram Rui Unas e Isabel Guerreiro, entraram Fernando Rocha e Sofia Arruda. O espetáculo permaneceu ali até dia 20. Depois, “O Freud Explica” será apresentado no Teatro Sá da Bandeira, no Porto. 

Esta é uma comédia que se passa em Lisboa, no final dos anos 70. O Dr. Correia (Fernando Rocha) é um conceituado psiquiatra. A sua mulher é Tuxa Correia (Ângela Pinto), enquanto a aspirante a secretária é Sónia Santos (Sofia Arruda). O leque de personagens inclui ainda o psicopata Dr. Ventura (Heitor Lourenço), o jovem sedutor Nuno Ricardo (João Mota) e o Sargento Mendes (Mário Bomba).

A NiT falou com Sofia Arruda sobre “O Freud Explica” e como tem sido interpretar Sónia Santos no teatro. Leia a entrevista.

O que é que a atraiu para querer fazer parte desta peça quando recebeu o convite para participar?
Este texto é muito desafiante, porque me tira da zona de conforto. Acho que isso foi a maior atração e ao mesmo tempo levou-me a ter as maiores reticências em aceitar o projeto. [Tive dúvidas sobre] se seria a pessoa indicada ou não para fazer esta personagem, se estaria numa fase da vida com capacidade para dar a esta personagem tudo o que ela merecia e precisava, foi uma série de coisas que me fizeram ponderar. Não aceitei logo o convite, tive uns dias a ler o texto e a pensar. Acabei por falar com o Heitor Lourenço, que faz parte do espetáculo, e ele desmistificou uma série de coisas que eu tinha em relação ao texto e me fez aceitar e embarcar nesta aventura. Não podia estar mais agradecida, porque tem sido um crescimento muito grande. Neste momento olho para o projeto e penso que fazia falta no meu crescimento como atriz.

Suponho que as reticências a que se refere também se devem ao facto de, apesar de esta ser uma comédia bem-disposta e leve, a personagem que interpreta é basicamente alvo de assédio por parte de um empregador.
Sim, acho que o ritmo e as circunstâncias da peça acabam por lhe dar uma certa leveza e uma certa graça. As situações são tão insólitas que até dá vontade de rir. Mas se a peça fosse feita com um ritmo mais calmo e o público tivesse tempo para pensar no texto e nas situações a que aquelas personagens estão sujeitas, acho que aquilo tinha muito mais de drama do que de comédia. E tem-se falado muito sobre se a comédia tem ou não um limite, se há temas tabu ou não, até onde se pode brincar. Acho que este espetáculo não tem limite. Passa por cima dos temas com este tom de comédia, mas os temas são todos muito pesados. E, sim, ler o texto sem estar a ver o ritmo do espetáculo e a perceber a dinâmica… é um texto muito forte. E é preciso ter algum poder de encaixe para conseguir tirar a leveza de um texto tão forte. As minhas reticências também tinham a ver com o texto.

O que é que, especificamente, fez com que mudasse de ideias? Foi a questão de o Heitor Lourenço lhe explicar o tom e o ritmo?
O Heitor desmistificou uma série de preconceitos que eu tinha. Depois, pude conversar com o encenador, perceber o ponto de vista e que às vezes é preciso utilizar um tom mais leve para falar de temas pesados e conseguir dessa forma passar uma mensagem. Às vezes, quando queremos falar de um tema e somos mais agressivos ou assertivos, duros ou dramáticos, as pessoas criam logo alguma defesa. Não querem falar sobre aquilo. Não querem estar-se a chatear. Não vão sair de casa para ir ao teatro tocar na ferida. E acho que este espetáculo tem esse poder. Ele vai tocar nas feridas, mas de uma forma muito descomplexada. E quem quer pensar sobre o assunto pensa, quem quer passar ao lado e rir-se durante duas horas também o faz.

Ou seja, a leveza pode ser mais eficaz na transmissão da mensagem.
Acho que sim. Posso dar um exemplo: há uma cena em que a personagem do Heitor Lourenço, um psiquiatra enviado pelo governo para supervisionar aquela clínica… A personagem do Fernando Rocha diz: “não era uma mulher, era um homem vestido de mulher”. E a personagem do Heitor diz: “Não, desculpem lá, mas não. Não alinho nessas coisas, não venho aqui defender coisas que não são reais. Um homem é um homem, veste-se de homem, uma mulher veste-se de mulher”. De repente as pessoas estão-se a rir disto, do quão ridículo é assumirmos que os homens são homens porque se vestem de homem. À luz dos dias de hoje, para algumas pessoas isto ainda é uma verdade, e ali, numa coisa tão simples, as pessoas riem-se do ridículo que é ter um médico a dizer isto. E tantas vezes ouvimos coisas que são verbalizadas desta forma: um médico, uma autoridade, que nos diz “isto é assim porque é assim, porque sempre foi assim”. O espetáculo está cheio destas pequenas subtilezas.

Para si, qual é a grande mensagem deste espetáculo?
É difícil dizer. Não quero criar barreiras às mensagens que as pessoas podem retirar do espetáculo. Acho que cada pessoa vai e consoante a sua experiência de vida, o seu estado de espírito naquele momento, vai retirar uma mensagem. Digo isto porque, quando li o espetáculo, retirei uma mensagem. Quando comecei a ensaiar tinha outra visão, e agora a fazer o espetáculo vou tendo outras visões. Como não é uma coisa estanque, se disser que para mim o espetáculo é “só isto”, vou estar a reduzi-lo e acho que não faz jus a tudo o que ele é.

Fernando Rocha e Heitor Lourenço são outros dos atores.

Como foi construir a personagem da Sónia?
Quando li o texto, vi uma Sónia Santos diferente daquela que depois acabei por construir. Quando os ensaios começaram a ganhar ritmo, percebi que precisava de uma verdade diferente para a minha personagem. Ou seja, ela estava no limbo entre ser uma personagem que aceitava, que sabia que estava a ser seduzida pela entidade patronal e se deixava ir, e achei que não fazia sentido ir por aí. Tinha muito mais interesse construir uma personagem mais crédula, um bocadinho mais inocente. Fomos desconstruindo o texto, percebendo que ela vinha de um colégio interno, que era uma pessoa que tinha vivido num ambiente muito fechado e não tinha sido exposta a uma série de coisas recorrentes na sociedade. Por isso mesmo, não tinha defesas. E daí ela se deixar envolver da forma como se deixa durante o espetáculo. Até que chega a um ponto em que diz “chega, basta” e consegue resolver a situação. Mas veio daí, de também ir lendo o que as outras personagens diziam da minha, comecei a construir uma história de vida para ela antes do dia da entrevista de emprego. Depois de ter essa parte, OK, posso preparar a minha personagem para ir a uma entrevista de emprego e daí perceber porque é que ela reage desta forma. É comédia, sim, mas não me faz muito sentido pensarmos “é uma coisa leve, não tem de se pensar muito sobre porque é que se diz”. Para construir uma personagem, mesmo que ela esteja a dizer a maior barbaridade e eu não concorde nada com aquilo, preciso de encontrar uma verdade para aquela personagem dizer aquilo. Nem que eu tenha de inventar uma história de vida que não esteja escrita em lado nenhum. 

Esse foi o maior desafio?
Acho que é o ritmo alucinante. A rapidez de resposta, de raciocínio, e inclusive a rapidez física em cena — em que temos de entrar e sair das portas nos tempos exatos em que sai outra personagem, em que temos de interromper aquele texto naquele exato segundo para aquilo fazer sentido. Acho que isso foi a maior dificuldade para mim.

Estava a falar do quão importante tem sido esta peça para o seu crescimento enquanto atriz. De que forma? Como é que sente isso em termos práticos?
Sinto porque, graças ao nosso encenador, o Hélder Gamboa — nunca tinha trabalhado com ele e ele tem uma forma de trabalhar muito particular. Ou seja, dá muito espaço aos atores para construírem. O que, no início, não estava habituada. E achava que estava um bocadinho sem chão, sem uma rede. Ou seja, ele não me dizia para eu fazer nada, não me mandava executar. E muitos encenadores e diretores de atores, para explicarem o que querem, mandam executar. “Para chegares do ponto A ao ponto B, faz assim”. E o Hélder não faz isso. Dá-nos espaço para descobrirmos se queremos ir do A ao B. Se quiseres ir do B ao C e ele concordar, ele deixa-te escolher como chegas lá. E vai-te guiando de uma forma muito subtil, o que é muito interessante. Fez com que eu tivesse, mais uma vez, de sair da minha zona de conforto e propor coisas. Fui propondo, e no mesmo ensaio fazia o mesmo texto de maneiras completamente diferentes. Fui propondo, propondo, propondo. Até que houve uma altura em que ele disse “OK, é isto”. “Quero que mantenhas isto, que faças isto”, mas a base era minha. E estou mais habituada a trabalhar com pessoas que nos dão uma base e depois trabalhamos em cima daquilo que nos propuseram. Achei muito interessante, gostei muito, e fazia falta nesta altura da minha vida e do meu desenvolvimento enquanto atriz ter este desafio.

E fez com que esta Sónia Santos seja muito mais sua.
Sim! Esta é uma reposição, ou seja, já houve outra Sónia Santos. Que, segundo me disseram, é completamente diferente da que eu fiz — sendo que é exatamente o mesmo texto, porque eu não mudo uma vírgula [risos]. Não vi a outra personagem, o que acho que me ajudou a criar a minha sem me colar a nenhuma outra imagem. E como o encenador não me obrigou a seguir o caminho da outra atriz, são duas personagens completamente diferentes. E é engraçado porque os colegas que já faziam a primeira versão do espetáculo também tiveram que se adaptar e as personagens deles sofreram pequenas mudanças por causa da minha. Porque é outra Sónia Santos.

Qual é a melhor parte de trabalhar em teatro?
Gosto muito desta parte de construção da personagem. Há muitos atores que não gostam dos ensaios. Eu não gosto quando já temos a personagem fechada e temos que repetir e repetir. Às vezes chega a uma altura em que já só queremos o público. Precisamos do público. A personagem já não tem mais por onde crescer nos ensaios, tem de crescer com o público. Mas até chegar a essa fase, adoro os ensaios. Da descoberta, de propormos coisas, de debatermos o texto, de percebermos de onde vem, porque é que o autor escreveu isto, da pesquisa… Adoro essa parte, que nós não temos em televisão, porque é tudo muito rápido. A segunda parte é estar em cena. É aquele nervoso, aquela adrenalina do início do espetáculo, aquela ansiedade de que o pano vai subir e agora vai começar e não há volta a dar. Aconteça o que acontecer, nada vai fazer este espetáculo voltar para trás. O público está ali para nos ver e nós vamos dar o nosso melhor. Gosto muito disso, acaba por ser uma limpeza de espírito, independentemente da fase que estivermos a passar na vida. Quando entramos em cena, isso não existe. Nós não nos lembramos da nossa própria vida. Só estamos ali. E isso é incrível no teatro — e acho que só no teatro é que isso se consegue.

O contrário também acontece de alguma forma? Ou seja, como é uma personagem e são cenas com uma vida muito maior, que se repetem constantemente espetáculo após espetáculo, também sente a Sónia presente na vida da Sofia de alguma forma? Ou há uma separação total?
Depois do espetáculo, essa separação demora um bocadinho. Gosto sempre de ficar um bocadinho no camarim a desmaquilhar-me com calma. Pode parecer uma coisa básica ou sem importância, mas esse processo de tirar a maquilhagem da personagem, de despir a roupa da personagem, de tirar o penteado da personagem, voltar a vestir as minhas roupas, tudo isso acaba por ser um desligar da personagem que depois me permite voltar a ser eu. Ou seja, se sair de cena, vestir a minha roupa e for com a maquilhagem ou o cabelo da personagem jantar fora parece que levo um bocadinho da personagem comigo. Enquanto se fizer este ritual de limpeza, ajuda-me a realmente deixar a personagem no sítio dela.

Imagino que seja mais fácil, assim, desligar-se psicologicamente da personagem.
Sim. A exceção são as unhas, que, como a peça não se passa na atualidade, tem as cores e o formato da época. E ajuda-me. Preciso de estar no palco e olhar para as unhas e sei que está ali a personagem. Porque não tenho espelhos em palco, não é? Preciso de tirar a minha aliança de casada, tirar quaisquer tipos de acessórios da Sofia. Há atores que levam, que não lhes faz diferença, porque têm uma pulseira da sorte que usam sempre ou o que seja. Eu não consigo. Tenho de tirar tudo o que seja meu e usar só o que é da personagem, inclusive o perfume da personagem. E depois, quando saio, fica lá — não vem nada comigo.

Tem algum projeto em vista na área da televisão?
Neste momento tenho, mas como apresentadora. Este domingo estreou a terceira temporada do “Look At Me”. Enquanto atriz vou continuar com este espetáculo, até ao final do ano tenho duas formações muito importantes que quero fazer e que me vão levar muito tempo. Vou estar focada nessa fase de aprendizagem. Tenho projetos agendados para o início do próximo ano, mas sobre o qual ainda não podemos falar. Agora estou numa fase mais introspetiva e de desenvolvimento pessoal e profissional que quero aproveitar. É muito difícil conciliarmos os cursos e as formações que queremos fazer com as horas das gravações das novelas. E quando existe esta possibilidade é de agarrar. 

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