Teatro e exposições

Thiago Soares: “Estar no palco é uma vitamina. É como os espinafres do Popeye”

Foi o bailarino principal do Royal Ballet de Londres e agora apresenta um “Último Ato” em Portugal. Leia a entrevista.

Durante 13 anos, o brasileiro Thiago Soares foi o primeiro bailarino do Royal Ballet de Londres, até se despedir da companhia em 2019. Ia arrancar um novo espetáculo, mas entretanto a pandemia chegou e, logicamente, travou-lhe os planos. Agora, aos 41 anos, apresenta-se com um “Último Ato”.

Trata-se de um espetáculo que recupera as suas raízes do breakdance, da cultura hip hop e das sonoridades brasileiras — e que as cruza com elementos do ballet clássico. Em Lisboa, vai ser apresentado no Teatro Tivoli BBVA a 20 de abril. Ainda há bilhetes à venda, entre os 15 € e os 35 €. Leia a entrevista.

Como começou a pensar neste espetáculo, não só em termos coreográficos, mas também enquanto conceito, de apresentar um “Último Ato”?
Partiu de uma conversa com um amigo. Encontrei-me com ele por acaso, devido a outro amigo, que estava com um problema de hospital. E ele disse-me: “Tu despediste-te lá do Royal Ballet, foi muito bonito, mas muita gente não pôde ir até lá, os espetáculos estavam esgotados, e tu foste um artista que colaboraste com muitos outros lugares”. E eu disse-lhe nessa altura: ficou a faltar um “Último Ato”. E a partir deste nome comecei a pensar, se sim, se não. E muitas pessoas disseram para eu fazer, “se sentes que ainda tens algo para dizer, faz”. E aí entrei na viagem de analisar o que é o “Último Ato” para um artista. 

E que viagem foi essa?
Esse momento, esse transtorno na nossa cabeça, tudo o que sabemos fazer é aquilo, e quem é que eu sou? O que determina o que é o final ou não? Quem determina isso e porque é que é o final? Entrei nestas questões. E dei conta que tinha muito para falar — e que ainda queria muito dançar. Então entrei em estúdio, procurei um elenco, que achei logo que não deveria ser de ballet — por acaso em Portugal a convidada é a excelente Filipa de Castro, uma grande amiga que já colaborou comigo e que, sim, é do ballet — mas os outros artistas não são do ballet clássico. Montei um elenco especial para isto e comecei a pensar no “Último Ato” como uma obra de teatro cuja linguagem fosse o movimento. Embarquei nesse conceito, nessa forma de contar uma história, com uma certa poesia por ser a jornada de um artista, mas também é algo irónica. O “Último Ato” tem um gosto a despedida, mas tem o sentimento de um novo formato para mim. Sinto que, aos 41 anos, é exatamente este tipo de espetáculo que deveria estar a fazer.

Mas quando se despediu do Royal Ballet de Londres, não pensava fazer mais espetáculos enquanto bailarino protagonista?
Eu tinha um espetáculo chamado “Roots”, que até ia passar em Portugal, mas com a pandemia… A pandemia acabou com muita coisa, muitas pessoas afastaram-se, e nesse processo acabei por me reconstruir como encenador, coreógrafo, e não tinha nada assim em mente. Mas agora, sim, muitas pessoas recebem bem o “Último Ato” e é bom estar de volta em cena. É um “Último Ato” que me leva para um início.

Mas para si é mesmo o “Último Ato”? Ou pondera fazer mais espetáculos?
Vou ser bem sincero: é a última digressão. Porque a disponibilidade física e de logística hoje para mim é quase impossível. Hoje tenho uma responsabilidade de ser encenador e coreógrafo. Então, enquanto tour, é o “Último Ato”. Mas ao fazer este projeto, desta forma, dá-me o desejo de trabalhar e fazer outras coisas. Quem sabe. Talvez nalgum momento específico eu possa fazer. Até é uma coisa que está no espetáculo: o artista nunca morre enquanto tiver essa vida que é o palco e essa bênção que são vocês, o público. É algo que me revitaliza, uma vitamina. Parece os espinafres do Popeye [risos].

E vai ser um espetáculo onde vai cruzar o ballet clássico com elementos das suas raízes ligadas ao hip hop e às sonoridades brasileiras. A ideia foi construir uma performance que o representasse, no seu todo?
Com certeza. Acho que isto é uma sangria da minha biografia [risos]. Porque tem a minha essência, do início no hip hop. Tem o que as pessoas gostam de me ver a fazer, que é o ballet clássico. E foram várias as referências. Uma vez, um amigo meu jornalista disse-me: tu rodaste o mundo, mas voltaste e acabaste sambando. E eu achei isso o máximo. Porque voltei, fui para o Brasil, fiz uma comissão na escola de samba. E eu peguei nesse trecho e traduzi para o espetáculo. Tem muito dessas influências reais da minha vida. 

Em termos de coreografia, foi desafiante juntar estas expressões tão diferentes?
Foi, foi muito difícil entender como colocar estas pessoas juntas — e o porquê, encontrar motivos. Foi muito desafiante, mas foi uma questão de passar tempo no estúdio, a entender e processar. Todo o processo foi delicioso. Tive vários na minha carreira, porque às vezes o processo é difícil, mas no dia é bom. Mas o “Último Ato” fez-me lembrar o quanto sou amante do processo. Sempre gostei do processo — e é por isso que eu ainda estou aqui, de cabelos brancos, no estúdio de ballet. Porque gosto disto realmente. Se não tens datas de espetáculos marcadas, nada agendado e ainda assim vais lá fazer, é porque amas aquilo, estavas destinado a fazer aquilo.

E como dizia, agora vai apostar mais na sua faceta enquanto encenador e coreógrafo. Do que é que gosta mais em estar desse lado?
Aquilo de que gosto mais é poder ajudar. Ver que a minha trajetória de alguma forma pode projetar outros. Ver as pessoas crescerem — gosto muito disso. E gosto muito de me desafiar e tentar perceber se consigo ir além, se consigo fazer uma nova obra. Novamente, acho que é mais o processo do que os resultados.

Obviamente, tem uma carreira longa e daí agora o “Último Ato”. Quando começou a dançar, suponho que não imaginava que aos 41 anos estaria a fazer isto, especialmente desta forma.
Ah, claro que não. A dança tem sido tudo para mim. Sinto-me muito privilegiado de ter encontrado esta voz que é a dança e por ter estas oportunidades. Sinto-me num estado de gratidão e que a vida poderia ter sido muito pior, muito mais dura, e a dança trouxe-me esta magia, este lirismo, e asas porque voei para todos os lugares. Não é só a Red Bull, a dança realmente dá-te asas [risos].

Em que momento é que soube que isto ia ser a sua vida?
Foi algo gradual, mas acho que logo no segundo ano, quando comecei a ganhar medalhas e a perceber que havia pessoas que me queriam, que me admiravam… Acho que esse amor deu-me forças. Gosto realmente do que faço e quando encontras a tua voz, aquilo chama-te. Quando sabes que é, é porque é.

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