Teatro e exposições

Vivian Maier: a história da fotógrafa genial que já chegou a Cascais

135 das suas fotografias estão em exibição no CC de Cascais até 16 de maio. Antes de passar por lá, vai gostar de ler este artigo.

Viveu uma vida na sombra, quase sempre atrás de uma máquina. Poucos souberam o seu nome até à sua morte. E não deixa de ser irónico que grande parte da sua obra sejam os autorretratos que nos dão a conhecer Vivian Maier.

A história de Maier é quase sempre contada ao contrário. Antes de ser uma das fotógrafas de rua mais cobiçadas da década, era apenas uma idosa com um final de vida atribulado. Chegou perto da mendicidade, a pobreza impediu-a de explorar ao máximo a sua grande paixão — e morreu anónima, aos 82 anos, vítima de uma queda em 2009.

Sem familiares próximos, foi acompanhada pela simpática família dos Gensburgs, na qual trabalhou como ama. Maier morreu e parecia ser o fim da história. E foi. Mas seria também o princípio da sua carreira como fotógrafa de renome mundial.

Maier é hoje uma fotógrafa aclamada sem nunca ter assumido oficialmente esse título. Sem formação e apenas com uma paixão pela captura de imagens, as suas fotografias correram o mundo nos últimos dez anos. Estão também em Portugal desde 16 de janeiro, numa exposição no Centro Cultural de Cascais que termina a 16 de maio — e portanto esta é a última grande oportunidade para espreitar a exibição com curadoria de Anne Morin. Por lá, encontra 135 trabalhos, fotos e vídeos em Super8.

Foi em 2007, dois anos antes da morte de Maier, que um apaixonado por história fez a descoberta de uma vida. Foi por um acaso que, num leilão, decidiu pagar pouco mais de 300 euros por uma caixa recheada de negativos. John Maloof não era fotógrafo e tão pouco conhecedor do que separava um amador de um mestre. Mas percebia que havia algo de especial nas imagens dos negativos que tinha comprado e que retratavam cenas da vida comum na Nova Iorque das décadas de 50 e 60.

Sem qualquer nome na caixa ou elemento identificativo, a única informação que obteve do leiloeiro foi a origem do objeto: um pequeno armazém privado que havia sido esvaziado e que pertencera a uma mulher que morreu.

Maloof tentou encontrar os compradores das outras caixas encontradas no local e descobriu que também eles tinham encontrado negativos. Decidiu apostar na descoberta e comprou também essas caixas — no final das contas, acumulara mais de 100 mil negativos e três mil impressões.

A ama que também era fotógrafa

Sem forma de deslindar o mistério e para atenuar as despesas, começou a vender alguns dos negativos na Internet que começaram a aguçar a curiosidade dos conhecedores.

Só mais tarde descobriria o nome da mulher que tinha produzido aquele tesouro cujo valor ainda estava por desvendar, tudo graças a uma carta encontrada numa das caixas e um pequeno rabisco a lápis: Vivian Maier.

Lançou-se ao Google e ele respondeu-lhe com um obituário do “Chicago Tribune”, publicado poucos dias antes. “Vivian Maier, orgulhosa nativa de França e residente em Chicago, onde residiu nos últimos 50 anos, morreu de forma pacífica na segunda-feira. Uma segunda mãe para John, Lane e Matthew. Um espírito livre que tocou de forma mágica todos os que a conheceram. Sempre pronta a dar o seu conselho, opinião ou apoio. Uma crítica de cinema, talentosa fotógrafa. Uma pessoa especial da qual sentiremos falta, mas cuja longa e maravilhosa vida será celebrada e sempre recordada.”

Apesar da pista, a morada e o número que o jornal lhe forneceram revelaram-se um beco sem saída. Entretanto, na Internet, onde Maloof insistentemente publicava e partilhava as imagens de Maier, criava-se uma espécie de culto sobre o mito da misteriosa fotógrafa.

Quem era Vivian Maier

Embora ainda hoje não se conheçam todos os pormenores da sua vida misteriosa, sabe-se, através de relatos de quem a conheceu, que era uma mulher recatada, privada. Foi com surpresa, aliás, que muitos dos que a conheceram vieram a saber que Maier era uma prolífica fotógrafa.

Filha de um australiano e de uma francesa, nasceu na Nova Iorque em 1926 e viveu parte da infância e adolescência entre os Estados Unidos e França, de onde regressou definitivamente após a Segunda Guerra Mundial. Já de volta aos Estados Unidos, em Chicago, munida com um pequeno sotaque francês, encontrou trabalho como ama.

Foi numa das casas em que trabalhou que mais se sentiu em casa, na dos Gensburgs. As crianças recordam-na como uma espécie de “Mary Poppins da vida real” e acompanhavam-na recorrentemente nos seus passeios pela cidade, onde terá feito muitas das imagens que foram parar às mãos de Maloof.

“Era socialista, feminista, crítica de cinema e uma pessoa que dizia tudo o que tinha a dizer. Aprendeu inglês nos cinemas, que amava. Estava sempre a tirar fotografias, mas nunca as mostrava a ninguém”, revelou uma das crianças de quem Maier cuidou.

Um dos curiosos autorretratos

Maier não se limitou a fotografar Nova Iorque e Chicago. Nos anos 60 viajou sozinha pelo país e pelo mundo, da Europa à Ásia. De casa em casa, já de volta ao seu país, fazia questão de esconder o seu talento e as suas fotografias, que se acumulavam em dezenas, centenas de caixas.

À medida que envelheceu, foram os Gensburg que asseguraram que Maier não morria na pobreza e se tornava em mais uma sem-abrigo. Já nos anos 90, a falta de dinheiro significou que não poderia transformar os seus negativos em fotografias. Os rolos de negativos foram-se acumulando.

No final de 2008, uma queda no gelo levou-a para o hospital. Nunca chegou a recuperar do traumatismo na cabeça e haveria de morrer em abril de 2009.

Hoje, as suas fotografias de rua são equiparadas às de outros mestres. Só que no seu caso, Maier nunca chegou a gozar da fama, do prestígio e do dinheiro. O legado, esse percorre o mundo.

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