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10 anos depois da estreia, regressaram os maiores clichês do “The Voice Portugal”

O humorista e cronista Miguel Lambertini analisa a estreia da nova temporada do programa de talentos.
Huca foi um dos concorrentes em destaque.

“The Voice Portugal” regressou aos serões de domingo da RTP1 para aquela que é a nona temporada de um programa que lançou nomes como Fernando Daniel ou Luís Trigacheiro. Houve mais talentos lançados em outras edições, mas devem ter sido lançados para muito longe porque nunca mais ninguém ouviu falar deles. Após dez anos de emissões o programa continua, e bem, a ser apresentado por Catarina Furtado e Vasco Palmeirim, cabendo aos músicos António Zambujo, Marisa Liz, Diogo Piçarra e Aurea a responsabilidade de decidir quem ganha ou perde na primeira fase.

Depois de uma década de emissões não há muito a dizer sobre o “The Voice Portugal”. O programa funciona, emociona e é uma ótima alternativa para quem já não tem paciência para ver e ouvir concorrentes de reality shows dizer expressões irritantes como: “Tu gostas é de dar canal”. Claro que, em tantos anos no ar, o programa de talentos não se safa de alguns clichês que já nos habituámos a ver neste tipo de formato.

Por exemplo, sempre que perguntam a um concorrente: “Qual é o teu sonho?”, todos dizem invariavelmente que querem ser cantores ou músicos. Estranhamente nunca nenhum diz: “O meu sonho sempre foi ser canalizador, mas a minha prima inscreveu-me, de maneira que estou aqui. Também ou era isto ou estava em casa a mudar a algália do meu avô a cada meia hora, por isso até nem se está mal.”

Outro lugar comum que nunca falha é aquela aldrabice simpática dos concorrentes no momento em que têm de escolher um mentor. “Eu adoro-vos a todos, a sério, mas vou escolher…” é talvez das frases mais ouvidas e uma vez mais tenho pena de nunca ter ouvido: “Eu queria mesmo era o (preencher de acordo com os vossos gostos)________, mas como a cabra da_________ o bloqueou, lá terei de me contentar com o ________, ó caral__!” Quando algum dia alguém disser isto, para mim devia ir direto para a final. 

Em todos os programas há também sempre aquele clássico em que alguém diz, normalmente a Catarina ou o Vasco: “Bem, agora até fiquei arrepiado/a” que coincide com um estender do antebraço para comprovar a afirmação. Aqui também acho que podiam inovar. Até podem manter a frase, mas talvez pensar em utilizar outras partes do corpo, tipo a nuca, a espinha ou qualquer outra pilosidade que se erija com a emoção. 

Por falar nisso, esta estreia foi repleta de emoções fortes, muitos abraços e algumas lágrimas, como mandam as regras. Todos os mentores foram escolhidos, mas António Zambujo levou a melhor, tendo já quatro concorrentes na sua equipa. De todos os que vi este domingo, entre os meus favoritos está a Filipa Menina, que tem uma ótima voz, uma ótima história, uma ótima família e um ótimo look, mas infelizmente não foi selecionada. Espero que não desista e regresse no próximo ano.

Também gostei muito da Ava Vahneshan, que nasceu no Irão e veio para Portugal com 19 anos, porque no seu país de origem as mulheres estão proibidas de serem cantoras. A Ava tem boa voz, embora me tenha parecido ligeiramente desafinada. De qualquer maneira só pela emoção da família já valeu a pena e fez-me pensar o quão inquestionavelmente bom é viver num país onde todos temos liberdade para nos expressarmos. Poder acolher estas pessoas e dar-lhes a possibilidade de serem felizes e viverem sem medo é algo que nos deve orgulhar a todos.

Por fim, o Bruno Huca que podia ser uma personagem do “O 5.º Elemento”, com o seu kimono e chapéu de abas largas, que não só tem uma presença poderosa, como é um daqueles sérios candidatos a vencer esta competição. 

Espero que os outros concorrentes não me levem a mal porque eu adoro-vos a todos, a sério. E agora que penso nisso… bem, até fiquei arrepiado.

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