Durante décadas, a família Trueba vive entre amores proibidos, violência e decisões que acabam por marcar várias gerações. Em “A Casa dos Espíritos”, cada escolha tem consequências e algumas parecem já estar escritas antes de acontecerem.
A nova série da Prime Video, que estreou esta quarta-feira, 29 de abril, chega como a primeira adaptação em espanhol do romance histórico da escritora chilena Isabel Allende, publicado em 1982. A obra é considerada uma das mais importantes do estilo literário do realismo mágico latino-americano e até mesmo uma das mais influentes do século XX, que continua a encantar leitores mesmo depois de 40 anos.
Esta é a a primeira adaptação televisiva, em espanhol, tendo sido filmada maioritariamente no sul do Chile, cujas paisagens e clima compõem na perfeição o ambiente do universo fictício criado por Allende, segundo a plataforma. A própria autora é produtora executiva da série ao lado de Eva Longoria. Na realização, estão os cineastas chilenos Francisca Alegría, Fernanda Urrejola e Andrés Wood.
A história acompanha a família Trueba, num país sul-americano fictício inspirado no Chile, onde política, paixões e tragédias se misturam com elementos sobrenaturais. “A Casa dos Espíritos é uma saga familiar em oito episódios que acompanha a vida de mulheres revolucionárias e resilientes ao longo de meio século num país remoto e conservador da América do Sul, marcado por desastres, conflitos de classe e magia”, lê-se na sinopse.
No centro estão três gerações de mulheres: Clara, Blanca e Alba. A primeira tem poderes fora do comum: consegue prever o futuro e comunicar com espíritos, e é a partir dos seus cadernos que a história ganha forma. A filha (Blanca) vive um amor proibido que desafia as regras sociais, enquanto a neta (Alba) acaba envolvida diretamente no clima político violento que se instala no país.
À volta delas está Esteban Trueba, o patriarca autoritário que constrói um império agrícola e uma carreira política marcada por ambição, violência e controlo. É através dele que a série explora o peso do poder, do patriarcado e das desigualdades sociais, num retrato que acompanha também a transformação de todo um país ao longo do século XX.
A narrativa cruza constantemente o íntimo com o coletivo: relações familiares, traumas e escolhas pessoais acabam por refletir conflitos maiores, como a ascensão de movimentos sociais, a chegada de um governo socialista e o golpe militar que muda a narrativa. Tal como no livro, o realismo mágico surge com naturalidade: premonições, espíritos e coincidências fazem parte do quotidiano, sem nunca parecerem deslocados.
Depois da adaptação ao cinema em 1993, com um elenco com nomes como Meryl Streep e Jeremy Irons, esta é a primeira versão em formato de série e em espanhol. Os três primeiros episódios já estão disponíveis. Os restantes vão chegando semanalmente à plataforma de streaming.
No elenco estão nomes como Alfonso Herrera (Esteban Trueba), Nicole Wallace e Dolores Fonzi (Clara del Valle em diferentes fases), Fernanda Urrejola (Blanca), Fernanda Castillo (Férula) e Nicolás Contreras (Pedro Tercero). A realização está a cargo dos cineastas chilenos Francisca Alegría, Fernanda Urrejola e Andrés Wood.
As críticas
A receção internacional tem sido globalmente positiva, ainda que com algumas divergências. Para o jornal britânico “The Guardian”, a leitura é mais crítica. O jornal descreve a série como “uma adaptação que parece antiquada e ingénua”, considerando que, apesar de momentos visuais fortes, “nem sempre consegue equilibrar os elementos fantásticos com a dureza da história política”.
Já o site “RogerEbert.com”, dedicado a cinema e televisão, tem uma visão bem mais positiva. Elogia a ambição da produção e escreve que a série “faz justiça ao clássico de Isabel Allende”, destacando o cuidado visual e o respeito pelos temas do romance. “É uma adaptação luxuosa, ambiciosa e profundamente ligada às ideias de amor, memória e justiça”, sublinha.
Também o “Collider” segue essa linha. O site considera que a minissérie é “sumptuosa, emocionalmente intensa e, por vezes, brutal”, acrescentando que “consegue captar o poder mágico e político da obra original, mesmo com algumas alterações inevitáveis”.
No fundo, a série “A Casa dos Espíritos” mantém aquilo que fez do livro um fenómeno: uma história familiar atravessada por décadas de mudanças, onde o que acontece dentro de casa nunca está desligado do que se passa no mundo lá fora. Pode não ser uma adaptação perfeita, mas é uma das tentativas mais ambiciosas de trazer o universo de Isabel Allende para o pequeno ecrã.
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