Televisão

20 anos de “Jackass”: o que aconteceu aos tipos mais loucos da televisão?

Tornaram-se num sucesso improvável, desafiaram os censores americanos e viveram a vida no limite.
É verdade, já passaram 20 anos

Surpreendentemente, foi nas gravações do primeiro filme, dois anos depois da estreia na MTV, que se sentiram finalmente livres para fazer tudo o que queriam — sem limites e com a garantia de que seria visto apenas por maiores de 18.

Numa homenagem ao destemido Evil Knievel, Johnny Knoxville tentou fazer um mortal em cima de uma mota. Uma das tentativas correu mal. Já no chão, viu a mota subir e cair na vertical, diretamente em cima de si. A tarde acabou numa ambulância, depois de reparar que estava a sangrar do pénis.

Diagnóstico: uma uretra rasgada. Confessou mais tarde que a brincadeira o forçou a introduzir um cateter “do tamanho de um lápis”, duas vezes por dia durante três anos e meio. Knoxville recorda o acidente com um sorriso. Não é o único.

“Jackass” foi um verdadeiro fenómeno quando chegou à televisão em 2000. A saga teve uma vida curta e atribulada na MTV, embora a legião de fãs que conquistou em três curtas temporadas lhes tenha dado a força necessária para, 20 anos depois, continuarem a manter vivo o nome do programa mais anárquico, nojento e absolutamente divertido da televisão.

Philip Clapp mudou-se para a Califórnia no início dos anos 90, decidido a lançar-se numa carreira como ator. Vindo de Knoxville, rapidamente lhe acrescentou o Johnny para fazer esquecer o seu nome de nascimento. Ter sucesso não foi assim tão simples.

Ganhava a vida a fazer pequenos anúncios televisivos, a única forma de fazer dinheiro para sustentar a família. Um dia teve a ideia de fazer um artigo onde testaria em si próprio diferentes tipos de armas de auto-defesa. Algumas revistas mostraram-se interessadas, mas nenhuma queria arriscar possíveis processos.

“Toda a gente estava confortável com o spray pimenta e o taser. Onde ficaram de pé atrás foi com a cena em que testava uma arma com um colete à prova de bala”, contou em 2010 à “Maxim”. Só uma aceitou arriscar tudo nesta loucura de um tipo que aparecia em anúncios.

A “Big Brother” era uma pequena revista de nicho. Irreverente, era adorada pela comunidade skater da época. No cargo de edição estava Jeff Tremaine, futuro realizador de “Jackass”.

Foi na redação da revista onde se começaram a reunir os elementos que viriam a formar o grupo. Jason Wee Man Acuña chegou a ser capa vestido como um Oompa-Loompa de Willy Wonka. Chris Pontius também chegou a ser entrevistado completamente nu.

“O Jess convenceu-me a fazer o artigo e gravá-lo em vídeo. Eu não aspirava a ser uma estrela de pequenos vídeos. O artigo era a minha tentativa maléfica de imitar o meu herói, Hunter S. Thompson”, explicou Knoxville.

Knoxville também enfrentou algumas das ideias mais perigosas

O vídeo acabou por ser uma boa ideia. O talento de Knoxville para as câmaras sobressaiu e surpreendeu toda a gente. As gravações caseiras que os skateboarders faziam uniu-se à loucura do grupo, que começou a fazer pequenas ideias para a “Big Brother”.

Da visão de criar uma espécie de “The Daily Show” com pequenas acrobacias, passou-se para algo menos ambicioso — e muito mais original. O realizador Spike Jonze foi o elemento decisivo na criação do formato “Jackass”. “Vocês já têm o programa. Os vídeos que fizeram para a revista — esse é o vosso programa”, aconselhou.

Do outro lado do país, outro grupo estava em formação. Bam Margera era já um skateboarder profissional que, como todos os colegas do mundo, gravava as suas acrobacias arriscadas. Ao lado do também futuro Jackass Ryan Dunn, tornou-se num pequeno fenómeno de culto. A união dos dois grupos era inevitável.

“Lembro-me da primeira vez que o Jeff me ligou. Pagou-me a viagem até Los Angeles, mostrei-lhe, a ele e ao Johnny, alguns dos vídeos. E eles disseram que era perfeito para o ‘Jackass’”, recorda Margera.

Tremaine, Jonze e Knoxville correram a cidade e o país a vender o programa. Apesar do prestigiado “Saturday Night Live” ter feito uma proposta a Knoxville, o grupo acabou por assinar contrato com a MTV.

“Quase todas as semanas recebíamos propostas de programas semelhantes, mas quando ví o deles, percebi que eles eram mesmo felizes a fazer aquilo. Não era um mero exercício televisivo. Eles faziam-no apenas para se divertirem. É impossível fingires isso e se conseguíssemos preservar essa genuinidade, tínhamos um programa”, recordou em 2010 Brian Graden, antigo presidente da secção de entretenimento da MTV Networks

A estreia foi tudo o que ninguém imaginava. Ao segundo episódio, a MTV bateu o recorde de espetadores de um domingo à noite. Ao fim de uns meses, o Knoxville estava na capa da “Rolling Stone” e o grupo tinha uma legião de fãs.

Nenhum dos elementos tinha previsto que o programa pudesse chegar a tanta gente. “Foi chocante, mas muito divertido. Talvez me tenha divertido demasiado, decididamente não lidei com a coisa tão bem quanto deveria”, confessa Knoxville.

O sucesso instantâneo de um bando de jovens adultos com mentalidade adolescente foi demasiado estonteante para muitos deles. “Algumas pessoas lidaram com o sucesso pior do que outras? Sim, o Steve-O só queria fama. Já o Chris Pontius estava-se a cagar para isso. Não mudou nada. E o Bam já era uma pequena celebridade no seu mundinho”, explica Tremaine.

Mergulhos em fezes, pontapés nos testículos, até manobras perigosas como saltar para o meio de chamas — as manobras tornaram-nos famosos e atraíram a atenção de muitos pais preocupados com possíveis repercussões. A polémica cresceu e chegou ao senado norte-americano, onde o senador Joe Lieberman se manifestou contra o programa.

“Diziam que éramos a causa do desmoronamento da sociedade. Isso fez-nos rir, mas quando o Lieberman se pôs em bicos de pés, a MTV ficou muito assustada”, conta Knoxville.

A pressão política começou a perturbar as filmagens. De repente, os produtores da MTV começaram a recusar algumas das ideias mais arriscadas. Quando imaginaram fazer uma omelete a ingerir os ingredientes e a vomitá-los para uma frigideira, ouviram um redondo não.

O canal decidiu que os fumos da omelete, por ser feita de vómito, poderiam ser perigosos. E exigiu que todos usassem equipamentos de proteção. Eles recusaram.

O episódio deteriorou a relação entre o grupo e o canal. A MTV interrompeu a promoção do programa e Knoxville fartou-se.

Não havia limites para a loucura de Steve-O

“Sentimos que não podíamos fazer uma versão limpinha do programa, por isso demiti-me. Em retrospetiva, não sei se foi lá muito inteligente. Quem é que eu era? Em 10 anos não fiz nada em Hollywood. De repente tenho um programa só meu e desisto?”, recorda.

Mesmo sem promover “Jackass”, os episódios continuavam a ser um sucesso, pelo menos até à emissão do último capítulo. “Eles não queriam continuar a fazê-lo. Usamos todos os argumentos possíveis para os encorajar a não desistir. Nem uma enorme quantia de dinheiro foi suficiente para os motivar”, confessa Graden.

Havia, porém, um último trunfo. A MTV Films acabara de ser lançada e andava à procura do seu primeiro grande êxito. No cinema, as regras eram diferentes: não havia praticamente limites a impor, desde que fosse estabelecido que só poderia ser visto por maiores de 18. E o bando de loucos de “Jackass” estava com demasiado tempo livre nas mãos.

“Jackass: The Movie” estreou em 2002 e arrecadou mais de 20 milhões de euros só no primeiro fim de semana. A crítica arrasou-o. Pouco importou. Foi um enorme sucesso de bilheteira que reacendeu o interesse pelo formato.

A MTV lançou pequenos spin-offs com Steve-O e Pontius como estrelas. Mas “Jackass” ainda tinha mais sketches absurdos por criar. O segundo capítulo chegou ao cinema em 2006 — diretamente para filme mais visto no país durante as primeiras semanas. Seguiram-se mais quatro filmes.

20 anos depois, os resistentes preparam já mais um filme. “Jackass 4” vai mesmo ser feito e tem lançamento previsto para 2021. Porém, nem todos os velhos rapazes estarão presentes. Em duas décadas, muito mudou nas suas vidas. Algumas para melhor, outras para pior.

“Já fizemos tanta coisa e já dissemos várias vezes que ‘era a última’, mas acontece sempre qualquer coisa. Aborrecemo-nos e queremos experimentar algo mais aventureiro. Honestamente, não acredito que façamos ‘Jackass’ quando chegarmos aos 50”, confessou Pontius em 2010. Wee Man acenou negativamente “Acho que vamos ser como os Rolling Stones, a curtir até aos nossos 60”.

Carregue na galeria para saber o que é feito dos loucos de “Jackass”.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT