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A atribulada história da Uber e do seu cofundador chega à HBO — é narrada por Tarantino

A primeira parte da série coloca Joseph Gordon-Levitt no papel de Travis Kalanick. "Super Pumped" estreia a 12 de abril.
Gordon-Levitt está de volta

Sentado entre duas mulheres, Travis Kalanick aparentava estar bastante relaxado. Ia sentado num dos veículos que usava a sua aplicação multimilionária, a Uber. Ao chegar ao destino, as companheiras saíram e, no banco traseiro do meio, despedia-se do condutor que, antes de partir para outro trabalho, resolveu dar duas palavras a Kalanick.

Fawzi Kamel, que trabalhava com a Uber há cerca de seis anos, queixou-se das mais recentes medidas: a redução das tarifas no segmento de veículos mais luxuosos. Kalanick contra-argumentou. Kamel foi claro: as decisões da administração da empresa estavam a arruinar os condutores; ele próprio tinha investido num carro novo mas, com a descida dos preços, viu-se incapaz de pagar o empréstimo.

“Tretas”, respondeu o diretor executivo da plataforma. “Sabes uma coisa, algumas pessoas não gostam de assumir responsabilidade pelos seus problemas. Tudo o que lhes acontece na vida é culpa de outras pessoas.”

Toda a cena ficou gravada pela câmara de segurança do carro e, quando se tornou pública, transformou-se em mais um escândalo a pesar sobre as costas do confundador da Uber.

“Por esta altura já todos viram o vídeo onde trato um condutor da Uber de forma desrespeitosa”, anunciou em comunicado. “Dizer que estou envergonhado é o mínimo que posso fazer. O meu trabalho como vosso líder é o de liderar e essa tarefa começa precisamente por comportar-me de forma que nos orgulhe a todos. Não foi o que fiz. Não existe outra explicação que possa dar.”

Quatro meses depois, um golpe palaciano na cúpula da Uber obrigava o polémico fundador a abandonar o cargo de diretor executivo de uma das mais entusiasmantes startups da história — e que se estreou em bolsa em 2019 com uma das maiores avaliações dos cinco anos anteriores. Kalanick ficou amargurado e inscreveu no livro da indústria tecnológica alguns dos seus mais rocambolescos episódios.

O seu percurso atribulado na Uber deu origem a um livro, “Super Pumped”, assinado por Mike Isaac. Por sua vez, a obra serviu de índice ao guião da primeira história da série de antologia que promete revisitar algumas das mais improváveis broncas do mundo da tecnologia. A primeira paragem? A Uber e Travis Kalanick, em “Super Pumped: The Battle for Uber”.

Joseph Gordon-Levitt assume o papel de protagonista da produção com autoria de Brian Koppelman e David Levien, devidamente qualificados para agarrarem o tema, depois de assinarem a bem-sucedida série “Billions”. Ao seu lado estará Uma Thurman no papel da milionária e parceira de Kalanick, Arianna Huffington, e Kyle Chandler como o investidor Bill Gurley. Fawzi Kamel, o desbocado condutor da Uber, também estará representado. Outra surpresa: a série é narrada por nada mais nem menos do que Quentin Tarantino.

“Super Pumped: The Battle for Uber” chega à HBO esta terça-feira, 12 de abril, com um total de seis episódios. O foco estará, claro, em Kalanick e no seu estatuto de herói — por ter transformado a startup naquilo que ela é hoje —, mas também de vilão — por ter caído em quase todas as armadilhas criadas pelo estatuto de líder de culto.

Culto é, para um dos produtores-executivos mas também repórter do “The New York Times”, a palavra certa. “Em Silicon Valley, ‘culto’ não é uma palavra proibida. Se pensarmos bem, quase todas as startups falham. Toda a gente está contra ti. A pessoa que está à frente da empresa tem que ser um verdadeiro crente naquilo que está a fazer.”

Kalanick era um desses líderes, completamente obcecado com a ideia de levar avante o conceito que imaginou com o futuro co-fundador Garret Camp. Um ano depois da criação da Uber, em 2009, sobe ao posto mais alto da empresa, onde se tornaria numa figura curiosa.

Mike Isaac, o autor de “Super Pumped”, descreveu-o como uma combinação “entre Mark Zuckerberg e uma lata de desodorizante Axe”. “O Travis é uma pessoa complicada, com nuances, com falhas, mas que lutou como nunca para fazer crescer esta indústria dos transportes”, diz. “As pessoas gostam de histórias de figuras inspiradoras que voam demasiado perto do sol. Foi isso que aconteceu com ele.”

Os sete anos de liderança de Kalanick, que coincidiram com a expansão global da Uber, ficaram marcados por diversos escândalos internos. Travis era conhecido pelo trato informal que, por vezes, ultrapassava os limites.

Num email interno divulgado em 2013, o diretor executivo pedia explicitamente aos funcionários para que não tivessem relações sexuais entre si e para evitarem atirar barris de cerveja do topo dos edifícios. Anunciou também que iria cobrar “multas de vómito” a todos os que se apresentassem indispostos depois de uma noitada. O seu estilo peculiar de liderança levou a sua amiga e investidora Arianna Huffington a tornar um dos conselhos públicos: Kalanick teria de deixar de ser um “empreendedor arruaceiro” e começar a ser “o líder de uma grande empresa global”.

Outro dos escândalos que abalaram a empresa, ainda sob a sua liderança, foi o da acusação de violação feita por uma mulher indiana a um condutor da Uber. O caso, que teve lugar em 2014, foi amplamente investigado pelas autoridades e pela companhia. Por esta última, talvez com demasiado detalhe.

Eric Alexander, o responsável da Uber pela região da Ásia e do Pacífico, terá obtido os relatórios médicos confidenciais da vítima, que depois os terá entregue a Kalanick. Alexander acabaria por deixar a empresa. A violação foi confirmada em tribunal e o violador condenado a pena perpétua — Kalanick acabou, mais uma vez, com a imagem manchada.

No que toca às regras, as linhas vermelhas eram sempre um pouco difusas para Kalanick, que durante a sua estadia na Uber, terá promovido a utilização de um software que, a ser bem-sucedido, configuraria um crime federal.

Chamava-se Greyball e tinha como objetivo evitar que a empresa fosse multada por usar os seus serviços e carros em zonas não autorizadas. O programa de computador servia, então, para tentar identificar os aparelhos dos agentes governamentais que fiscalizavam essa atividade. Assim que eram identificados, a sua aplicação da Uber era modificada para mostrar localizações erradas, além de impedir que pudessem usar o seu serviço. A Uber tinha outra explicação: o programa servia apenas para evitar a proliferação de “utilizadores fraudulentos”.

Kalanick dirigiu a Uber até 2017.

Travis Kalanick chegou também a ter problemas com a Apple, quando Tim Cook foi obrigado a intervir pessoalmente junto da empresa que estaria a recolher dados ilegais dos iPhones e a desrespeitar as regras impostas pela Apple Store.

A Uber foi também acusada de roubar segredos industriais da Waymo, a empresa de carros autónomos detida pela Alphabet — uma das suas investidoras.

Foram sete anos atribulados que implodiram em 2017. Segundo a “Bloomberg”, antes das investigações federais e das muitas crises que se seguiriam, os restantes executivos da Uber reuniram-se com Travis para que o próprio percebesse que era a fonte de muitos dos problemas da empresa. Consigo traziam um inquérito que mostrava que a maioria das pessoas gostava da Uber, mas detestava Kalanick.

A imagem do diretor executivo estava a prejudicar a empresa e era tempo de alguém fazer alguma coisa quanto a isso. Kalanick negava que isso fosse da sua responsabilidade. A meio da reunião, um choque: o vídeo da discussão com o condutor era finalmente tornado público. De acordo com relatos de quem esteve presente, o Travis terá caído de joelhos, entre lamentos. “Isto é mau”, disse. “Sou terrível.”

O episódio levou a que procurasse reverter a política de comunicação da empresa. Sem grande sucesso. A voz de Kalanick e sua liderança tornaram-se cada vez menos presentes.

Nos bastidores, as ações erráticas do diretor executivo começaram a preocupar os investidores. Foi Bill Gurley quem comandou a iniciativa para resolver o problema. Enquanto lutava para conquistar mais influência, reuniu os executivos e, nas costas de Kalanick, organizou uma espécie de golpe de estado que o faria cair, não só por causa dos sucessivos casos em tribunal, mas também das muitas queixas de assédio sexual na empresa, bem como o incumprimento de vários objetivos. Kalanick deveria afastar-se e iniciar um período sabático.

Acabaria por se demitir do cargo, abatido por um drama familiar na sequência da morte da mãe, e pressionado por cinco dos maiores investidores da Uber. Manteve-se durante dois anos como executivo da empresa, mas acabaria por deixar a direção de forma permanente em dezembro de 2019, vender as suas ações e tornar-se multimilionário. Dificilmente um final infeliz.

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