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A história dos portugueses que levaram ao mundo as ondas gigantes da Nazaré

Dino Casimiro deu a conhecer a McNamara o fenómeno. À NiT, conta tudo, da luta de egos ao sonho tornado realidade.
A história é contada por Dino, nazareno de gema

Num dia de 2005, Dino Casimiro saiu de casa para dar o passeio do costume pela cidade onde nasceu, cresceu e ainda vive. A passagem pelo miradouro do Sítio da Nazaré era obrigatório. Na mão trazia a sua câmara fotográfica nova, comprada com um objetivo em mente: registar o gigantismo das ondas que conhecia desde miúdo, mas nas quais poucos acreditavam.

Apaixonado por surf e bodyboard, o nazareno de 44 anos percorria os spots de norte a sul e fazia questão de relatar as condições ímpares da Praia do Norte. “Chegava a um campeonato na Caparica e dizia-lhes que no dia anterior tínhamos tido ondas de dois metros. Diziam-me que era um tonto”, recorda à NiT.

“Era como a história do pescador e do peixe. Achavam que eu estava a mentir. Se ali havia ondas de meio metro, como é que na Nazaré podia haver ondas desse tamanho?”

Mais de quinze anos depois, são poucos os que desconhecem o fenómeno natural que ocorre na costa da Nazaré e que forma algumas das maiores ondas do mundo. Em tempos, o farol era sítio frequentado por Dino e um par de amigos. Hoje, mesmo em pandemia, são as forças de segurança que têm que impedir as multidões de se formarem na encosta, como aconteceu no outubro passado, época propícia à formação de ondas gigantes.

A lenda continua a crescer e a nova série documental da “HBO” dar-lhe-á certamente um empurrão. “A Grande Onda da Nazaré”, que estreou a 19 de julho e irá lançar cada um dos seis episódios semanalmente, procura contar a aventura da descoberta do novo spot de ondas gigantes, sempre do ponto de vista do pioneiro surfista Garret McNamara. Há, porém, uma novidade.

Por trás do norte-americano que emprestou o nome à notoriedade da pequena localidade piscatória surge uma equipa de portugueses que tornaram tudo possível. Em destaque está também o homem que entrou em contacto e convenceu McNamara a vir espreitar o fenómeno com os próprios olhos, Dino Casimiro.

Foi uma fotografia que tirou em 2005 que abriu a porta a cinco anos de contactos com o surfista de ondas grandes, que culminaram no início da grande aventura em 2010. McNamara foi o protagonista, mas quem o levou até à crista da onda foi um grupo de amigos nascidos e criados na Nazaré.

Dino Casimiro, Paulo Salvador, Paulo Caldeira e Pedro Pisco cresceram a brincar com as ondas que “chegavam à areia e entravam pelas ruas”, recorda o primeiro. O mar revolto e as ondas gigantes “eram banais”, ainda que únicas. Um fenómeno impressionante, por certo, mas “nunca ninguém tinha pensado de que forma se poderia tirar partido disso.”

Era uma história complicada a da Nazaré e dos nazarenos com o mar. Uma espécie de “relação amor-ódio”, também pela sua crueldade e imprevisibilidade. “Até haver porto de abrigo, os barcos saíam da areia para o mar. Morreu muita gente nas ondas, embarcações que viravam. Alguns morriam à frente da família, porque a zona onde a onda rebentava era perto da costa, os familiares assistiam a tudo.”

Com o mesmo respeito e admiração, mas já com outra visão, os quatro amigos criaram em 2002 o Clube de Desportos Alternativos da Nazaré, o “grande pontapé de saída” para toda a euforia com as ondas da Praia do Norte. Haveriam de ajudar a formar grandes surfistas e bodyboarders, não sem antes promoverem diversas competições locais.

Foi numa delas, o Special Edition, um campeonato de bodyboard, que se começou a fazer história. Num dos dias de provas da edição de 2007, o fotojornalista Miguel Barreira disparou a sua máquina fotográfica. A imagem que captou haveria de ser destacada no ano seguinte, ao conquistar o terceiro lugar na categoria de desporto dos prémios World Press Photo.

A fotografia premiada em 2008

A distinção levou as ondas da Praia do Norte a quase todos os jornais nacionais. “Esse foi o primeiro grande momento em que a Nazaré começou a ser falada pelo mundo por causa das suas ondas. Foi quando percebemos o impacto que as ondas podiam ter a nível da imprensa e do reconhecimento”, recorda Dino.

Apesar das provas aproveitarem “ a incrível consistência” da Praia do Norte, ninguém se atrevia a pôr o pé na água quando os ventos estavam de feição e as vagas atingiam alturas acima dos 10 metros.

Mesmo em dias mais calmos, eram necessárias precauções extra. Se hoje vemos os surfistas da Nazaré a serem ajudados por motas de água, muito se deve a este grupo de nazarenos. “Usámos as motas pela primeira vez no Special Edition de 2003, era a única forma de garantirmos a segurança dos atletas. Isso deu nos muito know how sobre como abordar as ondas gigantes”, conta Dino.

Apesar de meio mundo falar da fotografia premiada da Nazaré, havia um problema no terreno: a falta de apoios. “À parte de alguns pequenos patrocinadores e de uma pequena ajuda do município, nunca ninguém acreditou que poderíamos chegar onde chegamos”, explica. “Foi uma batalha muito grande. Houve muita gente ligada ao surf que disse não, muitos que não tiveram visão e agora se arrependem.”

Dino Casimiro tem 44 anos e é um apaixonado pelas ondas da Nazaré

Os quatro amigos continuaram a acreditar, mesmo contra o aparente desinteresse dos próprios nazarenos. Lutaram contra o “estigma dos pescadores”, que diziam que o mar da Praia do Norte “era o Diabo”. “Ninguém queria estar associado a um projeto que poderia acabar em mortes.”

À procura do surfista perfeito

Um dia, o telefone tocou às três da madrugada. Dino atendeu. Era Garret McNamara, entusiasmado com a ondulação prevista para a zona da Nazaré. “A minha mulher até refilou”, recorda o português. “Disse-me que queria vir para cá, pediu para arranjar motas, apoio, tudo.”

Desde o primeiro email enviado por Dino a McNamara, ainda em 2005, que os dois mantinham contacto. O português enviava-lhe as fotos das ondas gigantes, o norte-americano deliciava-se, mas o encontro tardava. “Nesse dia em que me ligou, disse-lhe para não se preocupar, que esse não era o dia perfeito, mas que quando ele chegasse, teria tudo pronto.”

A ambição de levar ao mundo a onda gigante que tão bem conheciam fez com que traçassem um novo plano: um projeto mais pequeno, mais focado e menos dispendioso, o North Canyon.

A primeira foto que Dino Casimiro enviou a Garrett McNamara

“O Garrett era a pessoa indicada para surfar a onda. Sabíamos que o projeto só fazia sentido se fosse com ele”, explica, apesar de notar que foram feitos convites a outros surfistas, mas que nunca tiveram a vontade, a mentalidade certa ou as condições propícias.

Em 2010, todos os elementos externos estavam no ponto para criar a investida perfeita. O mar, esse estava sempre pronto. “Não há mais nenhuma praia no mundo que dê tantos dias de ondas acima dos dez metros. Já chegou termos 30 dias seguidos. É um fenómeno da natureza.”

Nesse ano, McNamara aceitou finalmente o convite, fez as malas e partiu para um mês de exploração na Nazaré. “Foi a primeira opção, aceitou e ainda bem. Se não fosse ele, teria sido outro, mas não íamos desistir.”

A primeira vez

Foi um mês infernal. Não era raro acordar-se às quatro da madrugada e regressar-se à cama à uma do dia seguinte. As famílias passaram para segundo plano, o trabalho era feito nos tempos mortos.

“Só vivemos para aquilo nesse mês. Fazíamos tudo: levávamos as motas para a água, ajudávamos no farol, surfava-se, se ele quisesse voltar a água à tarde voltávamos a fazer tudo e, ao fim do dia, juntávamo-nos para fazer a seleção de imagens e enviar à imprensa”, conta. “Saiu-nos da pele mas valeu a pena.”

Batalhar contra força das ondas gigantes formadas pelo canhão da Nazaré é uma luta inglória. Ao longo dos anos houve muitas lesões e motas de água danificadas. “Não há dia que as motas não tenham problemas, volantes que se partem, carnagens que estalam, bancos que saltam. E as turbinas, ao fim de um ou dois meses naquela água cheia de areia, ficam todas moídas e têm que ser trocadas. Cada uma são mil euros”, explica. “Sem apoios, não era fácil.”

Eles haveriam de chegar, juntamente com a recompensa por todo o esforço, mas apenas no ano seguinte, à segunda visita de McNamara. Num dia improvável e aparentemente rotineiro, tudo se conjugou para a onda perfeita que o norte-americano manobrou na perfeição.

Do farol, onde assistiam a tudo, percebeu-se logo que tinha acontecido algo de especial. Com a hesitação normal de quem vê história a ser feita à sua frente, a equipa reuniu-se à noite para rever as imagens — uma cena que ficou gravada e faz parte do documentário, que pede aliás emprestadas muitas gravações dos filmes feitos pela North Canyon.

“Sabíamos qual era a onda que era recorde do mundo, uma do Mike Parsons, em Cortes Banks. Quando abrimos o ficheiro e comparámos as duas ondas, percebemos que uma era incomparavelmente superior à outra.” Foi tudo mantido em absoluto segredo.

Durante cinco dias, McNamara consultou dezenas de amigos surfistas para darem o seu parecer sobre a onda. Seria a maior onde alguma vez surfada? A maioria dizia que sim.

A equipa preparou o anúncio, o vídeo, e cinco dias depois enviou-o à imprensa, neste caso ao canal de desporto “ESPN”. A maior onda do mundo havia sido surfada em Portugal e tinha quase 30 metros, anunciavam.

“Sabíamos qual era o potencial da Praia do Norte, não só para quem faz surf — porque não há mais de 50 pessoas em todo o mundo capazes de o fazer —, mas sobretudo para quem quer ver as ondas, porque esses são milhões que podem vir à Nazaré”, explica. A velocidade com que as imagens correram o mundo surpreendeu toda a gente.

As medições foram feitas e McNamara acabaria por ir até aos Estados Unidos receber o prémio do recorde mundial da maior onda surfada. Estava cumprido um dos objetivos dos quatro nazarenos, “mostrar as nossas ondas ao mundo inteiro”. “Sabíamos que iria transformar a Nazaré.”

A luta de egos

O sonho tinha-se tornado realidade. A equipa portuguesa, McNamara e a mulher Nicole criaram “uma ligação de amizade muito grande”. “Demos-lhe todas as condições para que ele se concentrasse apenas em explorar as ondas”, explica Dino, que sublinha o know how que o norte-americano trouxe para Portugal, a “capacidade para surfar aquelas ondas”, para “preparar e conduzir as motas”.

“Entre a vontade que tínhamos de mostrar a Nazaré ao mundo e a vontade dele de surfar a maior onda, criámos uma enorme sinergia.” Depois veio “o mini-divórcio” e o obstáculo dos “egos”.

“Depois do boom, ficou uma recordação agridoce. O Garrett tentou sempre tirar o máximo partido do que estava a acontecer e puxou os louros todos para ele”, conta Dino. “Ele obviamente nunca teria conseguido nada do que foi feito se nós não tivéssemos uma equipa super profissional, conhecedora do que estava a fazer.”

Toda a força e curiosidade da imprensa se abateram sobre a Nazaré, à procura de explicações e muitas boas histórias. Quem era o homem que ousou surfar a maior onda do mundo? Como o fez? E por que raio é que uma pequena localidade portuguesa era a casa de ondas tão grandes?

“[A equipa de portugueses] nunca procurou protagonismo. Os protagonistas eram a Praia do Norte, a Nazaré e o Garrett”, nota. “Só que o Garrett começou a tentar passar para fora que tinha sido ele a descobrir as ondas, o que não é verdade. Se não tivéssemos enviado a foto, ele nunca a tinha descoberto. Se não tivéssemos a equipa que tínhamos, nunca a teria surfado.”

Os portugueses não procuravam protagonismo, mas sim o reconhecimento do papel fulcral desempenhado no feito. Nas entrevistas, sublinha Dino, McNamara evitava o tema. E isso chegou a ser tema de conversa entre ambos.

“Não quero nada [do Garrett] a não ser respeito pela Nazaré e pelas pessoas que o ajudaram a chegar até onde está.”

“Tive uma conversa com ele sobre isso. Sou sincero, ele não me deve nada a mim a não ser respeito. E disso não abdico. Não quero nada dele a não ser respeito pela Nazaré e pelas pessoas que o ajudaram a chegar até onde está.”

As diferentes versões que o surfista americano contava na imprensa mudavam, diz, variavam. Mas nunca incluíam menções ao apoio prestado pela equipa nacional. “Nunca explicou que havia um projeto que era o North Canyon, que lhe dávamos todo o apoio. Não o explicou porque tinha interesses, sobretudo com os patrocinadores que tem hoje em dia — e que fomos nós que lhos arranjamos.”

Casimiro aponta-lhe também a ambição, não só na conquista de patrocinadores — que diz terem investido em McNamara e raramente ou nunca na equipa da North Canyon que tornava tudo possível — mas também na falta de vontade de trazer mais surfistas para o acompanharem na Praia do Norte, algo que deveria ter acontecido em 2012.

“Tentou sempre ser ele a surfar a onda de 30 metros. Se fosse só ele a surfar sozinho era muito mais fácil do que ter dezenas de melhores do mundo a surfar com ele”, explica.

Se o norte-americano procurava as suas metas, a dos portugueses passava pela “democratização da Praia do Norte”, oferecer as ondas gigantes a “qualquer um que as quisesse surfar”. A partir de 2013, os recursos da equipa que até aqui ajudara McNamara abria-se a todos os que chegassem à Nazaré.

As multidões invadem o farol em dias de ondas gigantes

Sobre o assunto, Dino Casimiro não guarda rancor. Pelo contrário, explica que tudo ficou resolvido e que a amizade se mantém. “Teria sido muito mais fácil para todos se ele tivesse dito que fez o que fez com a equipa portuguesa, que foi o que fez agora ao fim de dez anos [no documentário da “HBO”].”

Apesar de ainda não ter falado com McNamara sobre a série documental, Dino acredita que ela serviu para “repor a história” e servir como uma espécie de “mea culpa” de Garrett e Nicole McNamara. “É difícil estares a contar uma história durante anos e depois dizeres que não foi nada assim. É difícil assumir isso, mas acho que há ali um mea culpa (…) É uma verdade que ninguém pode contradizer e está finalmente a assumir isso.”

Apesar de tudo, o nazareno que cresceu a ver as ondas romperem entre as rochas, a areia e as ruas da Nazaré, reconhece ao norte-americano o mérito de ter domado o tal Diabo que os pescadores locais temiam. Sublinha vontade abnegada de McNamara e do seu “caminho muito meritório” e deixa um desejo: “Espero que corra tudo bem para ele e para a Nazaré. E que finalmente as pessoas percebam que havia uma equipa de trabalho dedicada que fez tudo isto acontecer.”

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