Televisão

A atribulada (e polémica) carreira de Nuno Graciano, o “Tio Careca da televisão”

O apresentador morreu esta quinta-feira, 7 de dezembro. Passou por vários canais, como TVI, SIC, CMTV e Canal 11.
Morreu aos 54 anos.

Nuno Graciano, de 54 anos, morreu esta quinta-feira, 7 de dezembro. A informação foi avançada na conta de Instagram da SIC, canal onde trabalhou. “Foi uma figura incontornável na história da televisão”, lê-se na publicação.

O apresentador sofreu um ataque cardíaco na segunda-feira, 4 de dezembro. Encontrava-se em coma, na unidade de cuidados intensivos do Hospital de Cascais. Nuno havia sido encontrado inconsciente na casa de banho de um restaurante, detalham várias publicações citando relatos de amigos próximos do artista.

Uma vida na televisão

Ao longo da sua carreira passou por diversos canais. Tudo começou, contudo, em 1994, no programa “Doutores e Engenheiros”, da TVI. Seguiram-se vários outros projetos, desta vez na SIC, onde passou seis anos, entre 2006 e 2012. Foram eles: “Não Há Crise”, “Contacto” e “Companhia das Manhãs”.

Tornou-se um dos rostos mais conhecidos da televisão nacional como apresentador do programa de apanhados “Não Há Crise”, na SIC, entre 2008 e 2012. O formato, que chegou a ser exibido em horário nobre, era um sucesso de audiências.

Juntou-se, depois, à CMTV (em 2013), onde apresentou o “Manhã CM”, ao lado de Maya. Foi neste mesmo projeto que se gerou uma das maiores polémicas da sua carreira. Em 2015, afirmou que não acreditava na bissexualidade, justificando que quem tem relações sexuais com pessoas do mesmo sexo é automaticamente gay, mesmo que tenham sexo com alguém do género oposto.

A relação entre Nuno e a CMTV acabou em 2016 — e não da melhor forma. “Fui afastado da televisão, até hoje não percebo porquê. Disseram-me, mas tenho um contrato sigiloso em que não posso falar disso”, contou no programa “Goucha”. “Fui penalizado pela minha postura em algumas coisas.”

Segundo os rumores, Nuno Graciano estava confiante de que podia chegar à chefia do canal. Também era comum fazer comentários de desdém sobre aqueles que ocupavam os cargos que ele tanto ambicionava. Quando isso se soube, foi despedido.

Três anos depois, em 2019, decidiu abraçar outro desafio fora dos canais generalistas, juntando-se ao programa desportivo “O Meu Clube”, no Canal 11. O projeto chegou ao fim nesse mesmo ano.

Algum tempo após estar afastado dos holofotes, voltou a ser muito comentado após ser revelado como um dos concorrentes do “Big Brother Famosos 2022”. Embora não tenha vencido, tornou-se depois num dos repórteres convidados no “Somos Portugal” e foi comentador de diferentes produções da TVI, como “A Ex-Periência”.

“O Tio Careca da televisão”

Quando esteve afastado da apresentação, criou uma marca de produtos regionais da Serra da Estrela. Decidiu chamar-lhe Tio Careca, a expressão pela qual passou a ser conhecido pelos portugueses que o viam na televisão.

A aposta no queijo da Serra estava relacionada com as raízes do apresentador, que, quando era miúdo, tinha uma quinta na Guarda. “Fugia para ir para ao pé dos caseiros, para aprender a ordenhar as vacas. Essa era a minha infância”, contou no “Alta Definição”, da SIC.

Com o passar do tempo apostou em muitos outros projetos adjacentes. Em outubro de 2018, por exemplo, lançou o livro “Não Me Chamem Bom Pai”. “Da sua experiência como pai de quatro filhos, Nuno Graciano parte para uma análise — e crítica — no que toca à paternidade em geral”, explica a sinopse.  Também chegou a ser o diretor comercial de uma rede imobiliária.

O polémico percurso na política

Durante as autárquicas de 2021, Nuno Graciano candidatou-se pelo Chega à Câmara Municipal de Lisboa — corrida que não venceu. A direção do partido liderado por André Ventura via nele alguém “fora da caixa”, mas que estava “completamente comprometido com os valores do partido”. À revista “Visão”, o apresentador disse que “era um desafio que não poderia rejeitar”, reforçando a “importância que tem a política de proximidade”.

Durante a estadia no Big Brother 2022, afirmou que nunca havia sido filiado no partido liderado por André Ventura. Aceitou o “convite particular” do Chega para concorrer às autárquicas, por “ingenuidade”, explicou.

“A possibilidade de trabalhar com pessoas foi algo que me encantou. Achei que era uma experiência gira trabalhar ao serviço do povo”, afirmou. “De alguma forma foi ingenuidade, sim”, admitiu.

Mais tarde, reforçou: “Não sou filiado do partido, não tenho nada a ver com o partido, acabaram as eleições e eu não tenho nada a ver com o partido.”

André Ventura já reagiu à morte de Nuno Graciano. “Há coisas que não vou esquecer, Nuno: a amizade, a tua disponibilidade e, claro, as boas risadas que demos, primeiro na televisão e depois na política. Valeu a pena cada minuto. Obrigado e até sempre”, escreveu no Instagram.

A vida familiar

Nuno Graciano nunca casou, e deixou bem claro o porquê durante uma entrevista em janeiro deste ano. “Tenho 54 anos e sou solteiro até hoje. Embora tenha tido relações de vários anos, nunca casei. Tem de haver aquele click. Vivo dez anos com uma pessoa e depois 13 anos com outra. Era o click daquela altura, mas mesmo assim não foi suficiente para me casar nem com uma, nem com outra. Acho que um dia me cruzarei com alguém, se é que não me cruzei já, e que sim, é o amor da minha vida”, disse.

A sua primeira relação pública foi com Patrícia Chester, com a qual teve dois filhos: Gonçalo e Tomás. Não foi esta, contudo, que marcou a sua vida. Esse papel ficou para a manequim Bárbara Elias, sobre quem Nuno falou várias vezes.

Acabaram em 2019, após terem tido duas filhas: Matilde e Maria. Nesse mesmo ano, deu uma entrevista a Cristina Ferreira onde falou da sua história com a ex-namorada, e o quão duro foi o final.

“Fartava-me de chorar à noite, sozinho. Uma casa cheia, e chorar sozinho. É das coisas mais horríveis que há. Sentia-me angustiado, injustiçado. Coisas que não quero falar, já passou. Sentia-me profundamente triste”, revelou.

“O final acaba por ser a consequência de tudo. Eu não estava bem. Não estaria com a mesma disponibilidade. Não estaria com a mesma atenção. Estava muito focado só em sobreviver. E, portanto, ter-me-ia esquecido um bocado de dar importância e segurança à pessoa com quem estava”, continuou.

Nuno Graciano, também conhecido como Tio Careca, acaba por acrescentar: “É uma relação que eu tenho imensa pena de ter acabado. Tinha muitas coisas para poder dar certo”.

“A meio caminho, desencontramo-nos. Agora, é o meu tempo, de me ir buscar a mim próprio. Pôr-me em causa, ponho-me muitas vezes em causa. Quando passas muito tempo sozinho, os elogios da pessoa com quem moras desaparecem, deixa de haver uma parte e esquecemo-nos de nós próprios. Deixa de haver um bom dia, um abraço franco. Um sorriso, um chegar a casa, um dar a mão”, lamentou.

A última publicação do empresário e apresentador no Instagram foi ao lado da família. A descrição? “Amor”.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT