Teatro e exposições

Trabalha na TAP e fotografa países onde poucos chegam. Agora, vai ter uma exposição em Lisboa

António Avelar viajou duas vezes até à Eritreia. As imagens que captou vão ser apresentadas na Galeria Art Room este mês.

Quando era miúdo, António Avelar encontrou em casa uma velha máquina analógica da Nikon, dos anos 70, que pertencia aos pais. Começou a fotografar, sem grandes pretensões, e gastava as primeiras semanadas a revelar os rolos numa loja do bairro da Portala, em Lisboa. Não estudou fotografia, nem imaginava que, muitos anos depois, aquela curiosidade o levaria à Eritreia, ao Benim ou a pequenas ilhas do Pacífico.

Hoje, aos 39 anos, é fotógrafo documental, escritor e realizador. Mas é outra profissão que lhe paga as contas e, de certa forma, lhe abriu ainda mais o mundo: desde 2014 que trabalha como comissário de bordo na TAP. “Foi uma forma de poder descobrir mais o mundo e estar em contacto com mais pessoas. Vais descobrindo os lugares, mas também vais descobrindo as pessoas”, conta à NiT.

Essa curiosidade está na origem de “Habesha 1991”, a exposição que António vai inaugurar a 17 de setembro, na galeria Art Room, em Lisboa. Durante três dias, até 19, vai mostrar um conjunto de fotografias de grande formato captadas na Eritreia, um dos países mais fechados e menos acessíveis do mundo.

O objetivo não foi fotografar a Eritreia, país da África Oriental, através da guerra ou do conflito. António apontou a câmara para aquilo que continua a existir apesar deles: as pessoas, os mercados, as oficinas, as cerimónias religiosas, as ruas e a arquitetura que ajudam a construir a identidade do país. 

O título remete para 1991, ano em que a Eritreia alcançou a independência de facto, depois de uma das mais longas guerras de libertação de África. Mais de três décadas depois, o forte controlo estatal mantém o país bastante isolado. Esse isolamento acabou também por preservar parte das tradições, dos ritmos sociais e do património urbano que António encontrou durante as viagens.

Antes de chegar aqui, houve várias vidas pelo caminho. António começou por estudar Engenharia Civil no Instituto Superior Técnico, mas ao fim de três anos percebeu que não era aquilo que queria. Mudou para Design, estudou no IADE, viveu quase um ano em São Paulo e fez um mestrado em Branding em Londres. Depois trabalhou em agências da área.

Não foi um percurso óbvio para chegar à fotografia documental, mas acredita que esses anos lhe deram algo essencial: cultura visual. “Sou completamente autodidata na fotografia. Mas o design, a estratégia de marca e tudo aquilo que fui aprendendo ajudaram-me a consolidar uma cultura visual. Acho que foi uma das coisas mais importantes para encontrar a minha linguagem”, explica.

Há cerca de 15 anos que fotografa de forma semiprofissional. Com o tempo, percebeu que não queria apenas acumular boas fotografias das viagens. Procurava um fio que ligasse o trabalho. “Comecei a perceber que gravitava sempre em torno de uma documentação visual de aspetos de identidade”, conta à NiT.

Para explicar a ideia, dá um exemplo português. É fácil representar o País através de pastéis de nata ou do Galo de Barcelos. A ele interessa-lhe procurar mais fundo: uma pedreira no Alentejo, por exemplo, e perceber como a pedra influencia o trabalho, a vila e a vida das pessoas que cresceram à sua volta. “Identidade é aquilo que te faz pertencer a algum lado.”

Dessa ideia nasceu “Topography of Identity” (“Topografia da Identidade”), um projeto de longo prazo dividido em diferentes capítulos geográficos e culturais. A ambição é construir um arquivo visual sobre comunidades, tradições e formas de vida ameaçadas por transformações políticas, ambientais e sociais. António admite que provavelmente nunca o vai terminar. “Acho que vai durar a minha vida toda. Não há tempo para ver tudo.”

A Eritreia encaixava nessa procura. António ficou fascinado pela diversidade demográfica, pelo cristianismo ortodoxo e por uma paisagem que muda das zonas de altitude até às regiões áridas junto ao Mar Vermelho. Mas houve outro elemento que lhe chamou a atenção: a arquitetura.

A ocupação italiana deixou edifícios modernistas, Art Déco e futuristas que acabaram integrados na paisagem e na identidade do país. “Andas por todo o lado, até em vilas, e encontras cinemas Art Déco fantásticos”, recorda.

Foi pela primeira vez à Eritreia no ano passado. Fotografou, conheceu pessoas e regressou com a sensação de que ainda estava longe de terminar o trabalho. Por isso, voltou. Na segunda viagem reencontrou amigos que tinha feito na primeira. Essa continuidade, garante, é fundamental para não cair na armadilha de chegar a um país estrangeiro e decidir sozinho aquilo que representa os habitantes.

“Se este trabalho não for feito com empatia e pela mão de pessoas que pertencem ao sítio onde estás a documentar, não é nada. Eu não chego a um lugar e determino que aquilo é a identidade de um povo. São as pessoas que me guiam e me levam a entendê-la.” Algumas dessas relações continuam até hoje. E uma delas acabou por dar origem a um documentário.

O homem que guarda um monumento sem perceber a sua importância

António queria conhecer um dos edifícios mais peculiares da Eritreia: a Fiat Tagliero, uma antiga estação de serviço da marca de automóveis italiana construída com a forma de um avião. Para entrar, precisava de encontrar o homem que tinha a chave.

Chamava-se Gabriel, tinha 75 anos e vivia nas traseiras. Trabalhara durante décadas ligado ao espaço e continuava numa garagem associada ao edifício. Aos poucos, tornara-se uma espécie de cuidador informal daquele monumento. António ficou fascinado. “Olhei para ele e disse: ‘Venho cá para o ano, vou voltar aqui e fazer um documentário sobre si.’ Ele disse que sim, mas não acreditou.”

António cumpriu a promessa. Regressou e passou 12 dias com Gabriel, filmando a sua rotina e a relação com o edifício. Para o português, havia algo quase surreal naquela situação: estava perante alguém cuja vida se confundia com um lugar importante, mas que parecia não ter consciência da relevância da própria história.

“Estou a criar um objeto de arquivo sobre o edifício, sobre aquela pessoa e sobre a vida dela”, explica. Quatro dos seis filhos de Gabriel vivem atualmente nos Estados Unidos e em Itália. “Eles vão ter acesso a um documento sobre a vida do pai e a relação dele com aquele edifício”. O filme tornou-se o primeiro documentário de António e nasceu do mesmo universo que agora chega à exposição.

A fotografia continua a ser o seu “exercício de liberdade”

Conciliar tudo isto com uma profissão que o mantém constantemente entre aeroportos não é simples. António admite que tem pouco tempo livre e tenta aproveitar as férias para desenvolver os projetos. Curiosamente, não vê o facto de a fotografia não ser a sua principal fonte de rendimento como uma desvantagem. Pelo contrário.

“Tenho um carinho especial pela fotografia porque nunca se tornou a minha atividade principal. Não tenho um horário para a desenvolver. Estou sempre a pensar nela, nos filmes e na escrita, mas não tenho aquela pressão. Posso desenvolver tudo ao sabor do vento.”

Depois encontra a expressão que melhor resume a relação: “É o meu exercício de liberdade.” Também não está interessado em contar países visitados. Prefere regressar, passar tempo, conhecer pessoas e aprofundar histórias. Antes da Eritreia, fotografou as tradições do vodu no Benim. No Vanuatu, arquipélago do Pacífico, chegou a uma pequena ilha onde, segundo conta, foi o primeiro estrangeiro a deslocar-se especificamente para documentar uma cultura local e as máscaras produzidas pela comunidade. Uma dessas imagens acabaria na capa da segunda edição da “Primitiva Magazine”.

“Gostava de pôr os pés em todos os sítios onde conseguir”, diz. Mas o objetivo não é colecionar carimbos no passaporte. É continuar a construir aquele arquivo que começou sem saber, ainda miúdo, quando encontrou uma Nikon esquecida em casa.

“Acho que o meu papel é tocar nestes aspetos de identidade, criar empatia com as pessoas e conseguir fazer este tipo de trabalho.” “Habesha 1991” é apenas mais um capítulo. 

Visite o site pessoal de António Avelar para conhecer melhor o trabalho deste fotógrafo. 

Carregue na galeria para ver algumas das fotografias tiradas pro António durante a sua viagem à Eritreia.

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