Comprar uma casa no centro de Lisboa parece, nos dias que correm, uma missão impossível e um sonho inalcançável. Para o casal de “Uma Casa, com Certeza” é apenas o início dos problemas. Depois de conseguirem o apartamento com que sempre sonharam, descobrem que, afinal, isso não resolve as diferenças que existem entre os dois. Pelo contrário, torna-as mais difíceis de ignorar.
A peça de Constança Bourgard está em cena no Teatro da Trindade, em Lisboa, até 25 de outubro. Num momento em que comprar ou arrendar casa se tornou uma das principais preocupações de quem vive na cidade, o espetáculo parte da crise da habitação para falar também de dinheiro, classe, género e das pequenas desigualdades capazes de desgastar uma relação.
Tudo começa com aquilo que deveria ser uma conquista. Um casal compra um apartamento no centro da capital e prepara-se para construir ali uma vida em conjunto. Há uma casa própria, planos para o futuro e a sensação de terem finalmente chegado ao lugar onde queriam estar.
A mudança, porém, expõe problemas que estavam escondidos. Os dois não ganham o mesmo, vêm de contextos sociais diferentes e têm ideias distintas sobre aquilo que cada um deve fazer dentro de casa. As diferenças salariais começam a pesar nas decisões do casal, surgem ressentimentos de classe e as expectativas associadas aos papéis de homens e mulheres entram na equação.
A casa deixa então de funcionar apenas como cenário. Aquilo que deveria representar segurança transforma-se num espaço onde todas essas tensões ficam concentradas. “Num tempo marcado pela crise habitacional, a casa torna-se o espelho das fragilidades do amor”, revela a sinopse.
É a partir dessa contradição que Constança Bourgard constrói “Uma Casa, com Certeza”. A crise habitacional está sempre presente, mas o texto não se limita à dificuldade de encontrar um lugar para viver em Lisboa. A autora usa a casa para questionar o impacto que o dinheiro e a origem social podem ter na intimidade de um casal — e aquilo que acontece quando o amor tem de conviver com prestações, diferenças de rendimento e trabalho doméstico.
O texto foi distinguido em 2025 com o Prémio Miguel Rovisco — Novos Textos Teatrais, criado para promover novos autores e a dramaturgia portuguesa contemporânea.
A encenação ficou a cargo de Miguel Fragata, conhecido também pelo trabalho desenvolvido com a companhia Formiga Atómica. Em palco estão apenas Ana Valentim e André Leitão, responsáveis por dar corpo ao casal e às sucessivas fissuras que começam a surgir no projeto de vida que construíram.
“Uma Casa, com Certeza” estreou-se a 10 de setembro e pode ser vista até 25 de outubro no Teatro da Trindade. Há sessões de quarta-feira a domingo, sempre às 19 horas. Os bilhetes custam entre 11€ e 15€.
Carregue na galeria para conhecer as 14 peças de teatro que a NiT reuniu para ver em Lisboa durante o mês de setembro.








