Televisão

A comediante com paralisia cerebral que não tem medo de rir — e de fazer rir

Começa e acaba os seus sets a fazer pouco da condição que a afeta desde a nascença. "Se não fosse a paralisia, não estaria aqui."
Jones sofre de paralisia cerebral

O tema era Greta Thunberg, a ativista sueca que se tornou num símbolo da luta ambientalista. A então jovem de 16 anos era notícia por todo o mundo e no programa de comédia britânico “The Last Leg”, a palavra coube a Rosie Jones.

“Acho que ela é incrível, o que está a fazer é brilhante”, assinalou a comediante. “Mas não o devia fazer agora. Primeiro tem de viver um bocadinho, afinal, tem apenas 16 anos. Devia estar a fazer apenas duas coisas: ‘drinking Lambrini and getting fingered’”.

A sugestão de que Greta deveria trocar o ativismo pelas diversões mundanas de qualquer adolescente — neste caso, beber sidra e fazer sexo — chocou até os telespectadores que voluntariamente se sentaram a ver o programa de comédia. Para Jones, foi uma medalha de honra. Comediante que é comediante, a certa altura acaba por espoletar algumas polémicas.

A britânica de 32 anos tem, contudo, um perfil muito diferente dos colegas de profissão. É, desde logo, uma mulher, a lutar por um lugar num mundo maioritariamente de homens — e a tentar quebrar o estigma de que “as mulheres não têm graça” com uma dose extra de dificuldade. A paralisia cerebral de que sofre atrapalham a fluidez do discurso, mas Jones consegue contornar este obstáculo e mostrar que tudo pode ser transformado numa oportunidade.

O momento decisivo aconteceu durante o parto. O ombro ficou encravado durante o nascimento e ficou sem oxigénio durante 15 minutos, o que a deixou com danos cerebrais irreversíveis. Mais importante: sobreviveu.

“Foi um curto intervalo de tempo que mudou toda a minha vida. Se não tivesse nascido com paralisia cerebral, a minha vida tinha sido completamente diferente, sinto que é algo tipo o efeito borboleta”, explica em entrevista à “Diva”. “Se não fosse isso, não estaria aqui, não seria eu. Sem este problema, acho que nunca teria sido comediante, porque a paralisia derruba a minha confiança e, quando aprendes a viver a vida desta forma, tornas-te um pouco destemida e pensas: não tenho nada a perder, aliás, tenho tudo a ganhar.”

Começou a carreira como estagiária no Channel 4 britânico a fazer pesquisa para vários programas. Chegou à estação de televisão através de um programa especial para pessoas com deficiência. Quando o estágio terminou, ficou desempregada, mas trouxe consigo a recém-descoberta paixão por programas de comédia. “Comecei a perceber que não me sentia feliz porque não estava a escrever”, recorda. Decidiu tirar um curso de escrita para comédia e percebeu que tinha jeito.

Sete anos depois, é um dos fenómenos recentes da comédia britânica, já atuou para milhares de pessoas no estádio de Wembley, é convidada recorrente em diversos programas televisivos e até assinou um episódio da série “Sex Education” da Netflix. É também uma atriz em formação: já participou na série “Silent Witness”, “Casualty” e mais recentemente, na curta-metragem “Disability Benefits”.

Antes do estrelato, escreveu guiões durante vários anos, longe das câmaras, até que se deu o clique. “Um dia, o Jimmy Carr usou uma das minhas piadas. Foi bom, mas ao mesmo tempo fiquei a pensar: ‘Hey, ele está a receber as minhas gargalhadas’”, recorda Jones. “Sempre pensei que, noutra vida, adoraria ter sido comediante, mas com a paralisia cerebral, ninguém me iria entender. Falo de forma demasiado lenta e as pessoas chegariam à punchline antes de eu a dizer. Mas os meus amigos começaram a dizer-me: ‘Nós entendemos-te, só precisamos de um pequeno período de adaptação.”

Inspirou-se numa das suas heroínas, Tig Notaro, que chegou a chocar a plateia ao tirar a camisola e exibir a sua dupla mastectomia. “Pensei: se ela consegue, também sou capaz de subir ao palco e usar a minha própria deficiência. O estilo dela também é pausado e, ainda assim, as pessoas estão atentas a cada palavra. Se ela consegue fazer isso propositadamente, eu também consigo. Tinha apenas de me certificar de que cada palavra era cirúrgica.”

A primeira atuação pública aconteceu de surpresa, num clube de comédia, onde tinha ido ver um amigo. Quando o mestre de cerimónias perguntou à plateia se alguém queria subir ao palco, um amigo fez-lhe sinal. “Não queres tentar?”

“Sem qualquer preparação, subi ao palco e fi-lo. A plateia riu-se. Pensei: ‘Oh meu Deus, agora fiquei com o bichinho'”, recorda ao “The Guardian”. O humor desarmante de Jones aposta, claro, em falar sobre “o elefante deficiente na sala” — “é isso que a minha mãe me chama”, brinca num dos seus especiais de comédia.

Rosie tem 32 anos e é uma das novas promissoras comediantes no Reino Unido.

“Sinto que a minha condição faz com que as pessoas à minha volta se sintam desconfortáveis, por isso, sempre recorri a algumas piadas para quebrar o gelo”, conta. “Foram aliás essas que usei nesse primeiro espetáculo, quando ainda não tinha material escrito.”

Descreve o seu humor como “desavergonhado”, mas também mais livre, porque graças à sua condição, pode “extremar as piadas”. “Sei onde está a linha e isso permite-me ir mais longe que os outros comediantes. Gosto de tentar que as pessoas se sintam mais abertas e consigam mais facilmente olhar para lá da minha condição.”

Se a paralisia cerebral — que não só lhe afeta a fala, mas também as funções motoras — não é tema tabu, durante muito tempo hesitou em falar sobre sexualidade. “Demorei muito tempo a fazê-lo. Sofro de paralisia desde que nasci e conheço bem toda essa realidade, mas durante muito tempo, a sexualidade foi algo frágil na minha vida.”

Durante a adolescência percebeu que, afinal, gostava de raparigas e não de rapazes. “Lembro-me de ir ao Google e pesquisar: ‘Posso ser deficiente e gay?'”, recordou num dos episódios do podcast “OUTcast”. “Passei grande parte da vida a tentar encaixar-me em diferentes caixas, de forma a poder integrar-me na sociedade. Fiquei com a de ‘deficiente’ e, assim, parecia que todas as outras caixas estavam interditas, a minha sexualidade, o género.”

Acabaria por assumir a sua homossexualidade e tornar-se também num símbolo da comunidade LGBTQI+, a par do trabalho que faz para normalizar a participação de comediantes com deficiências.

“Por vezes acho que tenho ‘a dose perfeita de deficiência’. Pareço deficiente, falo como uma deficiente, mas não sou demasiado deficiente. Posso aparecer em programas de comédia sem perturbar os espectadores. Não são necessárias legendas, rampas ou outras adaptações. Sou o sonho de qualquer produtor de televisão”, escreveu num artigo recente publicado no “The Guardian”.

Rosie Jones não quer só fazer o público rir — apesar de esse ser, claro, o seu principal objetivo —, quer também “ajudar a indústria a tornar-se mais acessível e acolhedora para os comediantes com todo o tipo de deficiências e necessidades especiais”. E, pelo caminho, encontrar alguém com quem seja feliz.

“Continuo a ser uma rapariga triste e só”, refere, antes de abordar a procura do par perfeito na sua aparição no “Live at the Apollo”. “Acho que estou solteira porque quando as pessoas me conhecem, só veem isto, e não se deixam ficar o tempo suficiente para conhecerem o meu verdadeiro eu”, explica. “Só preciso de alguém que seja suficientemente maduro de forma a que consiga ver além das minhas enormes mamas.”Rosie Jones começa e acaba os seus sets a fazer pouco da condição que a afeta desde a nascença. “Se não fosse a paralisia, não estaria aqui.”

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